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EÇA DE QUEIRÓS EM A ILUSTRE CASA DE RAMIRES

A Ilustre Casa de Ramires, como notrio, trata-se de uma obra que Ea de Queirs no

chegou a ver publicada, razo pela qual se costuma design-la como semi-pstuma. Considerado, inquestionavelmente, um dos seus romances mais importantes, reflexo de muito trabalho e almejo pela perfeio, caracterstica peculiar da escrita queirosiana, nele existem diferenas entre o que aborda a tradio e o que defenderemos a seguir. Com isso, o presente estudo, portanto, busca apontar a ineficcia das afirmaes feitas pela tradio, ao qual defende, segundo Moiss (1990):

"A terceira e ltima fase da carreira de Ea de Queirs corresponde aos anos seguintes publicao dOs Maias (1888) at morte do escritor (1900). Alcanando a maturidade, o escritor resolve erguer uma obra de sentido construtivo, fruto da dolorosa conscincia de ter investido inutilmente contra o burgus e a famlia. Ao derrotismo e pessimismo analtico da etapa anterior, sucede um momento de otimismo, de esperana e f, transubstanciado em idealismo no mais cientfico, mas tendo por base o culto dos valores rechaados. A Ilustre Casa de Ramires (1900) [...] contm a viragem operada em sua carreira, dirigida agora no sentido da superao da ironia, pelo menos da ironia zombeteira, e da stira dissolvente. A crena substitui o ceticismo cnico e corrosivo de antes". (Moiss, A literatura portuguesa, 1990 [25. ed.1990], p. 196.)

Em contraposio a tal afirmativa, temos uma outra defesa, ao qual nos mais coerente. Este, por sua vez, relata que no se trata de uma evidncia cabal, ao qual Ea de Queirs, no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a v-los como positivos e saudveis, mas sim, em contrapartida, afirmado por Maia (2000):

"para expor a fragilidade deste esquema em que se baseia a interpretao tradicional da trajetria de Ea, oportuno lembrar que justamente neste perodo de maturidade, supostamente marcado pelo conservadorismo do escritor, ele escreve seus textos mais crticos do ponto de vista poltico e social, que, por exemplo, expem uma crtica severa ao poder econmico da burguesia e prevem at mesmo (embora sem defend-la) a tomada do poder pelo emergente proletariado e o conseqente desmanche' do capitalismo". (MAIA, 2000, p. 133)


Por conseguinte, podemos afirmar que vem baixo toda a afirmao do tradicionalismo. Com isso, podemos dizer que sim nestas ltimas obras (1887 a 1900, conhecida como a terceira fase queirosiana) contm as crticas mais severas ao pas, sua sociedade e poltica, e no o contrrio, o que diz se tratar de uma crtica moralizante, de reconciliao com o pas.

Em fim, podemos considerar segundo a afirmao de Siqueira (2003, p. 1), que "Ea no estaria abandonando os seus ideais socialistas, mas transformando os romances de panfletos em expresses lricas de uma realidade que possua qualidades e potencialidades".

O que nos mais proveitoso em tal defesa que o romance se passa no campo, e no na cidade. Aspectos relevantes que nos fazem pensar na diferena ao qual Ea usou uma forma diferencia na escrita, mas sem perder o estilo das fases anteriores. Pois, como nos sabido, a primeira fase: O crime do padre Amaro e Primo Baslio, passado na cidade. J a partir de Os Maias, e nos ltimos romances, o ponto de vista passa a ser o do campo. Segundo Siqueira (2003):

"Resgatando valores histricos da vida rural lusitana e contrapondo-os aos vcios e s vicissitudes da existncia urbana, o escritor ao assumir o timing da pulsao do campo, as qualidades de seu modo reflexivo devidas proximidade com a natureza vai substituindo a crtica por um desejo de entendimento e reflexo sobre a vida social lusitana". (SIQUEIRA, 2003, p.1)

Em suma, nos fcil afirmar que Ea apresenta-nos em sua obra o impasse do momento de transio que a sociedade portuguesa estava passando. Com isso, fica-nos claro a passada de uma posio para outra na relao campo-cidade de igual forma a da vida social do pas, ao qual se alternava entre os dois plos.

Com isso, como cita Siqueira, p. 4, tal ideia nos leva a "concluir que a ateno de Ea estava bastante inclinada para a problemtica neocolonialista e suas repercusses polticas e culturais". Assim, fcil notarmos a importncia de uma interpretao da obra queirosiana por uma dialtica da relao campo-cidade feita por Antnio Cndido[1].

Por conseguinte, percebemos que a primeira fase dessa obra ancora-se numa dialtica positiva, prpria da dinmica do sistema capitalista; nas obras da fase final, uma dialtica negativa informa a estrutura dos romances.

[1] "Entre campo e cidade", in Tese e anttese.

EA DE QUEIRS EM A ILUSTRE CASA DE RAMIRES


Por: Bia Senday

Perfil do Autor

Professora ps-graduada em Lngua Portuguesa e Literatura. (Artigonal SC #3280315)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/literatura-artigos/eca-de-queiros-em-a-ilustre-casa-de-ramires-3280315.html
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