Educação pela pedra - João Cabral de Mello Neto
Anlise do Poema
Anlise do Poema
1 Vocabulrio
A coletnea rene 48 poemas (1966) marcados pelo didatismo do poema "A Educao pela Pedra", seu ncleo temtico. A obra dividida em quatro partes: a, A, b e B. Nas partes minsculas os poemas so curtos e nas partes maisculas os poemas so longos. Os temas dos poemas tambm so distribudos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exemplificar a preocupao do poeta com um livro cuidadosamente projetado. So poesias em que sobressaem o rigor formal e a conteno, sem prejuzo do lirismo.
No poema-ttulo, ele nos remete ao conceito da "carnatura" da potica, sua matria-prima ou contedo, no caso, "pedaggico", de intimidade com os objetos: Linguagem seca, precisa, concisa, desprezo pelo sentimentalismo. A arte no intuitiva - calculada, nua e crua.
H em Cabral uma verdadeira "didtica da pedra", como processo terico e prtico da preenso da realidade. Essa "educao" consiste num processo de imitao de objetos, pelo qual possvel tratar da realidade atravs do poema, isto , atravs de uma forma, de uma linguagem que para sua estruturao no despreza, antes acentua, a existncia do objeto, segundo Joo Alexandre Barbosa.
A pedra nos remete aridez humana e geogrfica do Nordeste e smbolo constante na obra do autor, fazendo confluir a temtica social (linguagem-objeto) com a reflexo sobre o fazer potico no prprio texto artstico (metalinguagem).
Aqui a pedra ensina ao homem. A pedra, um objeto inanimado, duro, frio, que princpio no tem nenhuma qualidade, no demonstra nada, no faz nada, passada despercebida, ganha em Joo Cabral essa poesia fantstica. O poeta detestava msica, comparava a poesia a um clculo matemtico, relegava a emoo a segundo plano para chegar perfeio da construo do poema, calcado na colocao das palavras precisas e fundamentais para cada espao do papel, nada a mais, nada a menos, s a preciso, o contido, o visual.
2 Mtrica
Passando ao elemento material, o rtmo, verifica-se inicialmente que o metro de 10 slabas (decasslabos). Seja o estribilho:
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
U/ ma e / du / ca / co / pe/ la / pe/ dra:/ por / lies;
Pa/ ra a/ pren / der / da / pe/ dra, /fre/ qen/ t/ -la;
Sabendo que - chama-se decasslabo o verso com dez slabas poticas (slabas mtricas)- o mesmo foi utilizado por Cames em "Os Lusadas", o qual foi escrito com o intuto de ser uma "epopeia portuguesa", assim como foi a Ilada e A Odissia de Homero. Assim como, tambm, em sonetos. Percebemos, tambm, que alm do poema ser formado por duas estrofes, sendo a primeira estrofe composta por dez versos de rimas irregulares ou rimas brancas, a segunda estofe formadade seis versos, sextilha de rimas brancas tambm.
Podemos, com isso, dizer que Joo Cabral de Mello Neto quis criar uma epopia da educao brasileira de seu tempo. No para engrandece-l, mas sim, para critic-la. Sendo uma inverso idia original usada, tanto por Cames, como por Homero.
A idia de educao pela pedra, tendo a expresso pela pedra como um adjunto adverbial de modo de educao, d nos a entender o modo pelo qual era atuada a educao. Ou seja, atravs da pedra, sentido de dureza, aspereza e sequido; assim, poderia ser, tambm, entendida, ou at mesmo substituida, por outro adjunto adverbial de modo, como por exemplo: educao pela vida, dando-nos a entender que o que educava e ainda educa no serto a vida, dura, aspera e sofrida. Uma verdadeira educao pela pedra, pelo sofrimento, pela vida dura, pela realidade sofrida, pela seca do serto. A vida, dura, que a escola e esta a responsvel por tal educao cercada de dor e pesares.
Assim, Joo Cabral faz um paradoxo entre cidade e serto, mostrando as diferenas, no s educacional, mas social. Fazendo uma crtica aos governos da poca.
Podemos, ento, concluir:
O poeta apreende da pedra a prpria vivncia na vida agreste do Serto: de austeridade, resistncia silenciosa e sempre capaz de dar lies de vida e de poesia.
Os versos metalingsticos revelam a prpria potica cabralina: concreta, impessoal, concisa, embora profundamente social.
O eu lrico tambm apreende da pedra os prprios versos enxutos, num esforo de dissecao de quaisquer sentimentalismos.
No poema, de intensa economia verbal, a pedra faz-se metfora da paisagem do Serto, que "entranha a alma", e espelha o fazer potico do autor pernambucano.
No livro, como em grande parte da poesia da modernidade, so constantes os poemas metalingsticos, expressivos da tentativa do poeta de apreender seu prprio processo de construo potica, e extrair lies da realidade sua e da prpria linguagem.
Por conseguinte, podemos afirmar que a pedra nos remete aridez humana e geogrfica do Nordeste e smbolo constante na obra do autor, fazendo confluir a temtica social (linguagem objeto), com a reflexo sobre o fazer potico no prprio texto artstico (metalinguagem). Sua reflexo potica, ao mesmo tempo social e histrica, volta-se para a estrutura da paisagem humana do Nordeste. Tal idia ser melhor vista seguir, onde falaremos sobre a idia de uma rachadura na terra, provocada pela seca do Nordeste.
3 A rota e sua significao: questo material
A educao est sendo manifestada pela rota das consoantes bilabias /p/ e /f/. Ao qual nos d, como j fora antes citado, a idia de uma rachadura na terra, provocada pela seca do Nordeste. Pela vida dura e rida do Serto.
Veja o exemple abaixo:
Uma educao pela pedra: por lies;
para aprender da pedra, freqent-la;
captar sua voz inenftica, impessoal
(pela de dico ela comea as aulas).
A lio de moral, sua resistncia fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de potica, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lies da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletr-la.
Outra educao pela pedra: no Serto
(de dentro para fora, e pr-didtica).
No Serto a pedra no sabe lecionar,
e se lecionasse, no ensinaria nada;
l no se aprende a pedra: l a pedra,
uma pedra de nascena, entranha a alma.
At nos parece um caminho tortuoso, de difcil acesso: assim como a educao em tal regio. Revelando-nos ser um poema cheio de arestas. Infelizmente, a mesma educao, ainda nos dias atuais, continua ineficaz.
Por conseguinte, notamos a denncia feita educao nesta poca. Ento, para entendermos melhor o poema, necessrio sabermos como andava a mesma no perodo ao qual foi escrito o poema.
4 Entre a Pedra e as Teorias Distintas
4.1 A materialidade do poema
Como j fora citado, a aliterao formada pela repetio da letra "p" acentuada nos versos 1 e 2 da primeira e da segunda estrofe. Esta repetio remete o leitor ao som de algum instrumento cinzel talvez- utilizado na lapidao de pedras, como se o poeta estivesse lapidando o texto, ou tratando sobre a lapidao, o que ser discutido posteriormente neste trabalho, para a obteno de um sentido maior. Observa-se, tambm, que um ponto final delimita as estrofes, mostrando a diferena no s entre elas, mas entre os temas abordados em cada uma: as educaes. Esta delimitao tambm concretizada pela utilizao da palavra "Outra" no primeiro verso da segunda estrofe que se ope a palavra "Uma", utilizada no primeiro verso da primeira estrofe, o que confere sentido de diferenciao entre as educaes. Ainda contido na materialidade do poema, encontramos as seguintes oposies: pedra X lio e pedra X Serto. Sendo que estas palavras so extradas dos primeiros versos de cada estrofe. Estas oposies indiciam as diferentes formas de se observar o objeto pedra.
A metalinguagem tambm pode ser observada no poema atravs da utilizao das palavras moral, potica e economia. Palavras as quais so adjetivos freqentes das obras de Joo Cabral de Melo Neto e, em contato com as demais palavras deste poema apontam para uma educao do fazer potico, tendo como referencia a pedra com suas particularidades fsicas. No trecho abaixo, destacado do poema, podemos observar o recorte de algumas slabas tnicas formando o desenho de uma rachadura, assim como as rachaduras encontradas no cho do serto e nas pedras.
Este recorte pode auxiliar na observao da forma como reflexo do objeto de destaque do poema, a pedra. Dentro da temtica do serto, destaca-se a grafia maiscula empregada na palavra Serto pelo autor. "Serto" pode ser entendido como substantivo prprio, personalidade ou at mesmo reflexo da vida no local serto. Sobre isto discutiremos tambm posteriormente para que neste captulo no se perca o objetivo da analise contida ao texto. Por fim, faz-se relevante a questo de a segunda estrofe ser mais curta que a primeira. Sendo a temtica da segunda estrofe o Serto, podemos entender esta brevidade como sequido, sendo a seca uma das caractersticas principais da geografia sertaneja.
4.2 As Lies
Como observado anteriormente no poema o autor cria a repetio da consoante p ( aliterao) que nos remota ao barulho de uma possvel lapidao da pedra. Est lio de lapidao, do poema ou da palavra atravs dos sons identifica-se com a primeira lio,a de dico.
A segunda lio, a de moral. Usa como referencial a pedra, com "sua resistncia fria". Joo Cabral de Melo Neto possui como caracterstica potica o no sentimentalismo, ou frieza. Assim, entendemos que a resistncia fria citada pelo autor na verdade a ausncia do sentimentalismo de suas obras, explicitadas neste verso. Terceira lio, a de potica. Sugere os poemas concretos no sentido de ligados ao que material, tangvel. Na expresso "carnadura concreta" vemos os componentes 1- carne, como referencia ao carnal, o real e 2- concreta, objetiva. Como quarta lio,a de economia.A economia das palavras, conciso que encontrada em outras obras de Joo Cabral de Melo Neto. Esta economia das palavras encontrada ainda na palavra "adensar" e "compactos" como conceito de que a poesia deve dizer muito, ser repleta de significados,atravs de um nmero reduzido de palavras. Todas estas lies acontecem "De fora para dentro", atravs da observao da referida pedra, que pode ser at mesmo uma alegoria para o prprio serto. Assim, temos a poesia da observao do serto e como esta poesia ensinada.
O mtodo tradicional de educao utilizava uma cartilha de letramento. A "cartilha muda" essa voz inefvel da pedra, que ensina quem se dispe a estud-la, ou como diz o poeta: "para quem soletr-la."
4.3 A outra educao
De acordo com o perodo analisado, a oposio do "uma" contra "outra" indicia uma educao diferenciada. Esta segunda educao, dada pela personalidade do Serto, denominada de pr-didtica referente quilo que no se ensina e que no se aprende. Esta lio que no ensinada nada mais do que a lio do viver. Do viver no serto, e de situar-se nele.
Mas, diferente da pedra apresentada na primeira estrofe, a pedra do serto no sabe lecionar. Seguindo uma certa lgica para ensinar, faz-se necessrio ter aprendido, ento como esta pedra que no letrada , como a maioria dos sertanejos, poderia lecionar? Assim, no se entende, ou aprende, no Serto. Os sertanejos o vivenciam. A pedra de nascena, aquela pedra que apenas pedra, objeto material, que no possibilita outro entendimento e reflete a dureza da vida sertaneja que se manifesta no homem desde sua infncia e que com o tempo molda sua alma. Em analogia ao molde do sertanejo,temos o provrbio: "gua mole em pedra dura, tanto bate at que fura". Neste poema de Joo Cabral ocorre o oposto, a pedra endurece o homem. Assim, teramos o seguinte provrbio: Pedra dura em homem mole, tanto bate que endurece. O poema "A Educao pela Pedra" permite uma srie de analises e interpretaes, variveis do ponto de observao e da tcnica utilizada.
Educao pela pedra - Joo Cabral de Mello Neto
Por:
Bia SendayPerfil do Autor
Professora ps-graduada em Lngua Portuguesa e Literatura. (Artigonal SC #3280390)
Fonte do Artigo -
http://www.artigonal.com/literatura-artigos/educacao-pela-pedra-joao-cabral-de-mello-neto-3280390.html
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