subject: CAUSAS DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA [print this page] Podemos dizer que o fim do governo de DPodemos dizer que o fim do governo de D. Pedro II foi marcado por uma srie de contestaes ao regime imperial. Contestaes tendo por base a campanha abolicionista, a "questo religiosa", a "questo militar", a insatisfao da oligarquia cafeeira, a insatisfao das elites dos setores produtivos das provncias e as tranformaes sociais e econmicas a partir da Revoluo Industrial. Tudo isso demonstrava os efeitos da realidade que estava sendo vivida na poca, ou seja, efeitos advindos dos conflitos e mudanas nas reas econmicas, polticas e sociais que se difundiam a partir da Europa. Mas, o que realmente movia o Imprio rumo Repblica?
A oligarquia cafeeira do Oeste paulista, que integrou o movimento republicano, tornou-se a maior concentradora de poder econmico no Imprio. Ocupou terras frteis, utilizou o trabalho livre e tcnicas mais avanadas no beneficiamento do caf. Esse grupo de fazendeiros no dependia do trabalho escravo. Entretanto, no tinha muita influncia no sistema poltico, embora tivesse poder econmico. No final do sculo XIX, essa elite j no concordava com a poltica centralizadora do Imprio. Ento, a alternativa republicana j comeava a ser vista como nico caminho vivel para chegar ao poder e acabar com a centralizao do Imprio. Viam, ento, para isso, a implantao de uma repblica federalista. Assim, no decorrer da segunda metade do sculo XIX, o movimento republicano obteve o apoio dessa elite cafeeira do Oeste paulista, que o tornou mais influente e poderoso. O Imprio, que j no tinha o apoio dos setores urbanos, j no pode mais contar com o apoio das elites cafeeiras.
A ideia do federalismo, na questo dos ideais republicanos, deveu-se tambm insatisfao das elites de setores produtivos das provncias quanto a sua importncia pouco expressiva diante dos interesses do Imprio no Rio de Janeiro. Insatisfeitos porque encontravam-se afastados das decises tanto centrais quanto de seus prprios interesses provinciais, pois o Imprio vivia em torno do Rio de Janeiro. Mais uma fatia, ento, comeava a se associar aos princpios do republicanismo, por descontentamento.
Perdeu ainda, o Imprio, o apoio da Igreja (Questo Religiosa). A "questo religiosa" advinha dos atritos entre o alto clero e o governo imperial. Ou seja, o Papa ordenava punies aos religiosos maons, entretanto, participavam da maonaria diversos padres, importantes polticos e tambm elites econmicas. Seguindo orientao papal, os bispos comearam a punir os padres maons. D. Pedro II, por outro lado, anulava as punies, e uma situao e relacionamento difcil se estabelecia entre a Igreja e o Imprio. A partir de ento, muitos elementos do clero se uniram aos ideais republicanos, pois estes pregavam a separao entre a Igreja e o Estado.
Outro fator que fez o Imprio perder apoio, foi o descontentamento dos militares (Questo Militar). A "questo militar" comeou com a conscientizao, pelos militares, de sua importncia. Isso comeou depois da Guerra do Paraguai. Antes, os militares eram considerados em segundo plano diante dos civs. A partir de ento, os militares comearam a manifestar insatisfao pelo tratamento que recebiam do Imprio. Com a liderana de Benjamin Constant, que era partidrio dos ideais republicanos e positivistas, um grupo de oficiais comeava a tornar pblico as insatisfaes militares e juntou-se s causas republicanas. Muitos incidentes ocorriam entre o Imprio e os militares, pois a estes era proibido qualquer pronunciamento pblico. Os incidentes acabaram envolvendo chefes militares importantes como o Visconde de Pelotas e o Marechal Deodoro da Fonseca. Tudo isso ia favorecendo a difuso do ideal republicano, agora tambm j no meio militar.
Estas duas Questes, no sendo exatamente fatores desencadeantes da Proclamao da Repblica, foram demonstrativos ou efeitos do descompasso entre o Poder Civil e o Religioso, no caso da Questo Religiosa; e animosidades entre as Foras Armadas e o imperador, pelo tratamento do governo, o que facilitou a difuso das idias republicanas e a influncia do Positivismo, no caso da Questo Militar.
O Imprio tambm apoiava-se na escravido e, portanto, tinha o apoio dos escravistas. Mas a presso do abolicionismo foi mais forte e o Imprio cedeu. Com a Abolio, os tradicionalistas e os escravistas (senhores de engenho do Nordeste e cafeicultores do Vale do Paraba), que eram fazendeiros, sentiram-se trados pelo governo imperial e deixaram tambm de apoi-lo. A crise da escravido iniciou-se com o fim do trfico e foi acelerada pelo crescimento da luta abolicionista, pela imigrao e pela elevao dos custos do trabalho escravo. Praticamente todos os cargos importantes do Imprio estavam nas mos da tradicional e decadente classe de grandes proprietrios escravistas, que queriam preservar a escravido e o sistema poltico centralizador do Imprio. A abolio, para eles, como j me referi acima, foi uma traio.
Transformaes econmicas, polticas, culturais e sociais, j vinham ocorrendo no mundo por conta da Revoluo Francesa e da Revoluo Industrial. Desta ltima somam-se ainda as novas condies econmicas onde a agricultura j no era a nica fonte de produo, pois comeavam a surgir indstrias, organizaes de crdito e ferrovias para o melhor transporte da produo. A crise escravista, a mo-de-obra imigrante e as novas tcnicas de produo econmicas reforaram, portanto, nas novas configuraes das mudanas que estavam prestes a ocorrer.
Grupos sociais novos surgem a partir do crescimento da populao urbana mais pobre. Surgem os operrios, a burguesia e os trabalhadores de indstrias. E isso traz um choque de tradies e culturas, novos mtodos de produo no campo, novas tecnologias, conflitos entre o poder poltico e o poder econmico e ainda novas aspiraes que permeavam s mentalidades.
No turbilho de todos esses conflitos, contradies e jogo de interesses, enfraqueceram-se as oligarquias tradicionais e o prprio Imprio, favorecendo e fortalecendo o movimento republicano e a consequente Proclamao da Repblica.
Ento, podemos aindar perguntar: a Repblica foi uma "revoluo" ou uma "evoluo natural do Imprio"? Sabe-se que os republicanos no eram a favor de uma revoluo sangrenta. E Quintino Bocaiva, Benjamin Constant e outros eram declaradamente adeptos de uma evoluo natural do Imprio Repblica, segundo as suas crenas positivistas, ou seja, uma lei na histria chamada de "inevitabilidade evolutiva natural".
Mas a Proclamao da Repblica concretizou-se aps fracassadas tentativas polticas e um clima de tenso. Os militares foram chamados, e o Marechal Deodoro da Fonseca, reunido com Rui Barbosa, Benjamin Constant, Aristides Lobo, Quintino Bocaiva, Francisco Glicrio, Cel. Solon Ribeiro, dentre outros, aceitou a proposta de depor o Imprio e, em 15 de novembro de 1889, levou a cabo a Proclamao da Repblica. As tropas do exrcito cercavam o Ministrio da Guerra, pelo lado militar, enquanto pelo lado civil, Silva Jardim, Jos do Patrocnio e Lopes Trovo organizavam um ato pblico em frente Cmara Municipal, pedindo o fim da monarquia e o incio do novo regime republicano.
Enfim, podemos dizer que a Repblica foi proclamada por um grupo que era, no fundo, contra a Repblica. Porm, como um ltimo recurso, viam na Proclamao da Repblica, que pode ser chamada de "golpe", a oportunidade dar continuidade a seus interesses polticos e econmicos. Esse grupo, ou seja, a classe dominante do Imprio, economicamente falando, sentindo-se sem poderes polticos para que pudessem administrar em prol de seus prprios interesses, e mesmo com uma aberta contradio entre o poder poltico e o poder econmico, lanou as bases essenciais ao "golpe da Repblica". Mesmo a contra-gosto, entenderam que somente o ideal federalista e a Repblica poderiam solucionar seus interesses.
Assim, a Repblica foi proclamada, em essncia, para favorecer aos grandes proprietrios. Uma repblica que foi proclamada sem a participao do povo (escravos e classes pobres). Este povo, excludo da sociedade, apenas assistia "bestializado", e margem, a "parada militar" e o "palco teatral republicano" (conforme as palavras do historiador Jos Murilo de Carvalho). Por outro lado, tambm cabe incluir, que no deixou de ter uma inspirao na evoluo natural poltica, conforme as tendncias e cenrio poltico, social, cultural e econmico mundial da poca (Positivismo, Iluminismo, dentre outros).
Prof. Hermes Edgar Machado Junior
Referncias e sugestes bibliogrficas:
-"Brasil: sntese da evoluo social", Aluysio Sampaio
-"Da Monarquia Repblica: momentos decisivos", Emilia Viotti da Costa
-"Formao Histrica do Brasil", Nelson Weneck Sodr
-"Brasil em Perspectiva", Carlos Guilherme Mota (org.)
-"Viva a Repblica!", Donatello Grieco
-"Os Bestializados: o RJ e a Repblica que no foi", Jos Murilo de Carvalho
Prof. HERMES EDGAR MACHADO JUNIOR (ISSARRAR BEN KANAAN) Temas relacionados espiritualidade universalista e ecltica, meditao, esperanto, hebraico, psicologia, filosofia, histria, arqueologia, naturismo e informtica (principalmente linux).