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Sacanagens Bancárias: Somos Nós os Suspeitos?

Seria desconhecimento das profundas contradies que marcam o sistema capitalista achar

que a eleio do Presidente Lula e do Governo do PT iria desmontar o sistema bancrio do pas, como alguns sonhadores imaginavam. Ainda mais tendo a figura de Henrique Meirelles, um ex-executivo de um dos maiores bancos privados do mundo, sendo presidente do Banco Central. Com exceo dos lunticos de planto, creio que poucos gostariam ou esperavam uma atitude dessa natureza por parte de Lula e do PT. At porque muitos cidados brasileiros que no tem culpa de nada, se utilizam do sistema bancrio para poupar aquilo que conseguem guardar de seus salrios e acabariam perdendo com uma ruptura desse porte.

Sem entrar profundamente em discusses tericas, vamos a uma breve reflexo para que algumas questes fiquem mais claras, entendendo que essa explicao apenas uma das possveis. Adoto-a aqui por me parecer a mais conveniente para organizar os pensamentos sobre esse tema. Como afirma sabiamente Eric Hobsbawn, talvez o maior historiador vivo, "o ponto essencial do capital realmente grande que pode se acomodar com todo regime que no o exproprie de fato, e qualquer regime tem de se acomodar com ele" (HOBSBAWN, 1994 , p. 132). De acordo com Marx, o Estado, assuma a forma que assumir no sistema capitalista, acaba sendo a representao dos interesses dominantes. S que no podemos ver isso de forma petrificada e unilateral, e sim de modo dialtico, j que como afirma Faria (2004, p. 102), "o propsito do Estado Capitalista Moderno representar os interesses dominantes e simultaneamente assegurar a coeso social".

Assim, o Estado acaba assegurando a reproduo do sistema capitalista atravs de seus aparelhos ideolgicos, educacionais e jurdicos, ao mesmo tempo que condensa em seu bojo as disputas e relaes de poder que tentam subverter a ordem estabelecida. E isso acontece independente da forma institucional que se apresente o Estado, pois no o formato que ser determinante. O Estado e seus aparelhos sero sempre condicionados pela estrutura econmica existente e as relaes de produo que a constituem em sua base. Para Marx, o Estado, esteja o partido que estiver em seu controle, sozinho no pode resolver as contradies do sistema capitalista. Essas so insuperveis e esto na base do prprio processo produtivo capitalista e na desigualdade com que os elementos capital e trabalho se relacionam (MARX, 1988).

Para esse brilhante filsofo e economista, o sistema s ir mudar mudar qualitativamente aps acumular uma srie de transformaes quantitativas (FARIA, 2008). Essas transformaes j esto ocorrendo dia aps dia e se manifestam em uma desigualdade cada vez maior. Como dizia Chico Science em sua conhecida msica A Cidade, o de cima sobe e o de baixo desce. Essa a melhor expresso artstica do que vem acontecendo no mundo. Embora as condies econmicas para essa mudana que buscamos ainda no estejam dadas, elas iro se colocar e provavelmente no auge do desenvolvimento dos pases mais avanados economicamente. S que essa transformao no ir acontecer de maneira mecnica, o que foge totalmente ao pensamento de Marx, a mudana ir depender da prxis humana coletivamente organizada. Passa inclusive pela disputa sobre o poder pblico, mas no se esgota nela.


Ter conscincia de que a forma de governo, a estrutura institucional do Estado ou mesmo o partido que o coordene no so determinantes para a superao das desigualdades geradas pelo capitalismo no argumento para cair na iluso neoliberal ou mesmo pseudo-anarquista. Que fique claro: o Estado no tem que ser desmontado e o voto nulo no resolve nenhum problema! por esse motivo que mesmo sabendo das contradies que assolam qualquer partido de esquerda que seja governo em um sistema econmico capitalista, vale a pena lutar para que o Estado esteja em prol dos menos favorecidos, especialmente em um pas com tanta misria como o nosso.

A partir dessas questes colocadas, percebemos que houveram reas em que o Governo Lula foi muito progressista e avanou muito em utilizar as instituies estatais para fazer valer o direito dos menos favorecidos e implementar um projeto nacional e desenvolvimentista. Dentre esses avanos, podemos citar a valorizao da educao pblica e de qualidade; o papel das empresas estatais na promoo do desenvolvimento scio-cultural e econmico do pas, pois aquelas que no foram vendidas pelo governo FHC a preo de batata para o capital estrangeiro, estavam em processo de sucateamento e; a interlocuo com os movimentos sociais e a sociedade civil organizada, que estava sendo alijada de qualquer consulta e deciso. No entanto, com relao ao sistema bancrio, esse governo foi uma grande decepo e pouco se diferenciou de FHC.

Para se ter uma idia de alguns nmeros, os trs maiores bancos privados em atividade no pas Bradesco, Ita e Unibanco quando publicaram seus balanos em 2007, mostraram-se instituies absurdamente lucrativas: Bradesco teve R$ 8 bilhes de lucro lquido, cerca de 59% superior ao do ano anterior; no Ita, o lucro lquido ficou em torno de quatro centenas de milhes acima disso, tendo quase dobrado no ano; j o Unibanco realizou R$ 3,4 bilhes de lucro, tambm o dobro do resultado de 2006. Conforme afirma a prpria fonte dessas informaes,"nenhum outro setor de atividade econmica capaz de apresentar resultados prximos disso (LINS, 2008)." Espervamos um papel mais ativo de um governo de esquerda, mesmo com suas alianas esprias e sua orientao mudando para o centro.

Mais do que criticar o governo, que com todos seus equvocos ainda , na minha modesta opinio, um dos melhores da histria desse pas, vale a pena colocar algumas questes que me parecem importantes nesse contexto. As aes coletivas que so realmente transformadoras. Como afirma Faria (2004), o poder uma capacidade coletiva e no est no indivduo atuando sozinho. Mas creio que as aes individuais tambm so dignas de pequenas mudanas, que se somadas, causam impactos significativos. Em repdio ao desrespeito por essas instituies privadas ao nosso pas, deveramos colocar nosso dinheiro em bancos estatais ou de capital misto, como Banco do Brasil e Caixa Econmica Federal. No que esses sejam inocentes, at porque h capital privado nesse meio, seja de forma direta ou no, mas seria algo como um mal menor. O dinheiro investido na poupana da Caixa Econmica Federal ajuda a financiar a habitao, enquanto no Banco do Brasil ajuda a financiar a agricultura. Nos bancos privados, financia apenas o bolso dos acionistas.

Sem contar que para o pequeno poupador e nisso pouca diferena h entre os bancos estatais, mistos ou privados os juros de rendimento so irrisrios, os de emprstimos so assustadores. Pedir um emprstimo em um banco o primeiro passo para se mergulhar em dvidas impagveis. E agora na crise mundial, fruto de mais uma crise de acumulao do capital e aprofundada pela irresponsabilidade da especulao no mercado financeiro e imobilirio, os banqueiros j esto demitindo em massa e restringindo o crdito aos pequenos empresrios e trabalhadores. Os mesmos que demitem so os mesmos que vm embolsando bilhes s custas do sangue de todos ns. So os mesmos que deixam todos em grandes filas para no contratarem mais, mesmo em tempos ureos. So os mesmos que colocam portas de metais constrangendo e gerando confuses de toda ordem entre seguranas mal-pagos e clientes aborrecidos. Quando me vejo obrigado a entrar no escabroso ambiente que um banco, vejo aquela porta detectora de metal e me pergunto: somos ns os suspeitos? Talvez todos sejamos. Mas uma certeza eu tenho: os bandidos so eles! E cabe a todos ns, agindo de forma organizada e coletivamente, obviamente sem violncia fsica, exigir sua sada de nosso pas!

Referncias

FARIA, Jos Henrique de. Economia Poltica do Poder: Volume I Fundamentos. Curitiba: Juru, 2004.

FARIA, Jos Henrique de. Epistemologia em Estudos Organizacionais. So Paulo: Thompson. Circulao Restrita Texto de Sala de Aula. Livro em elaborao.

HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve sculo XX. So Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LINS, Maria Antonieta del Tedesco. Lucro dos Bancos. Revista Brasileiros edio 8: maro/abril de 2008. Em [http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/8/textos/182/]. Acessado em 21/01/09.

MARX, Karl. O capital: crtica da economia poltica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. Livro Primeiro.

*Texto escrito em 21/0/09.

Sacanagens Bancrias: Somos Ns os Suspeitos?


Por: Diego Canhada

Perfil do Autor

Diego Canhada Mestre e Bacharel em Administrao pela UFPR. (Artigonal SC #3169500)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/financas-pessoais-artigos/sacanagens-bancarias-somos-nos-os-suspeitos-3169500.html
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