A LINGUAGEM DOS JOVENS: CONTEXTO E SIGNIFICADOS
1. INTRODUO
1. INTRODUO
A lngua portuguesa oferece um leque de possibilidades de uso da mesma, pois tendo um carter de heterogeneidade, varia de acordo com o tempo, a localidade, a idade e a classe socioeconmica de seus falantes. O lxico, por sua vez, ao longo do tempo, est propenso mudana, e, assim como mudam as formas das palavras, seus significados tambm vo sofrendo modificaes. E essas mudanas so resultados de influncias externas de fatores sociais e culturais, que fazem com que as palavras adquiram novos significados e outras caiam em desuso.
Os jovens, por exemplo, usam a linguagem verstil e criativa das grias para se comunicarem. Essa linguagem popular contm termos prprios, que possuem um sentido literal e outro sentido figurado, onde este ltimo, ser definido atravs da observao de seu uso nos determinados contextos, uma vez que, palavras no podem ter seus significados interpretados fora de um contexto.
Tomando como objeto de estudo, a linguagem dos jovens, na qual observa-se a manifestao de termos conhecidos como "grias", procuraremos analisar a relao entre o significante e os significados das palavras e expresses faladas por estudantes adolescentes, apoiados na observao dos contextos em que foram utilizadas.
Neste trabalho faremos uso da linha de abordagem fundamentada no discurso, explorando, os significados que as palavras podem assumir dentro de contextos variados. Tomamos como base terica, entre outros, os trabalhos de Possenti (2000) e Travaglia (006), que estudam a expressividade da linguagem de grias, e ainda, os trabalhos de Ducrot (2005) e Koch (2006), que fazem estudos sobre a importncia do contexto para a interpretao dos significados.
Para a realizao deste estudo, coletou-se entrevistas feitas com adolescentes entre 14 e 18 anos, estudantes da escola C.E.M. Prof Lda Maria Chaves Tajra, localizada no bairro Vila So Joo, em Bacabal, Estado do Maranho. A escolha da faixa etria citada, foi devido presena constante de grias na fala de adolescentes dessa idade. A partir da observao das entrevistas, nos propusemos a:
Analisar as grias faladas pelos adolescentes durante as entrevistas, observando os significados base e contextual.
Identificar a relevncia do contexto de uso das falas para a interpretao das grias.
Objetivamos com a realizao dessa pesquisa, analisar os significados das grias faladas pelos adolescentes, mostrando que esta linguagem um cdigo lingstico engajado, que conquista cada vez mais espao na sociedade brasileira e que requer a ateno dos estudiosos. Pretendemos ainda, mostrar a importncia do contexto para a interpretao e compreenso das palavras e expresses caractersticas dessa linguagem.
Para tal fim, este trabalho estar sistematizado em itens que seguem a seguinte ordem:
Primeiro faremos uma abordagem sobre a produo de significados dentro da lngua, demonstrando a importncia do contexto para a interpretao do sentido das palavras e expresses faladas. No segundo item, faremos um breve estudo das grias, que caracterizam a linguagem dos jovens e adolescentes e sua funo dentro da lngua. Na seqncia, teremos os procedimentos metodolgicos utilizados na elaborao dessa pesquisa. No quarto item, faremos a anlise das entrevistas feitas com os adolescentes, levando em considerao, as grias produzidas por eles. E, por fim, exporemos os resultados obtidos na concluso da pesquisa.
Levando em considerao que a linguagem das grias abrange todas as idades e classes sociais, procuraremos limitar a presente anlise quelas produzidas por jovens estudantes, de classe social baixa.
2. A PRODUO DE SIGNIFICADOS: AUXLIO DO CONTEXTO
No seio dos estudos que tematizam a linguagem, encontramos estudadas individualmente ou conjugadas entre si, abordagens fonticas, morfossintticas e semnticas. Enquanto o estudo fontico da linguagem preocupa-se com as variaes sonoras do lxico e o morfossinttico explora as formas e as relaes combinatrio-estruturais do lxico da lngua, o estudo semntico, que vem a nos interessar nesta pesquisa, enfoca os nveis do lxico, da estrutura frasal at a unidade textual, analisando e desvendando os significados.
Assim, os estudos semnticos evoluram medida que os estudiosos da lngua sentiram a necessidade de explorar a linguagem, buscando os significados existentes nela, a partir da observao da mudana de significados que um mesmo referente adquire diante de situaes de fala divergentes. Os estudos da lngua eram, at ento, de carter gramatical.
A disciplina Semntica, proposta por Brel, estava, inicialmente, condicionada viso historicista e limitada ao plano lexical. A partir das abordagens pioneiras, a Lingstica ganhou uma nova ramificao, a Semntica, que presta fundamental contribuio para os estudos terico-prticos das lnguas, e hoje, os semanticistas exploram desde lxicos aos textos, em suas variadas formas de apresentao. Como afirma Marques (2001, pg.33) "a semntica proposta por Brel abria caminho para que fossem superados os rgidos princpios mecanicistas dos neogramticos e a concepo de lngua como fenmeno fsico, incorporando lingstica o estudo de aspectos conceituais da linguagem."
O crescimento da Lingstica e suas ramificaes fez-se com base nas teorias de Saussure (1916) na Europa. Dentre as teorias propostas por Saussure para o tratamento da linguagem, tem influncia nos estudos semntico-lingusticos, o princpio da noo de signo lingstico, constitudo pela combinao de um significante e um significado; onde o significante a imagem acstica e o significado, o conceito. Assim, segundo Saussure (1995, pg.81) "o signo lingstico , pois, uma entidade psquica de duas faces."
Baseado na teoria do signo lingstico, de Saussure, observamos que as palavras possuem um referente (significante) e um conceito (significado). Todavia, o significado de uma palavra no absoluto ou nico; ele pode mudar de acordo com o contexto de fala em que o locutor se encontrar, ou seja, a mesma palavra poder assumir diferentes significados que sero definidos durante a situao de comunicao. Para Ducrot (2005, pg.10) "o sentido de uma palavra se constri sempre com a considerao do contexto em que ela aparece". , pois, esse contexto, ou seja, o momento que envolve a enunciao, que torna os significados das mensagens concretos.
Numa situao de fala, a interao falante/ouvinte e todos os elementos envolvidos nesse contexto devem ser levados em considerao, para que se possa compreender e interpretar os sentidos da comunicao. Como enfatiza Koch (2006, pg.59) "a produo de sentido realiza-se medida que o leitor considera aspectos contextuais que dizem respeito ao conhecimento do mundo, da situao comunicativa."
Considerando o contexto da enunciao, poderemos, ento, tentar identificar os significados pretendidos por um falante em seus enunciados, uma vez que, uma mesma palavra poder assumir significados diferentes em cada situao. Para Possenti (1997, pg.07) "sentido no algo prvio e pronto que uma forma embala; , antes, um efeito." Cabe, pois, ao observador ou pesquisador, na realizao de um estudo lingstica-semntico, como aqui propomos, analisar cautelosamente esses efeitos, ou seja, essas variaes de significados.
Ilari considera que nos sentidos das palavras esto combinados elementos conceituais e elementos afetivos, onde os primeiros dizem respeito s caractersticas objetivas das realidades daquilo que falamos e os outros, referem-se s associaes e reaes que provocam nos ouvintes (2006). Para ele "como essas associaes so sempre prprias de grupos determinados, a presena de elementos afetivos no sentido de uma palavra obriga-nos a considerar as posies (polticas, religiosas, etc.) de quem fala." (2006, pg. 68)
2.1. A LINGUAGEM DOS JOVENS
Considerando o fenmeno da variao lingstica, que caracteriza "as diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade".TARALLO(2002,pg.08), atravs das variedades da lngua portuguesa, dirigimos a ateno para uma linguagem bastante difundida no Brasil, a linguagem de jovens e adolescentes, enfocando as caractersticas semnticas dessa linguagem.
Cada grupo social e etrio tem uma maneira particular de se comunicar, com peculiaridades que constituem cada variedade da lngua. caracterstica da linguagem dos jovens, a utilizao de grias. Para Travaglia (1998, pg.46) "os jovens criam as grias na busca de independncia pessoal e/ou grupal, quando um modo de falar se destina ao uso entre os membros de determinados grupos.".
As palavras "grias" possuem geralmente um significado literal, dicionarizado e outro que poder variar de acordo com o contexto em que for utilizada, salvo algumas grias modernas que possuem apenas o significado literal. Com o passar do tempo, assim como em qualquer outra linguagem, alguns termos vo caindo em desuso e so substitudos por outros mais novos. , contudo, uma linguagem de carter oral, pois na escrita prevalece a linguagem mais aproximada daquela considerada padro do portugus.
Os jovens e adolescentes criam palavras novas para a comunicao pessoal dentro de seu respectivo grupo social, diferenciando-o dos demais. A gria revela-se, assim, como um cdigo lingstico perfeitamente eficaz na transmisso de mensagens, demonstrando a dinamicidade da lngua portuguesa. Possenti considera a gria como um cdigo usado por aqueles que fazem parte de determinado grupo para reforar que esse falante pertence quela turma especfica. (POSSENTI, 2000).
Criando seu prprio cdigo, os jovens e adolescentes esto fazendo uso das possibilidades que a lngua oferece e diferenciando sua linguagem das dos demais grupos. Dessa forma a gria uma marca da comunicao jovem. Possenti caracteriza a griacomoum mecanismo para a criao da identidade dos jovens. (2000). Mas diante das potencialidades da lngua, pais e educadores devem contribuir para que os jovens e adolescentes tenham acesso a bons livros, para adquirirem um vocabulrio amplo e fazerem uso dessas potencialidades da lngua portuguesa, de forma favorvel.
Gurgel comenta que,no Brasil, a gria j um modismo, um recurso de linguagem, de ricos e pobres, de alfabetizados e no alfabetizados, de jovens e idosos,transcendendo a todasas tribose galeras; e que esta linguagem est mudando a lnguaportuguesa de forma persistente e intensa, mas que poucos pesquisadores se deram conta do que est acontecendo. (2000)
H, pois, no Brasil, grias diferenciadas que so faladas em locais diferentes, por pessoas de classes sociais ou profisses diferentes e at mesmo dentro do prprio grupo de jovens, elas variam de acordo com a idade de cada falante. , portanto, um cdigo lingstico diversificado, que bastante difundido no pas e merece uma ateno especial por parte dos pesquisadores da lngua.
Particularmente, neste estudo nos interessa as grias desenvolvidas por jovens no mbito escolar. Retomando a dicotomia de Saussure "significante/significado", constituinte do signo lingstico, podemos considerar cada ocorrncia de gria como o signo lingstico, constitudo de uma imagem acstica (significante) e um conceito (significado), em que aquele permanecer o mesmo, enquanto este muda de acordo com cada contexto em que ocorre, como veremos na anlise aqui proposta, a seguir.
3. PROCEDIMENTOS METODOLGICOS
As atividades para a realizao deste trabalho foram desenvolvidas com adolescentes entre 14 e 18 anos, de ambos os sexos, residentes no municpio de Bacabal-MA, estudantes do C.E.M. Professora Lda Maria Chaves Tajra, escola de ensino mdio, da rede estadual de ensino, localizada na Avenida Santos Dumont, bairro Vila So Joo. As entrevistas foram feitas no ms maio de 2009, nos turnos matutino e vespertino.
Foram coletadas 20 entrevistas, correspondentes a 100% da amostra, proferidas por alunos de turmas de 1, 2 e 3 ano do ensino mdio, encontradas no corpus anexado.
As etapas para a confeco do corpus foram assim distribudas:
Elaborou-se um questionrio para ser aplicado aos estudantes, contendo perguntas sobre o dia-a-dia escolar dos alunos e seu convvio com os colegas;
Os alunos foram entrevistados no seu horrio de aula, respondendo s seis perguntas solicitadas no questionrio ( vide anexo);
Para a coleta das entrevistas utilizou-se um gravador porttil;
Posteriormente, as entrevistas foram transcritas da gravao para o papel, onde foram analisadas.
Critrios foram adotados para a anlise dos dados:
Fez-se o levantamento bibliogrfico de tericos que tratam do assunto abordado neste trabalho, e como base utilizou-se, entre outros, os trabalhos de Ducrot (2005) e de Possenti (2000).
Do corpus tomado para anlise, retirou-se palavras e expresses faladas pelos adolescentes, para o estudo dos significados literal e contextual das mesmas.
Para a retirada dos contextos dos textos transcritos (em anexo), considerou-se as duas linhas anteriores e as duas posteriores realizao da palavra ou expresso.
4. ANLISE E DISCUSSO DOS DADOS
Para proceder a anlise que segue, foram extrados contextos onde localizam-se grias faladas pelos adolescentes durante as entrevistas. Observou-se como se d a realizao da referida linguagem e os significados que essas grias assumem nas situaes de fala dos informantes. Para cada realizao de fala analisada, consideramos o seguinte esquema: STE SDO, onde significante (STE) a palavra ou expresso pronunciada pelo adolescente, e significado (SDO) a significao que a palavra ou expresso assume dentro do contexto situacional.
Atravs da anlise feita, observou-se a presena constante de grias. Veja os exemplos que seguem:
(01) "(...)Ah! Meus colega so muito mala, mala assim na forma, a forma brincadeira de falar, sabe? Pensa lento" (L.S.S.)
(02) "Tem uns que so bem legais e outros que so mala, no compartilha as brincadeiras com a gente." (M.A.C.N.)
Em (01) e (02) temos a gria "mala", cujos significados literal e contextual esto dicionarizados. O dicionrio trs os seguintes significados: sf. mala uma espcie de caixa de pano ou de couro, em geral fechada com cadeado, usada para transporte de coisa em viagem: gr. pessoa enfadonha, maante. Essa gria comumente utilizada no sentido pejorativo. No exemplo (01), o adolescente entrevistado, por sua vez, refere-se a seus colegas como malas, ou seja, eles assumem comportamentos maantes, mas retruca que fala de forma amigvel, como forma de brincadeira. Em (02), por sua vez, o adolescente considera seus colegas como "malas" porque estes no gostam de brincar com os demais. Temos o esquema:
STE = mala SDO = maante
Vejamos os exemplos:
(03) "(...)Eu tenho um colega chamado Gilfran, ali um peixe mesmo, tudo que eu preciso ele me arruma, se eu tiver precisano de dinheiro, ele me empresta."( L.S.S.).
(04) "Ah! Eles so o meu peixe a, , o Ronaldo, o Ronaldo o peixe demais, ele, ele me ajuda em tudo, isso a, eles so meu peixe demais." (A.J.F.T.)
Quando os informantes falam "peixe", podemos perceber, de acordo com os contextos dos enunciados (03) e (04), que essa palavra est sendo utilizada com um sentido diferente do seu sentido literal. Uma vez que, temos, segundo o dicionrio: peixe sm. animal vertebrado que vive em gua. Nesses contextos, os informantes utilizam a gria "peixe", com significado de "bom amigo", significado este, que se comprova com as atitudes desses amigos, descritas pelos entrevistados.
STE = peixe SDO = bom amigo
Observemos o prximo exemplo:
(05) "h! Tem uns cara que so peixe, ajuda a gente quando a gente precisa, mas tem outros que so mala demais, s serve pra entregar a gente pra diretora, h".(J.S.F.)
No contexto (05), "peixe", tem sentido semelhante ao utilizado nos contextos (03) (04), ou seja, "bom amigo". Percebemos isso, quando o informante menciona que alguns de seus colegas o ajudam quando precisa. J o termo "mala" trs um significado que difere do encontrado em (01) e (02), pois neste, quando o informante refere-se aos colegas de escola como "malas", est dizendo que so traidores e desleais para com o mesmo, uma vez que estes contam os acontecimentos diretoria. Percebemos, assim, que, de acordo com o contexto, para o informante, "peixe" e "mala" so palavras contrrias em significao. Para tal contexto postamos dois esquemas:
STE = peixe SDO = bom amigo
STE = mala SDO = traidor
Vejamos os contextos que seguem:
(06) "(...)Ah! Eu gosto de praticar futebol, entrar na internet e sair com meus colegas pra balada." (L.S.S.)
(07) "Gosto de jogar vdeo game, sair com os cara pra balada e bater bola." (J.S.F.)
(08) "Eu gosto de ler, de assistir TV, ouvir msica e s vezes, vou pra balada." (A.C.S.)
Em (06) observamos o uso da gria "balada". uma gria bastante usada atualmente e tem como significado contextual, "festas" aonde os jovens e adolescentes vo para se divertirem. O dicionrio oferece o seguinte significado: balada sf. Poema narrativo de assunto lendrio ou fantstico e de carter simples ou melanclico. O significado dicionarizado desta palavra pouco conhecido por ser utilizado somente em reas especficas, como na rea de Letras, e os jovens usam-na com o significado outrora mencionado. Nos exemplos (07) e (08) encontramos a realizao da gria "balada" em conformidade de significado com o exemplo (06).
STE = balada SDO = festa
(09) "(...) enquanto o professor no entra na sala, eu fico conversano com a galera." ( G.F.)
(10) "(...)Chego, brinco e converso um pouco com a galera, assisto aula, bato papo no intervalo, paquero as gatas e vou pra casa." (M.A.C.N.)
Do exemplo (09) e (10) retiramos para observao a palavra "galera". O dicionrio apresenta mais de um significado para a mesma: sf. 1. antigo navio vela, com trs mastros: e 2. Bras. Torcida. De acordo com os contextos de fala dos entrevistados, "galera" est significando "amigos reunidos": este o significado mais comumente utilizado. Podemos perceber que o significado 2."torcida", do dicionrio, tem aproximao com o significado da gria, pois ambos do idia de pessoas reunidas. Contudo, "torcida" significa pessoas reunidas, torcendo por um objetivo em comum, e "galera", no.
STE = galera SDO = amigos reunidos
Observemos os contextos que seguem:
(11) "(...) Ah! Meus colegas so uns caraassim, bem bacana oh, acho que desde primeiro ano mesmo que comecei aqui nessa escola, que o Leda, conheci muita gente legal." (G.F.)
(12) "Ah! Ma turma bacana, eu me dou bem com todo mundo, a gente conversa, s vezes sai junto pras baladas, a gente sai pra pegar umas gatas." (F.G.S.)
Percebemos em (11), a ocorrncia das grias "cara" e "bacana". Em que, quando o entrevistado fala "cara", est referindo-se aos seus colegas de escola. Esta gria usada frequentemente com significado de "colega, amigo ou qualquer indivduo ao qual se esteja dirigindo uma fala", e este sentido afetivo diverge do sentido literal, contado em dicionrio. Segundo o dicionrio, "cara" tem alguns significados como: 1. rosto, 2. semblante, 3.aspecto, 4. ousadia. Quanto palavra "bacana", uma gria comum, usada no somente por jovens, mas indivduos de diferentes idades. A mesma, classificada morfologicamente como adjetivo e possui significado dicionarizado, indicando "palavra que exprime inmeras idias apreciativas, equivalendo a bom, excelente, belo, etc., e aplicada a pessoas e coisas." De acordo com o uso feito pelo entrevistado, "bacana" est significando quaisquer das indicaes apresentadas pelo dicionrio, pois ele est referindo-se s qualidades dos colegas. No exemplo (12) ocorre tambm a gria "bacana", cujo significado condiz com o encontrado em (11).
STE = cara SDO = colegas de escola
STE = bacana SDO = bons
Veja o exemplo que segue:
(13) "Gosto de sair, pegar umas gatas, bater uma bolinha, andar na rua." (J.A.T.S.)
Em (12) e (13) ocorre a expresso "pegar umas gatas", que uma expresso bastante utilizada no meio jovem e, como podemos perceber, significa namorar com alguma garota, uma vez que, "pegar" significa namorar e "gatas", significa garota.
STEs = pegar umas gatas SDO = namorar uma garota
O exemplo a seguir trs uma expresso bastante atual; vejamos:
(14) "(...) Ah! Eu gosto muito de bater um playsin, jogar bola, viajar na net tambm, abrir o meu orkut."(G.F.)
"Playsin" uma derivao da forma verbal "play", do ingls, cujo significado jogar, brincar. Quando o entrevistado diz que gosta de "bater um playsin", ele est afirmando que gosta de jogar vdeo game. Podemos perceber que o significado da expresso se aproxima da traduo do verbo para o portugus, ou seja, jogar. Contudo, uma gria, cujo significado desconhecido para as pessoas que fazem parte de outros grupos etrios, principalmente para os indivduos que tambm desconhecem o significado do verbo ingls "play".
STEs = bater um playsin SDO = jogar vdeo game
Vejamos o exemplo que segue:
(15) "A ma rotina na escola muito agitada, sempre no maior alto-astral com os meus amigos." (A.C.M.)
Tomamos para anlise a expresso "no maior alto astral". uma expresso usada por indivduos de diferentes faixas etrias e, de acordo com sua realizao no contexto acima, est significando "alegre", ou seja, a rotina da adolescente e sua convivncia com os colegas de escola alegre, divertida, bem humorada. O dicionrio traz a seguinte definio para alto-astral: sm.1.estado de esprito favorvel atribudo a suposta influncia positiva dos astros, ou 2. um indivduo que vive bem humorado.
STEs = no maior alto astral SDO = alegre
Vejamos os exemplos:
(16) "(...) jogar bola, viajar na net tambm, abrir o meu orkut." (G.F.)
(17) "(...)eu fao os meus deveres, a depois eu vou jogar vdeo game, jogar
futebol, ..., assistir televiso e jogar no computador e viajar na net." (A.J.F.T.)
(18) "Gosto de jogar bola, viajar na net, conversar com a galera no orkut e curtir uma balada no fim de semana." (A.A.A.)
(19) "Gosto de jogar bola, de ir pro cyber navegar na net e namorar." (F.G.S.)
(20) "Gosto de jogar futebol, navegar na net, paquerar na balada." (M.A.C.N.)
Nos exemplos (16), (17) e (18), percebemos a ocorrncia da expresso "viajar na net", que bastante utilizada pelos adolescentes e significa "acessar a internet", para fazer pesquisas, conversar com pessoas atravs do correio eletrnico, etc. Entretanto, encontramos tambm em (19) e (20) a expresso "navegar na net", que de acordo com os contextos em que ocorrem, tm valor equivalente ao da expresso "viajar na net", ocorrida nos exemplos imediatamente anteriores, ou seja, acessar a internet.
STE = viajar na net SDO = acessar a internet
STE = navegar na net SDO = acessar a internet
Temos os contextos:
(21) " eles so muito legais e eles me ajudam muito e me ajudam nos dev que eu no sei... e eles so muito legais." (E.P.M.)
(22) "Tem uns que so chato pra caramba. A te, tem uns que so legais, porque so pessoas agradveis." (R.F.S.)
(23) "Tem uns que so bem legais e outros que so mala, no compartilha as brincadeiras com a gente." (M.A.C.N.)
Dos exemplos (21) e (22) e (23), extramos a palavra "legais" (plural de legal), que segundo o dicionrio pode ser: 1.legtimo, ou 2. palavra que exprime numerosas idias apreciativas como timo, perfeito, etc. De acordo com os exemplos acima, os informantes, quando dizem legais, esto referindo-se a seus colegas, que segundo indicam os contextos, so pessoas boas, que lhes ajudam, brincam juntos e so companheiros: isso confirma os significados contidos no dicionrio.
STE = legais SDO = companheiros
Observemos os exemplos a seguir:
(24) "(...) a professora de Literatura, ... fez uma apresentao para eu me vesti de prostituta, a eu peguei e me vesti e fiquei muito... ... lombroso." (E.P.M.)
(25) "Rapaz, tem uns cara que so lombroso demais, gosta de fazer mulecage. A gente se diverte pra caramba junto, principalmente na hora do recreio e da sada." (A.A.A.)
(26) "(...) Estudar, fazer trabalho chato, prova difcil, eu tirano nota baixa e depois a me fica com lombra l em casa, rapa f..." (J.A.T.S.)
Em (24) e (25) ocorre a gria "lombroso", que, como podemos observar, um adjetivo. Seu significado no est dicionarizado, pois constitui uma gria nova. De acordo com ambos os contextos, a referida palavra pode significar engraado, ou irreverente. No exemplo (24), o informante est referindo-se forma como ele, que do sexo masculino, ficou vestido de com roupa de mulher. J em (25), o informante refere-se a um colega que gosta de fazer brincadeiras na sala de aula. No exemplo (26), ocorre a gria "lombra", que assume, morfologicamente, a forma de substantivo, do qual poderia derivar o adjetivo "lombroso", encontrado no contexto (24) e (25). Todavia, de acordo com o contexto (26), "lombra" assume significado distinto do adjetivo "lombroso", e est significando reclamao, uma vez que o informante diz que, quando tira nota baixa, a me fica com lombra, isto , a me reclama com ele. Assim temos:
STE = lombroso SDO = engraado
STE = lombra SDO = reclamao
Analisemos os exemplos:
(27) "(...) Na hora do recreio, a gente fica cantando na sala, os meninos batem na carteira e fazem um som maneiro."(S.M.A.)
(28) " maneira. Chego, brinco e converso um pouco com a galera, assisto aula, bato papo no intervalo, paquero as gatas (...)" (M.A.C.N.)
Nos exemplos (27) e (28) ocorrem as grias "maneiro" e "maneira", que segundo o dicionrio, significam: 1.fcil de manejar: 2.que exige pouco esforo: 3. gr. bacana. Percebemos que os significados literal e conotativo esto dicionarizados, onde a gria maneiro(a) significa o mesmo que "bacana", ou seja bom(a). Assim, em (27) o informante considera boa, a msica que cantava com os colegas, enquanto em (28), o informante considera boa, a sua atividade rotineira na escola.
STE = maneiro SDO = bom
STE = maneira SDO = boa
Vejamos os exemplos que seguem:
(29) "(...) eu chego, guardo o material na sala e vou l pra fora bater um papo com os meus brother at o professor chegar pra d aula." (F.G.S.)
(30) "(...)Chego, brinco e converso um pouco com a galera, assisto aula, bato papo no intervalo, paquero as gatas e vou pra casa." (M.A.C.N.)
(31) "(...)Eu s chego atrasado e vou pra sala e assisto as aulas, no recreio bato um lero com a galera, volto pra sala e depois vou embora." (A.A.A.)
(32) "Tem meus peixe aqui, a gente troca sempre uma idia, brinca junto, bacana." (J.A.T.S.)
Nos exemplos (29) e (30) ocorre a expresso "bater papo", e de acordo com o contexto, tem valor semntico de conversar, ou seja, os informantes expressam que conversam com os colegas fora do horrio de aula. Em (31) e (32) ocorrem as expresses "bater um lero" e "trocar uma idia", respectivamente, que tem a mesma significao, isto , conversar, de "bater papo", como nos confere o contexto.
STEs = bater papo SDO = conversar
STEs = bater um lero SDO = conversar
STEs = trocar idia SDO = conversar
A seguir temos:
(33) "(...)Fora as partes complicadas de prova, trabalho e assunto ruim, eu gosto. Tem uns professor que tira muita onda e eu no gosto no, sabe? Pegando no p, j basta ma me." (A.A.A.)
(34) "(...)os cara l gostam de tirar aquela velha onda com os professores, mas tem uma professora que num gosta, sabe?" (A.A.A.)
Em (33) e (34) ocorre a gria "tirar onda", com significaes distintas. Em (33) o informante diz que alguns professores gostam de "tirar onda", no sentido de exigir dos alunos o cumprimento das obrigaes, como nos confirma o contexto em que se insere. Em (34) "tirar onda" significa "fazer uma brincadeira", pois o informante utiliza a palavra "velha" no meio da expresso e suaviza o sentido. Assim, em (34) o informante diz que os colegas gostam de fazer brincadeiras com os professores.
STEs = tirar onda SDO = fazer exigncias
STEs = tirar onda SDO = fazer brincadeira
Vejamos o exemplo:
(35) "(...)Ns tava l no final da sala, olhando uma revista irada, a a professora percebeu e foi l, a na hora um cara l escondeu." (A.A.A.)
Em (35) temos a ocorrncia da gria "irada", muito usada atualmente, e que segundo o dicionrio, significa "com raiva ou clera". Este o sentido literal, pois de acordo com o contexto, significa boa, interessante; o informante considera a revista que o colega estava olhando, muito boa, ou muito interessante.
STE = irada SDO = interessante
Observe os exemplos:
(36) "Minha rotina na escola pesada viu! Muito, muito. um trabalho em cima do outro. Ave Maria!" (R.F.S.)
(37) "Minha rotina fogo viu? Estudar, fazer trabalho chato, prova difcil, eu tirano nota baixa." (J.A.T.S.)
No exemplo (36) ocorre a gria "pesada". Segundo o dicionrio a referida palavra significa "aquilo que tem muito peso". De acordo com o contexto do enunciado, significa "cansativa", ou seja, o informante considera sua rotina cansativa, devido quantidade de trabalhos escolares que realiza. Em consonncia, encontramos em (37) a gria "fogo". Sobre tal palavra o dicionrio trs significados literais e um significado de gria que, no entanto, divergem do apresentado no contexto em anlise: 1. resultado da combusto de matrias inflamveis; 2. incndio; 3. gr. estar bbado. No contexto em que se apresenta, a gria "fogo" tem significado diferente dos postos no dicionrio, pois em (37) "fogo" se assemelha em significado, "pesada", ocorrida em (36), e significa cansativa. O informante considera sua rotina cansativa devido aos trabalhos escolares que realiza.
STE = pesada SDO = cansativa
STE = fogo SDO = cansativa
Analisemos os exemplos que seguem:
(38) "Tem uns que so chato pra caramba. A te, tem uns que so legais, porque so pessoas agradveis." (R.F.S.)
(39) "(...)A gente se diverte pra caramba junto, principalmente na hora do recreio e da sada." (A.A.A.)
Nos contextos (38) e (39) encontramos a realizao da expresso "pra caramba". Segundo o dicionrio "caramba" designa admirao, impacincia ou ironia, mas de acordo com o contexto em que se apresenta a expresso "pra caramba", tem significado de advrbio de intensidade "muito" ou "bastante", pois ambos informantes, em suas falas, intensificam o que dizem, atravs da referida expresso. Assim, em (38) o informante diz que alguns colegas so muito chatos; e em (39), o informante diz que se diverte muito com os colegas.
STEs = pra caramba SDO = muito
Observemos os exemplos a seguir:
(40) "(...)Chegar no colgio, assistir aula, bater papo e zuar da cara dos cara no recreio, fazer trabalho, isso a.(J.S.F.)
(41) "(...) a a professora percebeu e foi l (...) Ela perguntou o que ele tava olhando e ele falou que era a bblia. Rap, a a galera comeou a zuar.(A.A.A.)
Dos contextos (40) e (41), tomamos para anlise a gria "zuar", que no possui significado dicionarizado. Em ambos os contextos, "zuar" est significando "sorrir", pois em (40), o informante diz que gosta de zuar da cara dos colegas, ou seja, sorrir dos colegas. E em (41), o informante diz que os colegas sorriram do que ele falou sua professora. Para tal gria postamos o esquema:
STE = zuar SDO = sorrir
5. CONCLUSO
Como viu-se ao longo deste estudo, a linguagem de grias comum dentro da comunidade de falantes jovens.
Neste estudo, procuramos apreender as relaes existentes entre o significante e o significado das palavras e expresses faladas pelos informantes, estudantes do ensino mdio, e a relevncia do contexto para a compreenso dos sentidos pretendidos pelos mesmos, evidenciadas nas entrevistas coletadas. Considerou-se para tal fim, o carter oral, informal e espontneo da linguagem apresentada no material utilizado para anlise.
Com sustentao na anlise da amostra, podemos concluir que:
1. Dos vinte adolescentes entrevistados, cinco, no fizeram uso de nenhuma gria em suas declaraes. Destes, trs so do sexo feminino e dois, do sexo masculino.
2. Atravs da anlise das palavras e expresses extradas das entrevistas, em anexo, observou-se que algumas grias encontradas possuem um significado base, constado em dicionrio. Outras, porm, adquiriram os significados contextuais atribudos por seus falantes no ato da comunicao, e para sua interpretao, foi necessrio, alm da observao do contexto de fala, pesquisas junto aos informantes, a respeito dos seus significados.
3. Tomando por base a dicotomia Saussuriana "significante/significado", transpomos as grias usadas pelos informantes, enquadrando as mesmas nesse princpio. Observou-se, ento, que o significante permaneceu o mesmo, enquanto o significado variou, ou seja, os referentes mudaram de acordo com as intenes dos falantes. Como exemplo, podemos citar a gria "mala", em que a seqncia fnica ou imagem acstica igual em todas as ocorrncias, todavia, os significados variam nos diferentes atos de fala, e diferem do significado base, dicionarizado.
4. Observou-se tambm, que algumas grias, cujos significantes so distintos, adquiriram os mesmos significados dentro de contextos de falas diferentes.
5. O contexto em que as palavras e expresses foram utilizadas, foi fundamental para que pudssemos compreender os significadas pretendidos pelos informantes. Sem a considerao da situacionalidade e dos objetivos dos entrevistados ao fazerem suas declaraes, no poderamos compreender a linguagem em questo, uma vez que, estas palavras e expresses estudadas descontextualizadas, ou seja, individualmente, no assumiriam os significados observados, seno os literais, que esto dicionarizados. Como afirma Koch (2006, pg.91) " impossvel fazer abstrao do contexto, das condies de produo, da situao de enunciao (quem fala, com quem, quando, onde, em que condies, com que propsito etc.). Trata-se de um conjunto de fatores que determinam necessariamente a produo de linguagem e que variam a cada nova enunciao.".
Para chegarmos a tais concluses, portanto, foi necessria a observao e anlise das palavras contextualizadas em situaes de fala. Para maior conhecimento e aprofundamento dos significados expressos pela linguagem da comunidade falante jovem, estudos posteriores podem ser desenvolvidos, visto que, as abordagens semnticas da lngua, em muito, contribuem para o crescimento da Semntica da Lngua Portuguesa e demais estudos referentes significao.
6. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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A LINGUAGEM DOS JOVENS: CONTEXTO E SIGNIFICADOS
Por:
Ana Claudia Menezes AraujoPerfil do Autor
(Artigonal SC #3261845)
Fonte do Artigo -
http://www.artigonal.com/linguas-artigos/a-linguagem-dos-jovens-contexto-e-significados-3261845.html
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