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Espaço ficcional em Ponte do Galo, de Dalcídio Jurandir

Introduo

Introduo

Como dado de esclarecimento absolutamente necessrio, ressaltamos o fato de que este artigo constitui, ainda, um ponto aonde chegamos at agora no desenvolvimento de nossa pesquisa. Pode ser nomeada, portanto, de pesquisa in progress, visto que nossa dissertao somente ser defendida no primeiro semestre de 2009, como est previsto. Logo, as concluses a que chegamos no podem -- e no devem -- ser consideradas definitivas.

Embora constituindo um estudo em andamento, a pesquisa revelou, entre outros achados, a espantosa polissemia e amplitude de sentidos do vocbulo espao. "Para o confirmar, basta verificar, num bom dicionrio, as suas mltiplas acepes nos mbitos mais diversificados: da filosofia fsica, da geometria literatura" (GORDO, Antnio, 1995, p. 19). Nossa anlise, sendo intrnseca obra, no est centrada nesse aspecto: enfoca to-somente um dos componentes estruturais da narrativa literria que, aliando-se ao, personagem, narrador, tempo e enredo, engendram o universo da fico romanesca.

Pretendemos, a partir do estudo do livro-corpus Ponte do Galo, erigir uma ponte que ligue a problemtica da escassez de trabalhos acadmicos sobre a categoria do espao na narrativa de fico outra problemtica, que a leitura rarefeita das obras do grande romancista da Amaznia, Dalcdio Jurandir. Com isso, contamos poder contribuir para a aproximao/interligao dessas duas complexas margens e, outrossim, contribuir, modestamente que seja, para tentar apontar outra (sobretudo para o autor deste trabalho), onde uma senda, um caminho mais auspicioso, permita palmilhar tal terreno com menos insegurana.

1Espao e espao ficcional'

Segundo Gordo (1995, p. 19) o "[...] universo espacial da narrativa s subsiste e se entende como rplica artstica do outro, o real ou csmico, em cuja experincia o homem funda o conceito de espao." Na verdade, nos novos mundos fictcios inventados pela literatura, o espao no funciona seno como instncia indireta em que a apreenso do real se manifesta, sendo os objetos espaciais finitos e indeterminados, s possivelmente atingindo o status inverso disso no espao real. Ao leitor, segundo Roman Ingarden (1973, p. 245), cabe o preenchimento imaginativo dessas lacunas. A Escola de Semitica de Tartu contribui sobremaneira para essa discusso enriquecedora, cuja necessidade premente de clarificao nos recomenda operar com o conceito de sistemas modelizantes primrios e secundrios, pensamento basilar dentro dos estudos desenvolvidos por Iuri Lotmanno mbito da disciplina Semitica da Cultura . O sistema modelizante primrio a linguagem natural, isto , a verbal, estruturadora do mundo na mente do ser humano. O sistema modelizante secundrio a cultura, isto , todos os sistemas semiticos existentes: mitos, religio, artes (inclusive a literatura), etc.

Aquilo que Lotman nomeia de espao artstico o produto do processo de modelizao de uma modelizao, ou seja, a verso que resulta da estruturao de um mundo outro, secundrio (a arte, em nosso caso, a literatura), a partir de um primeiro (a lngua natural, verbal), por si mesma considerada por Tartu um "sistema modelizante do mundo" (SILVA, 1997, p. 91). A idia de espao fictcio -- que aqui se quer literrio e narrativo -- que recria' na sua finitude o infinito exterior obra na qual se acha incrustado, fica evidente nas palavras de Lotman: "O sistema modelizante secundrio de tipo artstico constri o seu sistema de referentes, que no uma cpia, mas um modelo do mundo dos referentes na significao lingstica geral" (1978, p. 95 apud Montagem, p. 9). Nessa perspectiva, a literatura , pois, sistema modelizante secundrio. Logo, o romance, uma forma narrativa literria, uma manifestao desse sistema. E, sendo o espao um componente primordial de organizao dessa modalidade narrativa, resta-nos concluir que o espao , tambm, produto de modelizao secundria (REIS & LOPES, 1987, p. 131).

1.1O espao na narrativa

"Espao , por definio, o lugar onde se passa a ao numa narrativa." "[...] O termo espao, de um modo geral, s d conta do lugar fsico onde ocorrem os fatos da histria; para designar um lugar' psicolgico, social, econmico etc., empregamos o termo ambiente" (GANCHO, 2002, p. 23). Todavia, no necessariamente o espao ficcional na literatura deve ser somente narrativo. Em muitos poemas descritivos, a espacialidade evidenciada, presente na representao-clich do locus amoenus, por exemplo, em formas poemticas como o idlio e a cloga, tipicamente convencionais e peculiares ao Arcadismo brasileiro. Porm, como nosso propsito analisar tal categoria romanesca em Ponte do Galo, restringir-nos-emos ao espao narrativo, a respeito do qual Antnio Dimas (1994, p. 21) afirma que o romancista e tambm pesquisador Osman Lins (1976, p 77-94) estabeleceu uma distino essencial entre espao e ambientao. Nos comentrios do primeiro, o espao "puro e simples", referencial e denotado, que se reporta a lugares interiores e exteriores, s ganha status de ambientao se no for patente e explcito, se for, pelo contrrio, implcito e subjacente em seus dados da realidade, conotativos por excelncia, portadores de complexidade e destinados a leitura mais perspicaz (op. cit. p 13).

Pretendemos enfocar os espaos gerais e amplos e os particulares e restritos, a que se refere Antonio Candido, no artigo Espao e degradao, comentado por Dimas (op. citat., p. 13). Interessam-nos, tambm, os espaos fsicos, sociais e psicolgicos a que se referem Gordo e Carlos Reis e Ana Cristina Lopes , assim como suas relaes funcionais com os personagens, discutidas por Cndida Vilares Gancho (2002, p. 24-25), alm de tornar evidentes temas e figuras espaciais representados por pares opostos dialticos com "marcado carter espacial" (antteses e oxmoros), como alto/baixo, prximo/distante, cidade/interior, centro/periferia, por exemplo .

Dos espaos fsicos, destacamos os macroespaos, que so dois: Cachoeira, na Ilha de Maraj (no estado do Par), e Belm, a capital do mesmo estado . No mbito desses dois espaos amplos, destacam-se os microespaos. Por exemplo, em Cachoeira -- o espao do interior --, o chal da famlia de Alfredo (personagem central do romance), onde moram os pais do ginasiano, dona Amlia e seu' Alberto, onde com eles o filho passa as frias. E na cidade -- no locus urbano --, no bairro do Telgrafo, a outra casa onde o estudante reside (de favor) durante o perodo das aulas, com a costureira dona Dudu, tia de Ana e Nini. Luciana, a que "cara na vida", a que vive na rua, a desabenoada (para quem o pai, o "Cel." Braulino Boaventura, construra a casa), l tambm deveria morar. procura das trs, Alfredo, como um flneur, perambula pela cidade, muitas vezes com a parteira, dona Santa, av das duas primeiras e tia da ltima. Tanto em Cachoeira como em Belm, ele um notvago. Contudo, no subrbio da cidade que sua deriva sem meta nem fim, por excelncia, se evidenciar, como alerta Ernani Chaves .

Em decorrncia de nossa pesquisa estar ainda em andamento, enfocaremos aqui apenas um aspecto, que consideramos fulcral: a transfuso de espaos. O narrador -- manipulador da e, ao mesmo tempo, manipulado pela mente de Alfredo -- transfunde os espaos. Entre Cachoeira e Belm, no mais o rio e a baa separam (e unem, paradoxalmente) os espaos, mas a memria de Alfredo, como ponte, traz e leva os fatos, as pessoas, os lugares, numa viagem que um jogo, tambm pondo o leitor em xeque: "Onde estou?" A passagem abaixo, do romance Ponte do Galo -- em que fica evidente a oniscincia do narrador heterodiegtico, ao revelar a fuso topogrfico-memorialstica de Alfredo--, exemplar:

Seguiu sob a chuva, no de Belm, chuvas de Cachoeira, as de outrora sobre o chal, sobre a casa de seu Cristvo, sobre Eutanzio andando. Tambm Rodolfo, com a chuva no telhado, redistribui pelas caixas de tipos o "Cachoeira Nova", por falta de papel e logo vai compondo outro nmero e assim por diante at que chegue, ou nunca chegue a prometida bobina de papel, to prometida pelo Dr. Lustosa (JURANDIR, 1971, p. 139).

Tudo porque o personagem se sente um dpays, tal como diria um Gabriel Marcel (apud GORDO, 1995, 21): "Um indivduo no distinto de seu lugar; ele seu lugar mesmo". Ento, o ginasiano no se ambienta' na sua Belm, onde sonhava ir para estudar, nem tampouco consegue estar em Cachoeira sem viajar' em pensamento at a Cidade das Mangueiras. Neste ponto, bom que se perceba que o filho de dona Amlia no s transfunde espaos, mas tempos tambm: "Este tempe, em Cachoeira, apanha de tucum e gog" (op. cit., p. 138). S que o "este tempe", ao qual se refere o narrador, est registrado na mente de Alfredo como uma estao passada -- as tais "chuvas de Cachoeira, as de outrora sobre o chal" --, como reminiscncias, assim como as recorrentes lembranas de sua infncia, de Mariinha (sua irmzinha, j morta), do tio Sebastio e de outros personagens, fundem tempo e espao, numa perfeita representao do cronotopo.

Da que se deduza a impossibilidade de um estudo do componente espacial de forma isolada do componente temporal, j que o ser ocupa lugar no espao e , ele mesmo, espao. Mas espao marcado pelo tempo, ser ativo-passivo de aes, de eventos, de mudanas ou transformaes que se realizam no em um espao, mas em um tempo-espao ou espao-tempo, como o afirmam os astrofsicos e filsofos. O mesmo, logicamente, estende-se ao campo dos Estudos Literrios, com a denominao de cronotopo, estabelecida por Bakhtin , que a tica do estudioso talo Meneghetti Filhovai denominar com o neologismo tempoespacialidade'. Ento, disso tudo podemos abstrair a idia de que s um recorte analtico de natureza didtico-metodolgica pode permitir uma discusso em separado de um dos elementos desse par. o que ocorre quando se busca classificar o espao em topogrfico, cronotpico (ambos no nvel da diegese) e textual (no nvel do discurso). nessa perspectiva que operaremos com esses componentes narrativos na anlise de Ponte do Galo.

Dentro do mbito dos macroespaos, na narrativa estudada avultam os microespaos, todos eles impregnados de sentidos de importncia fundamental para o funcionamento do universo ficcional de Dalcdio Jurandir, pois esto, todos eles, sobrecarregados da peculiar semntica de decadncia atribuda por ele regio amaznica das primeiras dcadas do sculo XX , com o fim do Ciclo da Borracha. Porm, deter-se no estudo dos espaos fsicos do romance s faz sentido para ns se deles emerge o signo do social e do existencial. Por isso, por ltimo, examinaremos os espaos sociais de poder (agrrio, econmico, poltico, de gnero), os espaos simblicos das casas (o chal da famlia, em Cachoeira, e nele a "saleta", a "varanda" do prelo, a cozinha e a despensa; a casa do Telgrafo, em Belm, entre outros espaos), os lugares de passagem', as ruas, a ponte em Cachoeira, a Ponte do Galo, etc. Interessa-nos, essencialmente, o que emana desses espaos em termos de sentimentos humanos e existenciais e como neles se vivenciam as relaes sociais.

1.2A ambientao segundo Osman Lins

Osman Lins, no livro Espao romanesco de Lima Barreto, de 1978, resultado de sua tese de doutoramento, sistematiza uma slida tipologia para a ambientao, que nos parece ter funcionalidade ainda vlida atualmente, em uma tica narratolgica. Este autor afirma que ambientao consiste em um conjunto de procedimentos empregados no texto narrativo com o fim de evocar a idia de um ambiente. Diz ainda que, para aferir o espao, o leitor leva em considerao a experincia que tem de mundo. Entretanto, com respeito ambientao, "[...] onde aparecem os recursos expressivos do autor, impe-se um certo conhecimento da arte narrativa" (1978, p.77). E, segundo esse mesmo autor (apud DIMAS, p. 19-26), a ambientao pode ser franca, reflexa e dissimulada ou oblqua, de cujos conceitos e exemplos passamos a discorrer agora: por franca entende-se

aquela em que o narrador introduz, pura e simplesmente, a descrio fsica do ambiente, estabelecendo um hiato no desenrolar da ao. Neste caso, a ambientao no contribui para a compreenso da trama, ou do estado de esprito da personagem. Funciona, to-somente, como uma moldura, um pano de fundo dos acontecimentos. O leitor poderia pular este trecho, e em nada seria prejudicada a compreenso do enredo" (Atlas das representaes literrias de regies brasileiras, 2006, p. 23).

Um exemplo caracterstico encontramos nas primeiras linhas de Trs casas e um rio:

Situada num teso entre os campos e o rio, a vila de Cachoeira, na ilha de Maraj, vivia de primitiva criao de gado e da pesca, alguma roa, roadinhos aqui e ali, porcos magros no manival mido e cobras no oco dos paus sabrecados. O rio, estreito e raso no vero, transbordando nas grandes chuvas, levava canoas cheias de peixe no gelo e barcos de gado que as lanchas rebocavam at a foz ou em plena baa marajoara. Na parte mais baixa da vila, uma rua beirando o rio, morava num chal de quatrto janelas o major da Guarda Nacional, Alberto Coimbra, secretrio da Intendncia Municipal de Cachoeira, adjunto do promotor pblico da Comarca e conselheiro de ensino (JURANDIR, 1994, p 5).

Em Ponte do Galo, a rigor, tal procedimento de ambientao no empregado pelo autor; por causa disso, o exemplo foi extrado de seu terceiro romance. Pelo que se pode deduzir, constitui esse fato uma evoluo dentro da obra do autor marajoara, que vai aperfeioando sua tcnica narrativa de romance a romance. Quanto ambientao reflexa, certamente no se confunde com o ato praticamente estanque da ciso levado a efeito pela ambientao franca, ao contrrio disso: "Ela percebida pela personagem, o que evita o hiato na trama. De qualquer forma, o entorno est sendo enunciado e no tem, necessariamente, uma relao intrnseca com o desenrolar dos acontecimentos" (Id., ibid., p. 23). Como passagem exemplar de Ponte do Galo, transcrevemos esta:

Fronteou a casa da av, espiou, espiou, foi, espiou pela fresta da porta e o escuro l de dentro lhe dizia: nem as netas nem a av. Quis bater. Mexeu na porta, s encostada, hesitou, estalava os dedos, esperou sob o chuvisco.O catavento gemia moroso. A velha, sabia aonde? Pelos caminhos do subrbio fantasmal e gotejante, entre os fedores de vacaria, feira de peixe e bucho e a ruidosa insnia das crianas. Com o seu hlito, ou com a sua mo que sempre faz nascer e a paixo pelas netas, purificava o subrbio e este a parir sempre, nas tocas e barracas, como nos estbulos (JURANDIR, 1971, p 136).

por intermdio de Alfredo que o leitor absorve a sensao do lugar, vivido e percebido por esse adolescente marajoara, do subrbio de Belm, de uma periferia ftida (FURTADO, Marli. In: Asas da palavra, 2004, p. 105). E, por fim, chegamos ambientao oblqua ou dissimulada: uma construo narrativa que consiste em destacar como caracterstica primordial a ausncia de

[...] um corte no desenrolar dos acontecimentos. A ambientao dissimulada exige a personagem ativa: o que a identifica um enlace entre o espao e a ao. [...] Assim : atos da personagem, nesse tipo de ambientao, vo fazendo surgir o que a cerca, como se o espao nascesse de seus prprios gestos. (LINS, 1976, p. 83-84)" (Atlas das representaes literrias de regies brasileiras / IBGE, Coordenao de Geografia. Rio de Janeiro, 2006, p. 23).

Um exemplo significativo disso a passagem abaixo:

Da Jos Pio olhou a janela. Uma janela suspensa na tarde, na ltima luz, na ltima esperana. Olhava. No est mais. No estava. Alvos, solenes, num cortejo, passavam os zebus da Cocheira Jabuti. Corriam descalas pela Municipalidade as netas da velha parteira. Olhou, de novo, para a janela. Adeus, mulher da tarde. Mas no se arrependia do gesto, fosse a ela ou a outra, era a chave entregue, e noite ps-se a esperar pela visita. Tocava o0 sino de So Raimundo, apitou a Cremao, o Utinga apitou, e aqui embaixo do alicerce os soterrados bailes da gente Juruema (id., ibid, p. 160).

Pode-se afirmar que patente o dinamismo narrativo alcanado partir do emprego desse tipo de ambientao. possvel sugerir uma aparente simultaneidade entre o tempo da diegese e do discurso, pois aqui desaparece a ciso despudorada', que se constata principalmente na ambientao franca, entre o narrar e o descrever. A ao do personagem engendra um espao que emana de seu percurso por meio de suas aes. Logo, personagem e ao, mediatizadas por um narrador heterodiegtico e onisciente, fornecem ao leitor os ndices necessrios ancoragem narrativa cronotpica.

Por ltimo, Lins levanta ainda a possibilidade de, por outros prismas, podermos classificar a ambientao como ordenada e desordenada (1976, p. 86), assim como o que ele nomeia de ambientao excaustiva e alusiva (1976, p. 90). A essa classificao Antnio Dimas no faz nenhum tipo de referncia em seu livro Espao e romance. Ao contrrio, imprime grande destaque apenas e to-somente distino proposta por Lins entre espao e ambientao (p. 19-20) e classificao da ambientao em trs tipos, j apontados neste estudo (p. 20). Por ordenada entendemos a ambientao em que ordem e exatido dos componentes do espao so metodologicamente exigidas, enquanto a desordenada a que, faz uma espcie de simples catalogao dos componentes, "[...] sem muita ordem" (id., ibid., p. 86-87), como se, em aparncia, elidisse qualquer forma de mtodo organizacional. Exaustiva aquela minuciosa, detalhista, que esquadrinha o ambiente, pontilhando-o de elementos em superpopulao. A alusiva, ao contrrio, entendemos ser muito mais sugestiva e parcimoniosa. importante salientar que ao autor essas ferramentas esto disponveis para emprego de acordo com suas escolhas, conforme organicidade ou utilidade funcional aos efeitos de sentido desejveis.

2 Ponte do Galo no contexto do Extremo-Norte

Acerca de Ponte do Galo, necessrio salientar que rarssimo material para pesquisa pudemos encontrar -- sobre este que o stimo romance do Ciclo do Extermo-Norte. Na verdade, apenas uma minscula resenha de jornal intitulada "Uma ponte simples" , sem grande relevncia em suas parcas e errneas informaes, alm uma conferncia proferida por Ernani Chaves , denominada de Ponte do Galo: a cidade como labirinto do desejo, II Ciclo de Conferncias: Dalcdio Jurandir (Belm UNAMA), 25 a 29 de junho de 2001. Vale dizer, tambm, que nada fcil foi encontrar a obra a ser estudada, uma vez que nunca foi reeditada, fato que ocorreu igualmente com os cinco ltimos romances do ciclo: Primeira manh (1968), Ponte do Galo (1971), Cho dos lobos (1976), Os habitantes (1976) e Ribanceira (1978). Os cinco primeiros foram editados, no mnimo, duas vezes: Chove nos campos de Cachoeira (1941, 1976, 1991, 1996, 1988), Maraj (1947, 1978, 1992), Trs casas e um rio (1979, 1994), Belm do Gro Par (1960, ed. Portuguesa de 197_, 2004) e Passagem dos Inocentes (1963, 1984). Um enorme desequilbrio, portanto, na publicao da obra de Dalcdio Jurandir. Ficamos a nos perguntar, ento: "Por que esse desprestgio com os ltimos romances do Ciclo do Extremo-Norte? Ser por causa do fato de serem os menos estudados? Ou ser porque so mais recentes, por isso menos conhecidos? O tempo os tirar do ostracismo dentro da obra do romancista?"

Na verdade, o autor marajoara, ao receber da Academia Brasileira de Letras em 1972 o prmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, quase j havia concludo seu ciclo romanesco, pois consta que houvesse j finalizado todos os romances at 1971 (ASAS DA PALAVRA, 1996, p. 9). Teria concludo Os habitantes em 1967, antes mesmo de publicar Primeira manh, que de 1968, ano de concluso tambm de Cho dos Lobos. Em 1970, termina Ribanceira, um ano antes, portanto, da publicao de Ponte do Galo, de 1971. Contudo, seu desejo era incluir no ciclo no mnimo mais um romance, do qual escrevera pelo menos um captulo:

Entreguei o Ribanceira ao editor, no o romance que esperava fazer e no posso saber como e quando posso esboar o ltimo volume. A doena foi mais apressada do que eu. Vamos ver.

[...] pena que no possa escrever o ltimo volume de Alfredo. Atrasei-me. As dificuldades so grandes. Talvez eu use um gravador e v capengando, levantando a estrutura do livro. A mo no ajuda.

[...] Escrevi sete pginas do volume que viria encerrar a srie dos romances e senti que o crebro -- memria, observao, senso da narrativa tudo vai bem. No tenho dores de cabea.

[...] Perdoa te escrever assim. Fora dos ataques vejo-me boiando satisfeito por mais um captulo vencido (ASAS DA PALAVRA, 1996, p. 39) .

Como stimo romance do ciclo, Ponte do Galo apresenta-nos agora um Alfredo -- personagem central, de nove entre os dez do Ciclo -- como um ginasiano: "[...] mame passei, pregue a segunda divisa, segundo ano" [...] (JURANDIR, 1971, p.5), que chega "[...] De volta ao chal, pelas frias [...] (id. ibid., p 3). No mais um menino, j um adolescente, ele se encontra em Cachoeira revendo personagens familiares (o pai, Major Alberto, e a me, D. Amlia), e outros da vizinhana (Salu, Dad e Didico, Sab Manjerona, etc.), relembrando momentos do passado no chal, momentos com o irmo Eutanzio e a irm caula, Mariinha, ambos j mortos. Pode se dizer que esses momentos de Alfredo em Cachoeira transcorrem muito mais na oniscincia de um narrador, que segue a esteira de seu personagem central. Tudo isso se passa na primeira parte do romance, intitulada simplesmente pelo numeral romano I (que vai da pg. 3 120).

com este personagem, tambm, que o narrador, como uma cmera de cinema, acompanha, bem de perto, seu retorno para Belm, capital do Par, cidade antes de encanto (em Chove nos campos de Cachoeira)e, agora, de desencanto. E j estamos na segunda parte, com o ttulo econmico de II (da pg. 121 175: o fim do livro). Belm, no mais para Alfredo uma cidade de sonho, mas cidade de periferia, noturna, feia, cidade ps-lemismo , decadente e labirntica para um Teseu que no encontra sua Ariadne, muito menos o fio a lhe guiar na sua busca por Luciana (CHAVES, Ernani. In: LEITE, 2006, p.40). Dona Santa, dona Dudu, Ana, Nini e a ausente-sempre-presente Luciana vivem e emanam vida na voz e na mente do narrador e de Alfredo, possibilitadores, os dois, de nosso passeio -- como leitores que somos -- por uma ponte interligadora entre Cachoeira e Belm, entre o Alfredo-menino e o Alfredo-adolescente, como nesta passagem de Ponte do Galo:

Deitou-se no soalho a olhar pelo buraquinho onde, quando guri, ficava com a sua linha conversando com os peixinhos, l de baixo, tempo de cheia, tempo de Mariinha e Andreza, tempo em que o irmo, rompendo o lamaal, o seu e o dos caminhos, ia ver Irene. Olhou, e l estava, embaixo, no seco, o menino pescador. Rapaz e menino se miravam. Dizia o menino: E agora? Nem te ligo nem te conheo. Me traste em Santana, enterraste o faz de conta, ganhaste a cidade. E aqui estou para sempre, fiel a este cho, aos carocinhos de tucum espalhdos no tanque e no meio dos peixinhos mal as guas chegam. E a tua pesca a em cima? Que conversao a tua, a com o mundo? (JURANDIR, 1971, p. 92).

Alfredo, dentro do espao ntimo da casa (chal dos pais), est no microespao que mais lhe louvvel: a saleta, o lugar da tipografia, dos livros, onde na rede atada seu irmo Eutanzio (morto agora) costumava ficar, com o pensamento voltado para sua amada Irene, que tanto o menosprezava. Os elementos espaciais aqui avultam em quantidade e em valor sgnico. O assoalho o elemento material mediador de dois espaos bipolarizados: o "l de baixo" e o "a em cima". Relao de verticalidade, portanto. Porm, essas antteses espaciais passam a conotar relaes que, fora deste contexto particular, podem soar inimaginveis. Por exemplo, o assoalho (de madeira) o meio que deveria separar, mas paradoxalmente -- maneira de um oxmoro --, por causa do "buraquinho", torna-se cmera, olho mgico e (por que no?) a ponte que interliga o do alto, o adolescente em frias, ao do baixo, o menino que brincava com Mariinha e Andreza e com seu carocinho mgico de tucum. O espao acaba por se temporalizar, tornando-se como uma revelao do ser e do tempo, um espao cronotpico onde/quando o l de baixo representa o passado: a infncia e suas isotopias: inocncia, fantasia e encanto com a cidade e seu futuro nos estudos que na Vila no poderia ter. O a em cima representa a no-aceitao do menino em relao ao adolescente, lembrando um Narciso pelo qual a imagem do reflexo sente rejeio, porque recusa a traio', j que em Santana Alfredo renuncia inocncia, tendo com Dolorosa sua iniciao sexual, perdendo aos poucos tambm seu encanto com a cidade e os estudos. Desse confronto entre o antes e o depois, quem ganha o jogo? Possivelmente, ningum mais que o leitor.

No entanto, por maior riqueza que possam apresentar, os espaos e a ambientao no devem aflorar em um texto narrativo de forma gratuita, visto que participam de um sistema cuja relao entre os componentes deve e tem de ser intrnseca, sob o risco de comprometer o todo, por uso mnimo e por impreciso, ou por exagero e detalhismo inconseqente, procedimentos ambos que empobrecem a instaurao do universo ficcional. por isso que, na abordagem do problema da espacialidade, relevantssima a discusso acerca do uso da descrio como recurso de ancoragem narrativa. At que ponto o narrador a introduz de modo til ou intil no preenchimento do espao romanesco? Serve somente para caracterizar, decorar uma situao? Ou pode ascender relevncia de uma dimenso simblica no universo ficcional? O que pode ser considerado mais intrnseco e essencial construo da narrativa?

Neste ponto, a operacionalidade dos estudos de Tomachevski(interessam-nos mais particularmente os motivos associados e livres e a motivao caracterizadora) e Bournneuf e Ouellet (funcionalidade dos elementos espaciais) subsidiaro nossa pesquisa a partir daqui, muito embora estejamos limitados e restritos pelo espao exguo deste artigo e pela progresso da pesquisa, que nos conduzir mais l adiante, j na monografia dissertativa, pelos espaos dacidianos, onde o eu existencial e social dos personagens vivenciam sua identidade cultural em um locus amaznida, porm este sem a moldura dos clichs do extico e do pitoresco, to comuns em obras de alcance literrio duvidoso. E, assim, a posteriori, nossa investigao emergir mais enriquecida e aprofundada em novo texto de artigo.

Concluso

evidente, portanto, a classificao de Ponte do Galo como romance de espao, muito embora saibamos dos problemas advindos de uma classificao estanque, no permitindo outras ponderaes, como a possibilidade de o considerarmos igualmente como romance de personagem, numa tipologia engendrada por Wolfgang Kayser e exposta por Vtor Manuel de Aguiar e Silva (1997, p. 685). Alm disso, em vista dos procedimentos narrativos empregados em Ponte do Galo, postulamos que este romance corpus mais que apropriado ao estudo proposto, em decorrncia da forte presena do componente espacial na criao do ambiente como locus de ao dos personagens dalcidianos.

Muito ainda nos falta para concluir a pesquisa. No entanto, nem tudo so incertezas. Sabemos, por exemplo, que pode parecer ser (mas no o ) coincidncia que aqui, neste artigo, queiramos erigir uma ponte entre a ainda rarefeita leitura dos livros de Dalcdio Jurandir e a pouca relevncia dada a um componente narrativo sobremaneira valorizado em sua obra Ciclo do Extremo-Norte. Ponte, portanto, a ligar entre si essas duas margens problemticas e, concomitantemente, proporcionar uma transposio, uma superao possvel, um salto qualitativo numa direo mais auspiciosa. Assim, Ponte do Galo nos ajudar na travessia desses espaos ficcionais dalcidianos, que enfocam um locus, por excelncia, amaznida (sem o clich to desgastante e desgastado do elemento pitoresco), proporcionando um estudo analtico que contribua para minimizar (ao menos um pouco) a problemtica dupla do silenciamento da palavra do autor ponta-pedrense/cachoeirensee, ao mesmo tempo, aprofunde e pormenorize o estudo to menosprezado da espacialidade na fico narrativa.

Referncias Bibliogrficas

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[2] ______ -- _____. Belm: UNAMA, v. 8 n 17, 2004.

[3] Atlas das representaes literrias de regies brasileiras / IBGE, Coordenao de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, 2006-.

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[6] BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semitica do texto. 4 ed. So Paulo: tica, 2002.

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Espao ficcional em Ponte do Galo, de Dalcdio Jurandir


Por: Alcir Rodrigues

Perfil do Autor

Alcir de Vasconcelos Alvarez RodriguesBelm - Mosqueiro, Norte/ ParNasceu em 1968, filho de Alfredo Alvarez Rodrigues Filho, mecnico e Gerente da Cosanpa de Mosqueiro, j falecido, e Joana Maria de Vasconcelos Rodrigues, professora. Tem Mestrado em Letras-Estudos Literrios,pela UFPA, com a Dissertao "Espao ficcional no romance Ponte do Galo, de Dalcdio Jurandir",Especializao "lato sensu" em Lngua Portuguesa e Anlise Literria, pela Unama, com a monografia "Narrativas orais da ilha de Mosqueiro: memria e significado", e graduao em Letras, Lngua Portuguesa, pela UFPA, com o TCC "O fantstico em 'A caada'", de Lygia Fagundes Telles.Artista plstico por hobby, gosta de escrever contos, crnicas, poemas e ensaios de natureza vria, principalmente ligados literatura... Mora numa ilha chamada Mosqueiro, com muitas praias banhadas por um rio-mar com ondas, ondas de guas doces... (Artigonal SC #3203291)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/ficcao-artigos/espaco-ficcional-em-ponte-do-galo-de-dalcidio-jurandir-3203291.html
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