Jesus Cristo: o mito e a meta
Jesus cristo: o mito e a meta
Jesus cristo: o mito e a meta
Segundo o dicionrio Houaiss, a palavra "mito" na rubrica antropologia o relato simblico, passado de gerao em gerao dentro de um grupo, que narra e explica a origem de determinado fenmeno, ser vivo, acidente geogrfico, instituio, costume social etc. Por extenso de sentido: representao de fatos e/ou personagens histricos, freq. deformados, amplificados atravs do imaginrio coletivo e de longas tradies literrias orais ou escritas. So muitos os exemplos, mas ficaremos com estes porque satisfazem os motivos da minha argumentao.
impossvel a uma figura histrica que tenha se tornado um mito em sua poca, no deixar qualquer vestgio no meio social ao qual, alegadamente, pertenceu. "E a sua fama correu por toda a Sria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de vrias enfermidades e tormentos, os endemoniados, os lunticos e os paralticos, e ele os curava."Mt 4:24 "E seguia-o uma grande multido da Galilia, de Decpolis, de Jerusalm, da Judia, e de alm do Jordo." Mt 4:25Por mais reprimida que tenha sido a sua memria, por motivos diversos, o acolhimento que se recebe no imaginrio popular no pode ser incinerado em todas as mentes por decises superiores. No h hiptese. Quando na memria coletiva de um determinado grupo nada encontrado sobre determinado personagem, porque, ao menos, naquele grupo ele nunca existiu. exatamente o que acontece com o personagem mais famoso de todos os tempos: Jesus Cristo.
No judasmo ou na tradio judaica no existe absolutamente nada que justifique essa crena. Defensores da lenda falam do "testemunho" do Talmude, ou seja, uma historieta que em nada faz justia ao mitolgico Jesus. Existem dois Talmudes: o Talmude de Jerusalm (Talmud Ierushalmi), compilado nas escolas palestinas de Tiberades e Cesaria, entre os anos 350 e 400, e o Talmude babilnio (Talmud Bavli), redigido entre os anos 500 e 650 E.C.
No Talmude babilnio, no Tosefta e no Baraitas (escritos feitos ao mesmo tempo do Mishnah [200 E.C.], mas no fazem parte deste), encontra-se a histria de Yeishu ha-Notzri, h muito conhecida por aqueles que estudam o assunto. Esse homem foi repelido pelo rabi Yehoshua ben Perachyah, acabou acusado de feiticeiro e desencaminhador dos judeus, sendo por isso apedrejado at a morte, no sculo I da era antiga. Nada a ver com o Jesus Cristo da Era Comum. Notzrim (Nazarenos, em Hebraico, se refere a um movimento popular entre os samaritanos, que eram convertidos e no judeus de linhagem) uma designao messinica derivada da palavra hebraica neitzer, que significa broto ou rebento. O Talmude no confirma nada da detalhadssima histria contada pelo Novo Testamento e de seus personagens. Tampouco, outra fonte qualquer o faz em favor desse enredo que se desenrola em diferentes regies: Oriente Mdio, sia Menor e Europa.
Alis, curiosamente, todos os "testemunhos" vm de fora do judasmo. So os gregos que contam essa histria e se fazem passar por judeus na narrativa. Os pais da Igreja eram todos gregos e odiavam o judasmo e os judeus, conseqentemente. Por que esses gregos se interessariam subitamente em defender a existncia do judeu Jesus Cristo e, contraditoriamente, propagar o Velho Testamento no seio da prpria cultura? Ora, antes do surgimento da lenda de Jesus Cristo, em decorrncia desse dio o deus de Israel era considerado como o diabo. De repente, sem maiores explicaes, este deus criador da Humanidade passa a ser o pai bondoso que envia seu filho primognito para salv-la, com apoio prestimoso daqueles que, at ento, o execravam. Essa no! bom que se lembre que aqueles que odiavam os judeus continuaram odiando ao mesmo tempo em que pregavam o amor ao prximo. o avesso da filosofia que se programava sem o tempo necessrio para que se depositasse no fundo dessas guas turvas o dio que na cultura helnica era considerado normal. Odiar no era feio, tanto que as guerras fratricidas so comuns nas histrias gregas. A filosofia pura esttica, a histria no.
Tudo tem sua razo de ser e evidentemente havia um bom motivo e uma meta a ser cumprida. O bom motivo era a negao dos judeus de se juntarem ao restante da Humanidade que se encontrava sob a influncia da cultura helnica. Se at o dominador romano havia sucumbido por que aquele povo se negava? No tinha jeito, os turres queriam continuar judeus. Tal atitude foi considerada ofensa grave e os judeus foram chamados de inimigos da Humanidade. Eis uma histria escrita com sangue da qual no se fala. Mas o problema dos gregos ia diante: as conquistas alexandrinas mudaram radicalmente o universo helnico, tanto que a histria passou a trat-lo por helenstico. O equilbrio social do perodo clssico no existia mais, surgiram os riqussimos, os muito ricos, os remediados e os pobres numa sociedade que mantivera no passado certa uniformidade.
A influncia oriental mudou hbitos e costumes, e no seu bojo estava a repudiada influncia judaica. No s os gregos menos afortunados se deixavam seduzir pelo proselitismo judeu no primeiro sculo. Havia converses e o clima era preocupante para a devotada cultura helnica, inclusive porque os judeus no se casavam com no-judeus e a proliferao deles assustava. O fator de seduo do judasmo era a propagao do Velho Testamento. Isso despertou a curiosidade da intelectualidade grega, especialmente no primeiro sculo da Era Comum, quando o intelectual judeu Filon de Alexandria, tentando superar as dificuldades que a comunidade judaica daquela cidade enfrentava, buscou demonstrar a grandeza da herana judaica (Velho testamento) interpretando-a a luz da filosofia grega.
O neoplatonismo estava em alta. Filon identificara o Deus neoplatonico com o deus de Israel. O primognito de Deus era o logos, a inteligncia, o princpio de toda justia. "No princpio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era Deus" Joo 1:1 A alma humana era tida como parte da alma universal, do prprio Deus presente no Homem. "Eu e o Pai somos Um." o Verbo que nele habita que o torna capaz de dizer: "Pois Aquele que habita no seio de Deus (o Logos), ele mesmo relevou a Deus". Joo 1:18 O filsofo Justino Mrtir, o mais importante dos apologistas cristos do sculo II, diz: "Aprendemos que Cristo o primognito de Deus e que o Logos, do qual participa todo o gnero humano". Assim o cristianismo tornou-se a filosofia das filosofias. As classes altas foram as primeiras a serem abordadas nesse processo de convencimento. Nada de gente humilde, nada de pescadores, nada de Galilia.
Jesus era o verbo que se fez carne, deixando o tempo alegrico do mundo das idias para se experimentar no tempo cronolgico da histria mundana, porque os gregos precisavam do Velho Testamento para sintetizarem um antdoto contra o judasmo. Funcionou no mdio prazo, histricamente falando. No entanto, quanto mais nos distanciamos da sua origem, como algum que se afasta de uma pintura para contempl-la adequadamente, mais claro esses acontecimentos vo ficando. O primeiro a chegar a concluso de que Jesus Cristo foi um mito criado no sculo II e que o cristianismo do primeiro sculo, com os apstolos e tudo mais, pura fico, no foi nenhum satanista ou um ateu rancoroso. Foi o telogo, filsofo e historiador alemo Bruno Bauer (1809-1882). Como telogo que era, sua pesquisa se prendeu ao Novo Testamento e, ao que parece, as causas histricas ficaram em segundo plano. Mas no tem problema, podemos cuidar do resto. A contribuio dele j foi o bastante. A vitria do cristianismo a vitria da cultura helnica, a vitria de Apolo, o filho de Zeus, disfarado de rabino.
O mito cumpriu sua meta. Porm, agora, vai ser difcil manter posio indefinidamente porque no tempo cronolgico os mitos no tm tratamento especial. Os elaboradores do cristianismo abusaram da autoconfiana, pois o tempo real implacvel, guarda surprezas que ningum imagina. Um dia a redoma da autobiografia da Igreja ia se quebrar e os motivos que levaram a criao do mito Jesus Cristo ficariam expostos aos olhares incrdulos de bilhes de pessoas. A resistncia a essa viso desagradvel natural, perdurar por algum tempo. O prazer esttico e sentimental propciado pela fora da filosofia que contempla a doutrina crist no se apaga como uma lousa. Inclusive, a fora do Velho Testamento no tem prazo de validade. Sua atual interpretao, sim. No haver necessidade de um um novo Filon para reinterpret-lo, nem de um novo Bauer para denunciar qualquer farsa imposta pelos vencedores. A sobrevida da verso crist ter o tempo que o progresso da sabedoria humana lhe conceder. A, venceremos todos.
Jesus Cristo: o mito e a meta
Por:
Ivani de Araujo MedinaPerfil do Autor
(Artigonal SC #3260884)
Fonte do Artigo -
http://www.artigonal.com/religiao-artigos/jesus-cristo-o-mito-e-a-meta-3260884.html
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