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O sequestro de Waly Salomão

O sequestro de Waly Salomo

O sequestro de Waly Salomo

Em 1988 o PMDB ainda discutia o seu candidato sucesso de Mrio Kertsz. Na ocasio se verifica o "racha" entre os chamados histricos e o grupo que reunia Mrio Kertsz e o empresrio espanhol naturalizado brasileiro Pedro Irujo. Estes apresentaram inicialmente a candidatura de Gilberto Gil a prefeito, que no seria aceita pelo governador Waldir Pires. O resultado seria o rompimento do msico com o governador e o lanamento do radialista Fernando Jos, funcionrio de emissora do empresrio.

O governador acabaria aceitando a candidatura de Virgildsio Sena, apoiado pelo primeiro grupo, mas no evitaria que a legenda do partido fosse empalmada pelo segundo grupo. Ao redor daquele organizar-se-ia a Frente Salvador, que contaria com o PSDB, PCdoB, PCB, PSB e PMN. No entanto, mesmo contando com dissidncias de outros partidos no passaria do segundo lugar.

Gil deve ter se preparado para o processo eleitoral com certa antecedncia. Na administrao Mrio Kertsz j contava com amigos, entre os quais o prprio prefeito. Na rea carnavalesca conseguiu emplacar o poeta, compositor e multi-artista Waly Salomo, que teve passagem breve, mas importante, pela Coordenao do Carnaval daquele ano.

Waly, com seu formidvel senso de criatividade, tinha luz prpria naquele pequeno mundo de interesses polticos e comerciais que era o carnaval baiano dos fins dos anos 80. Desta maneira, conseguiu pela primeira nesta festa, pautar a discusso de importantes temas culturais. Penso em quanto sua presena seria importante nos dias de hoje, de crise do modelo carnavalesco privatista e homogeneizador que daria seus primeiros passos nesta poca. No havia um dia que no criasse um "fato poltico" ocupando a imprensa com polmicas. No entanto, estas nem sempre foram bem escolhidas, suscitando alguns confrontos, que se intensificaram com a falta de recursos com que contou na Coordenao do Carnaval. Uma das polmicas em que se envolveu foi a com o msico Moraes Moreira.

Na campanha reivindicatria daquele ano o Sindicato dos Msicos percebeu que havia um espao poltico para aumentar as bandas contratadas, assim dobramos a reivindicao em relao ao ano anterior. A verba era substancial havendo quem entre os msicos sequer acreditasse na viabilidade da proposta, particularmente quando as negociaes ficaram emperradas com a prefeitura. Havamos tido algumas reunies com Wally e, mesmo percebendo suas boas intenes, entendemos que o dialogo havia chegado ao limite.

Ora, sabendo da relao entre Wally e Gil imaginamos que este no interferiria nas negociaes dos msicos se a questo no ganhasse corpo na sociedade! Decidimos ento realizar uma ao que tambm pudesse chamar a ateno, agora como um impasse na festa, obrigando seus dirigentes a sentarem com o sindicato para solucionar o problema. Esta ao foi o "sequestro" de Waly Salomo.

A execuo do ato se deu sem maiores problemas e contou com o fator surpresa. Sabendo que o expediente de Waly na coordenao era pela tarde, fomos infiltrando os msicos em pequenos grupos no prdio, uns pelo elevador e outros pelas escadas mesmo, at que passou a ser humanamente impossvel transitar pelos corredores do Edifcio Oxumar, na Ladeira de So Bento.

Acho que chegamos a reunir uns duzentos msicos ali. A esta altura j estava um inferno e para andar tnhamos que passar por cima dos colegas. Em sua assessoria trabalhavam colegas como Djalma Oliveira, "Batatinha" e Edil Pacheco, que estavam surpresos com a situao. A ped para ser anunciado a Waly. No posso deixar de observar que nunca tivemos problema para falar com o mesmo. Alis, ningum tinha. Seu "escritrio" era um verdadeiro "mangue", onde se atendia todo mundo, e o pior, ao mesmo tempo. Talvez por isso ele tivesse tido dificuldades de lidar com as questes comezinhas do carnaval da poca.

Entrei em sua sala com uma comisso do sindicato e observei a sua reao. claro que deviam ter lhe informado do que estava acontecendo l fora e quem eram os responsveis. No entanto, no me fez qualquer interpelao neste sentido. Mas, desta vez me ouviu sem interromper, como habitualmente fazia. A forma com que eu lhe comuniquei da ao dialogava com a sua personalidade. "Cheio de dedos" comecei falando-lhe da situao da negociao e da responsabilidade do sindicato de conduzi-la. Afirmei que sabia do seu interesse em uma soluo para o problema, e, que, tendo em vista a sua postura democrtica e criativa imaginamos uma soluo neste nvel para a questo, decidindo sequestra-lo.

A reao de Wally Salomo, no entanto, surpreendeu a todos. Aps um momento de contrariedade e introspeco de suas feies subiu na mesa e comeou a gritar de forma rtmica:

- Estou sequestrado, estou sequestrado!

- Ato contnuo, mandou chamar seus colaboradores, para comunicar-lhes a notcia, tendo este ficado abismados com a situao inusitada. Depois passou a dar alguns telefonemas informando do sequestro. Ficamos em seu escritrio por algum tempo, depois conversamos com alguns de seus colaboradores (que tentaram demover-nos do nosso gesto) e, posteriormente com a "massa" dos msicos l fora. No fim da tarde, aps uma avaliao dos impactos da atitude na Prefeitura, na Coordenao do Carnaval e na imprensa, suspendemos o "sequestro" que, em nossa opinio, j tinha alcanado seus objetivos, passar para a sociedade que existia um impasse na festa.

O episdio levou a uma interveno da prefeitura, de cpula, e mais rpida, que o fez atravs de Gilberto Gil. Desta forma fomos convidados para conversar com o prprio em outra sala do mesmo andar onde funcionava a Coordenao do Carnaval, embora sem a presena de Waly. conversa compareceram Gil, eu e alguns colegas da comisso do sindicato. Na oportunidade, comecei ressaltando a satisfao de negociar com quem "falava a nossa lngua". Fiz ento, uma digresso sobre a precariedade com que tocvamos no carnaval, mostrando as dificuldades encontradas nos palanques de bairros. Como a presena de Gil era quase a confisso antecipada de que haveria um acordo passei a enumerar nossas necessidades, a contratao do dobro de bandas do ano anterior e a garantia de condies de trabalho adequadas, particularmente uma boa sonorizao e estrutura dos palanques.

Gil respondeu inicialmente que as reivindicaes eram exageradas. Falou das dificuldades da prefeitura, mas afirmou que estava do lado dos msicos em suas reivindicaes. Deixei ento que os colegas lhe respondessem. J tendo feito antecipadamente a "diviso de trabalho" na negociao (eu seria mais mole e eles mais duros) o pessoal foi incisivo com Gil, ilustrando com seus exemplos pessoais os problemas que eu havia observado, e dizendo-lhe que no esperavam outra atitude dele que o apoio s reivindicaes do sindicato. A segunda rodada de falaes j foi bem melhor quando Gil afirmou que "iria ver o que poderia fazer" e elogiou a atuao de Wally frente da Coordenao do Carnaval, o que, naturalmente, concordamos.

Poucos dias depois no deu outra coisa: fomos chamados por Wally para dizer do atendimento a todas as nossas reivindicaes. O processo de negociao tinha sido o melhor desde que comeamos a campanha reivindicatria do carnaval e foi muito comemorado pelos colegas, inclusive pelos que sempre desconfiam que no fosse dar certo. Neste ano, porm, foi inaugurado, o pagamento parcelado do pessoal do carnaval, uma vez antes e outra depois da festa, o que foi aceito por ns em funo do montante em jogo, mas no futuro isso daria problemas a todos os setores envolvidos com a festa. Mas isso motivo de outro livro...

Durante os anos 80 me deparei com dois pedidos de apoio poltico ao sindicato. No que fssemos vestais, e no apoissemos candidatos, mas havia uma ntida preferncia da diretoria (inclusive por minha influncia) por candidatos de esquerda.

Isso, entretanto, no evitou momentos de constrangimento. O primeiro foi quando um colega da OSBA me procurou propondo que os msicos da orquestra fizessem um abaixo assinado para garantir a permanncia de Jose Augusto Burity frente da Fundao Cultural. Na oportunidade, mesmo considerando o papel positivo jogado por este na consolidao da OSBA, tive que recusar por motivos polticos. que no ficaria bem um militantes socialista apoiar uma pessoa que exercia cargos de confiana no governo do estado durante a ditadura militar.

Aps a campanha do carnaval de 1988 seria procurado por outro colega que, dizendo ter vindo em se prprio nome me pediu para que o sindicato assinasse um manifesto de apoio candidatura de Gil a prefeito por considerar importante este contar com o apoio de sua prpria categoria. Para este, a entidade deveria participar na linha de frente da campanha tendo em vista o espao que poderia ser ocupado para as causas musicais.

Procedi da mesma maneira que na vez anterior. Estando mais experimentado nas lides politicas, no disse no, colocando, porm, uma srie de dificuldades para a efetivao da proposta. Eu no podia decidir pelos colegas; teria que ser feito uma consulta; poderia haver desgaste para o indicado com a proposta de outros nomes etc.

Dessa poca em diante o meu relacionamento com os dois nunca mais foi o mesmo. Burity continua falando comigo (se bem que durante certo tempo me pareceu transparecer uma mgoa), o mesmo no acontecendo com Gil.

O candidato que afinal seria apoiado pelo PMDB seria o radialista Fernando Jos. Sua gesto, entretanto, seria de enorme dificuldade de articulao poltica, experimentando "rachas" com Mrio Kertsz, com partidos e vereadores de sua base inicial, e com seu prprio patro Pedro Irujo. No entanto, o isolamento poltico que experimentou no significou o mesmo em matria empresarial, na medida em que realizou concesses a empreiteiras e outros grandes interesses empresariais. O fracasso de sua administrao se projetou para a prxima administrao, a de Ldice da Mata, onde faltaram verbas e sobrou sequestro de recursos. Fernando, entretanto, passou a histria com um curioso record: o de se constituir no prefeito que teve a menor aprovao da histria de Salvador.

Franklin Oliveira Jr.

Escritor e professor universitrio

Ex-presidente do Sindicato dos Msicos-Bahia

O sequestro de Waly Salomo

Por: Franklin Oliveira Jr.

Perfil do Autor

Franklin Oliveira Jr.

Escritor e professor universitrio


Doutor em histria social pela UFPE

Ex-presidente do Sindicato dos Msicos-Bahia

(Artigonal SC #3260456)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/musica-artigos/o-sequestro-de-waly-salomao-3260456.html
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