O ódio na história
O dio na histria
O dio na histria
O dio um sentimento natural. Odiar, como reao, uma necessidade de extravasamento, portanto, saudvel. Existem outros sentimentos mais bonitos, mas nem por isso mais humanos do que este. Na Antiguidade odiar no era feio. Para os gregos antigos compartilhar do dio de um parente, de um amigo ou o da prpria cidade era um dever. Era um dever de famlia, de amizade e de civismo. No entanto, a constatao dos prejuzos de toda ordem causados pelo dio, levou o Homem a tentar o auto-aprimoramento. Foi a busca por mais espao em si mesmo para sentimentos estticos, mais confortveis e produtivos que fez surgir a filosofia ou o amor a sabedoria.
Todavia, esse sentimento matreiro tambm se serve do amor para se manifestar. Seja do tipo que for o amor, no se livra dele facilmente. Esse fantasma emocional assombrou o mundo helnico com suas guerras fratricidas impossibilitando a unio nacional dos antigos gregos. Milnios se passaram e o mundo mudou muito. Astutamente, s mudanas, sobreviveu justamente o dio gerado pelo amor ao helenismo, e de forma dissimulada que engana at hoje.
A cultura helnica era amada e cultuada orgulhosamente pelos seus. Com as vitrias alexandrinas se estendeu com sucesso ao resto do mundo. Sofreu influncias porque o helenismo no era refratrio, ao contrrio, absorvia sem dificuldades a experincia estrangeira sempre acrescentando algo de seu. Isso era uma particularidade grega, remodelar sempre. Dessa forma ia conquistando mais adeptos do que adversrios.
Assim foi at que um dia o helenismo perdeu a pacincia com um povo cuja cultura rejeitou seus encantos. Tal sentimento de rejeio calou fundo na alma helnica. Era como se todos os pequenos dios pessoais se unissem num dio enorme, na luta contra os "inimigos da Humanidade". Assim os gregos passaram a identificar os judeus. A negativa judaica de deixar-se fundir ao ideal universal helenstico acabou fazendo do tradicional dio grego um bem cultural, uma arma implacvel contra o judasmo e queria a sua eliminao.
A verso potencializada e nacionalizada desse sentimento era transmitida de gerao a gerao. Quando os romanos dominaram o mundo grego mais uma preocupao apertou-lhes a alma. Judeus e romanos se davam bem. Receavam que naquela situao seus privilgios e a amada cultura se perdessem na barbrie. Para agravar um pouco mais, os judeus, que no se casavam com no-judeus, proliferavam com intensidade e o proselitismo que praticavam estava surtindo efeito. At os gregos menos afortunados s se tornavam meio-convertidos porque repudiavam a circunciso, mas as mulheres so elas que criam os filhos cada vez mais participantes.
O dio que vinha se arrastando desde os sculos anteriores, no primeiro sculo da Era Comum, estalou com fria incontida. Escritores gregos, num trabalho de propaganda negativa, jogavam os populares contra os judeus com histrias chocantes. Os dominadores romanos que assistiam a disputa sem tomar partido, tiveram que intervir inmeras vezes para manter a ordem pblica. A guerra romano-judaica de 66-70/3 foi o episdio mais sangrento que esse dio promoveu. Ex-escravos gregos conseguiram altos postos no governo imperial e nomearam parentes e patrcios para cargos lucrativos, inclusive, o de procurador da Judia.
Os romanos foram usados como um arete contra os portes do judasmo. Os judeus eram bons pagadores de impostos e no queriam a guerra. Porm, convertidos menos cultos e mais pobres, como os galileus, eram usados como massa de manobra para provocar o conflito e a possvel aniquilao do judasmo com a destruio da sua principal referncia o templo. Essa guerra devia chamar-se Greco judaica, pois resultou da disputa entre o helenismo e o judasmo pela hegemonia cultural no mundo antigo. Ambos tinham influncia em Roma, tanto sobre a populao quanto sobre o governo.
Os gregos se sabiam dotados para a reverso da prpria sorte. Haviam acumulado e praticado conhecimentos como nenhum outro povo. O contato com o Oriente fora-lhes auspicioso e no se limitava mais a experincias de alguns dos seus soldados aventureiros, porm alargara a experincia de grande parte daquele povo. Os gregos se mudavam para terras distantes e l se estabeleciam numa vida nova, rica, farta e ainda mais culta, na qual se reproduziam sem perderem o orgulho de continuarem como verdadeiros filhos da Hlade. Estavam por todo o mundo... Mas os judeus tambm. A chamada guerra Romano-judaica espalhou-os ainda mais.
Na criao do antdoto contra o judasmo (o cristianismo) o antigo dio grego encontrou a sua dissimulao perfeita no enredo da novela dos evangelhos. Os gregos criaram um heri salvador da Humanidade perfeitamente identificado e um algoz annimo, mas igualmente identificvel o povo judeu. Condenaram um povo inteiro a um sofrimento perptuo. Esse dio travestido de amor vem rolando como uma bola de neve ao longo do tempo adoado pela filosofia. Quanto mais distante da sua origem e da conscincia das suas motivaes, mais perigoso ele vai ficando.
O dio ideolgico no natural, doente, portanto. Oferece contradies descabidas que a filosofia no d conta, por isso fica difcil de entender. De "inimigo da Humanidade" o povo judeu passou a "assassino do salvador da Humanidade", ou seja, tentou roubar a nica chance dela. No pode haver crime pior ou maior do que este, capaz de despertar um profundo rancor. O percurso desse dio foi apagado do tempo pelo poder da beleza tirnica de uma histria que nunca existiu. O sagrado no admite indiscries.
A perseguio cultural converteu-se numa perseguio religiosa e as chances do homem comum compreender o que se passava se reduziram ainda mais. O medo inculcado pela religio o fazia ceder solicitao dos orientadores cristos. Passou a odiar os judeus por obedincia, depois por reflexo, e finalmente por tradio. As crueldades da Idade Mdia, as humilhaes e restries de todas as pocas seguiram seu curso. No sculo dezenove quiseram expulsar o povo deicida da Europa. Mais uma vez, os judeus sofreram de tudo por causa disso. A nica sada seria adquirirem terras em algum lugar onde pudessem viver em paz. A nostalgia clamava por Jerusalm. "Ano que vem, em Jerusalm".
No final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a Gr-Bretanha e a Frana pediram aos rabes que se levantassem contra o Imprio Turco-Otomano. Em contrapartida ofereceram a independncia a eles. A Sria e o Lbano tornaram-se protetorados franceses e o Iraque, a Palestina e a Jordnia protetorados britnicos. Enquanto isso os judeus sionistas atuavam junto aos britnicos e franceses tendo em vista a formao de um estado judeu. Em 1932, o Iraque torna-se independente; em 1943, o Lbano; em 1944, a Sria; em 1946, a Jordnia. Mas a Palestina no obteve a sua independncia porque j estava prometida aos judeus. E os palestinos com isso? O crescimento do dio dos rabes devido deslealdade ocidental no demorou em se converter no dio islmico. So muitas as naes islmicas atualmente e o islamismo penetra cada vez mais no Ocidente.
O clima de pnico havia se espalhado mundo a fora com as aes terroristas. Os meios de comunicao noticiavam sem esclarecer a opinio pblica, resvalando nos contextos da atualidade sem meios de penetrar na questo. Enquanto isso, o personagem principal, o antigo dio grego, que nunca esteve na mdia e nunca deixou de dar crias, se ria das falsas questes. dio que fez com que os judeus fossem tangidos ao longo da histria at reconduzi-los de forma mais inesperada quela regio do Oriente mdio, da qual foram expulsos pelo mesmo motivo depois da destruio do templo, no primeiro sculo. Repare aonde aquela bola de neve veio chegar!
Muito se comenta a respeito das barbaridades que os judeus cometeram contra os palestinos antes, durante e depois da fundao do estado de Israel, do interesse do capitalismo naquela regio, das atividades econmicas lcitas e ilcitas dos judeus, etc., mas nenhuma palavra se ouviu at hoje sobre a verdadeira causa que desencadeou toda essa brutalidade. Enquanto isso os filhotes daquele dio oculto e milenar esto cada dia mais rechonchudos com os novos conflitos.
Outro detalhe de importncia nessa histria que, com o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a revelao dos campos de extermnio causou grande comoo na cristandade. Os judeus souberam aproveitar aquele momento de sensibilidade dos seguidores da crena que os condenara ao sofrimento perptuo. No sculo anterior, os queriam fora da Europa, e no sculo vinte, se compadeciam deles. Assim sendo, uns poucos judeus se dispuseram compor com cristianismo, afinal, Jesus Cristo, que nunca existiu, "era" judeu. A lgica disso que a triste lembrana do holocausto deixaria os judeus mais protegidos e o judasmo em evidncia no seio das sociedades crists.
Isto posto, fica fcil entender o motivo pelo qual j se pode encontrar telogos judeus escrevendo sobre a positividade do Novo Testamento e, at mesmo, aceitando a existncia do Jesus histrico ao sentirem o perigo islmico nos calcanhares. O argumento bsico deles simples: a verdadeira autoridade na interpretao religiosa no est em nenhuma liderana crist. Como Jesus Cristo nasceu, viveu e morreu no judasmo, por conseguinte, a autoridade no assunto inteiramente judaica.
Com habilidade eles tentam se livrar das conseqncias do antigo dio grego. Sabem que podem dar a volta por cima e assumir o controle. Por isso mesmo, oficialmente, nenhum judeu desmentiu a histria de Jesus cristo. Jamais o fariam porque a populao crist mundial est estimada em 2.2 bilhes de indivduos. A populao islmica, em crescimento, em 1.8 bilhes e a populao judaica, difcil de ser mensurada, em 14 milhes de indivduos. Uma cifra que no deve corresponder realidade, mas as propores podem ser consideradas, pois os nmeros exatos so de um valor relativo aqui no meu texto. No entanto, o entrelaamento de interesses, certamente no.
No podemos deixar aberta a porta que trouxe do passado para o presente esse dio travestido de amor e facilitou suas calamitosas conseqncias. Foi assim que o fio da meada acabou se perdendo na conscincia ocidental, a pesar das tentativas frustradas da filosofia de remediar a questo. A histria no procura por culpados porque sabe que a Humanidade vtima de si mesma. Seu papel , tambm, iluminar o caminho percorrido pelo seu objeto de estudo e mant-lo sob seus holofotes para que no seja mais perdido de vista. Portanto, a histria no deve permanecer como serva de ideologia alguma, ainda que, eventualmente, o esforo para a sua reconstruo possa assumir tal aparncia diante dos olhos do preconceito.
Como dificilmente nos livraremos do dio e das nossas antipatias ocasionais, ao menos, conhecendo um pouco melhor o percurso que descreveram na histria, talvez possamos oferecer a possibilidade de dias melhores queles que ainda no experimentaram a aventura da vida.
O dio na histria
Por:
Ivani de Araujo MedinaPerfil do Autor
(Artigonal SC #3369518)
Fonte do Artigo -
http://www.artigonal.com/religiao-artigos/o-odio-na-historia-3369518.html
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