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subject: Quando a Memória não deixa o meu Passado Morrer: Registros Filosóficos [print this page]



UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

WASHINGTON LUIZ MARTINS DA SILVA

QUANDO A MEMRIA NO DEIXA O MEU PASSADO MORRER: REGISTROS FILOSFICOS.

Recife

2010

WASHINGTON LUIZ MARTINS DA SILVA

QUANDO A MEMRIA NO DEIXA O MEU PASSADO MORRER: REGISTROS FILOSFICOS.

Memorial apresentado ao Centro de Filosofia e Cincias Humanas da UFPE como exigncia parcial para aproveitamento avaliativo no concurso da categoria de professor titular em filosofia na rea de Filosofia.

Recife

2010

Silva, Washington Luiz Martins da

Quando a memria no deixa o meu passado morrer: registros filosficos. / Washington Luiz Martins da Silva. Recife: O Autor, 2010.

77 p.

Inclui bibliografia e anexos

1. Autobiografia - Memorial. 2. Filosofia Estudo e ensino. 3. Docncia Ensino superior Brasil. I. Ttulo.

929Silva CDU(2.ed.) UFPE

920.71 CDD(22.ed.) BC2010-057

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS

FOLHA DE AVALIAO

Professores Doutores Titulares

Roberto Motta UFPE : 7.00(SETE)

;

Jos Hecker UFG : 7.00(SETE)

Raul Duarte UFMG: 7.00(SETE)

Pe. Marcus Aquino UNISINOS ; 7.00( SETE)

Mario Porta PUCSP : 7.00(SETE)

Sesso de defesa ocorrida na tarde de 29 de junho de 2010

Sala Manuel Correa de Andrade 3 andar - CFCH

comunidade universitria da UFPE: de ontem, de hoje e do futuro.

AGRADECIMENTOS

- minha esposa Yara Martins e meus filhos Daniel e Danielle, pela pacincia e compreenso de meu afastamento quase que total na elaborao desse memorial.

- Aos Doutores Vincenzo Di Matteo e Witold Skwara pelas sugestes na reviso textual.

- Ao corpo funcional do Gabinete do Reitor, das Pr-Reitorias da UFPE, Centro de Filosofia e Cincias Humanas, rgos Suplementares e seus respectivos titulares que de pronto atenderam as minhas solicitaes referentes a documentaes.

- Natureza.

Tomo uma resoluo que jamais houve exemplo e que no ter imitador. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda verdade de sua natureza, e esse homem serei eu.

Somente eu. Conheo o meu corao e conheo os homens. No sou da mesma massa daqueles com quem lidei; ouso crer que no sou feito como os outros. Mesmo que no tenha maior mrito, pelo menos sou diferente. Se a natureza fez bem ou mal quando quebrou a forma em que me moldou, o que podero julgar somente depois de me tiverem lido.

Que a trombeta do juzo final soe quando ela bem entender, eu virei, com esse livro na mo, apresentar-me diante do juzo supremo. Direi resolutamente: eis o que fiz, o que pensei, o que fui. Falei com a mesma franqueza do bem e do mal. No calei nada que fosse ruim, nada acrescentei de bom; e se por acaso, empreguei algum folheado sem interesse, no foi seno para preencher alguma lacuna de vida minha falta de memria.

Jean Jacques Rousseau, As Confisses, incio.

RESUMO

Nesse trabalho, apresento a pluralidade da minha trajetria acadmica marcada por uma densidade de contribuies divididas em cinco fios condutores que procuro, na medida do possvel, entrela-los cronologicamente, seguindo a uma metodologia narrativa por vezes histrica, por vezes analtica e por vezes crtica. O primeiro fio condutor referente minha formao acadmica; o segundo plano, relativo minha experincia profissional, sobretudo de ensino; j num terceiro momento, apresento minhas atividades como pesquisador e escritor; na quarta etapa, reporto-me s atividades de extenso; na quinta, relato a minha experincia administrativa universitria; e, finalmente, fechando uma espcie de crculo hexagonal, apresento as minhas perspectivas para o cargo de professor titular. No apndice, alm dos volumes atinentes s documentaes comprobatrias, tambm incluo um memorial complementar iconogrfico, de forma a reforar visualmente o texto narrado. As citaes de livros estrangeiros que incorporo ao texto so de traduo prpria, quase todas direcionadas compreenso da abrangncia da rea filosfica.

Palavras chave: Autobiografia; Memorial; Filosofia; Docncia; Ensino superior.

ABSTRACT

In this work, I present the plurality of my academic career, marked by a density of contributions which are divided in five streams. In as much as possible, I try to intertwine them chronologically following a narrating methodology which appears sometimes historical, sometimes analytical and sometimes critical. The first stream refers to my academic education; the second one is related to my professional experience, mainly in teaching; in a third moment, I introduce my activities as researcher and writer; in the fourth stage, I turn to the extent activities; in the fifth, I report my experience in the university administration; and, finally, closing a sort of hexagonal circle, I present my perspectives for the consulting professor master. In the appendix, besides the works related to the probative documentation, I also include a complementary iconographic memorial with the purpose of visually reinforcing the narrated text. The quotations of international books that I incorporate in the text are the result of my own translation, almost all of them directed to the understanding of the coverage of the philosophical domain.

Keywords: Philosophy; History; University; Teaching; Memory.

SUMRIO

INTRODUO ................................................................................................ 11

1. A formao filosfica completa e alm de outros saberes................ 14

2. A experincia de ensino no Brasil e na Europa................................... 30

3. A pesquisa que se fez publicaes no Brasil e no exterior..................35

4. A extenso a partir de uma filosofia prtica......................................... 51

5. A gesto acadmica como polissemia da ao humana.................... 55

6. Razes, perspectivas e futuros desafios............................................. 63

Notas............................................................................................................. 70

Referncias Bibliogrficas......................................................................... 70

APNDICE.................................................................................................... 74

A) Memria iconogrfica...................................................................... 74

B) Documentaes comprobatrias................................................... 74

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABEU Associao Brasileira das Editoras Universitria

ABNT- Associao Brasileira de Normas Tcnicas

ANPOF- Associao Nacional de Ps-graduao em Filosofia.

ASCOM - Assessoria de Comunicao Social da UFPE

CAPES - Coordenao e Aperfeioamento do Ensino Superior

CECINE - Centro de Cincias do Nordeste

CFCH - Centro de Filosofia e Cincias humanas

CNPQ - Conselho Nacional de Ensino e Pesquisa

DP Dirio de Pernambuco

EDUFEPE - Editora Universitria da UFPE

GT Grupo de trabalho

ISEP - Instituto Superior de Pesqueira

ISLA- Instituto Superior de Lnguas e Administrao

ISMT- Instituto Superior Miguel Torga

KAL Kosmoi, Arkai, Logoi

MBA- Mannagement Business Administration

MEC- Ministrio da Educao

MST- Movimento dos sem Terra

PROPESQ - Pr-Reitoria de Pesquisa

PUCSP- Pontifcia Universidade Federal de So Paulo

SESU Secretaria de Ensino Superior

UAB - Universidade Autnoma de Barcelona

UB - Universidade de Barcelona

UEPB - Universidade Estadual da Paraba

UFG Universidade Federal de Gois

UFMG- Universidade Federal de Minas Gerais

UFPE - Universidade Federal de Pernambuco

UFPB - Universidade Federal da Paraba

UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte

UFRPE - Universidade Federal de Pernambuco

UG - Universidade de Girona

UNESCO United Nations Educational Scientific and Cultural

UNICAP- Universidade Catlica de Pernambuco

UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas

URL Universidade Romeu Lull

USP- Universidade de So Paulo

TCC Trabalho de Concluso de Curso

INTRODUO

Numa passagem do Livro I, do Emle, Rousseauafirma que "l'homme qui a le plus vcu n'est pas celui qui a compt le plus d'annes, mais celui qui a le plus senti la vie"(ROUSSEAU, 1979, p.16)1. Embora tudo que esse autor escreveu tenha sido produzido fora do ambiente universitrio, a exemplo de outros pensadores de originalidades inquestionveis como Descartes, Spinoza, Leibnitz, Locke, Hume e tantos outros - poca quando a Universidade j estava devidamente instalada desde o sculo XII - a produo filosfica rousseauniana tem sido aceita na academia como de "tout se tient" enveredando para a tica, deontologia, astronomia, geografia, medicina, cincia poltica, economia, histria, pedagogia, psicologia, antropologia, botnica, ecologia, esttica, tecnologia, lingstica, msica e administrao ao menos por enquanto; seguindo a pluralidade que peculiar a toda universidade, abrangendo, como assinala Cassirer (1987, p.29) um vasto contedo de conhecimentos que influenciam at hoje "os diversos campos dos saberes".

De tudo pode parecer o enunciado que acabo de afirmar do pensador genebrino, mas a sua importncia demasiada oportuna para algum, como eu, que pretende demonstrar o quanto foi possvel realizar, com permanente empreendimento, uma vida acadmica atuante, influente e muitas vezes reconhecida, para quem busca conquistar uma vaga nesse Concurso de Professor Titular em Filosofia, no departamento de que j sou professor, cuja rea escolhida abrange toda Filosofia que, por definio, tambm "tout si tient".

Assim, de forma semelhante, a pluralidade da minha trajetria inspirada e marcada por uma densidade de contribuies acadmico-profissionais, que espero serem suficientes para comprovar os aspectos mais significativos de uma vida "sentida" pela minha devoo Filosofia e academia a partir de uma histria consubstanciada na relao entre razo e sentimento.

A exposio dividida em cinco fios condutores que procurarei, na medida do possvel, entrela-los cronologicamente, seguindo a uma metodologia narrativa por vezes histrica, por vezes analtica e por vezes crtica numa linguagem bem objetiva e com sentenas profundamente honestas. No apndice, alm dos oito volumes atinentes s documentaes comprobatrias ( cada um com uma mdia de 500 pginas) tambm incluo um memorial complementar iconogrfico, de forma a reforar visualmente o texto narrado, como uma espcie de "quero ver para crer". Informo ainda que as citaes de livros estrangeiros que incorporo ao texto so de traduo prpria.

Assim, o primeiro fio condutor referente minha formao acadmica; o segundo plano, relativo minha experincia profissional, sobretudo de ensino; j num terceiro momento, apresento minhas atividades como pesquisador e escritor; na quarta etapa, reporto-me s atividades de extenso; na quinta, relato a minha experincia administrativa universitria; e, finalmente, fechando uma espcie de crculo hexagonal, apresento as minhas perspectivas para o novo cargo. Divises que no as escolhi ao meu modo, pois so frutos da tradio e da modernidade universitria, que fizeram um concurso da categoria para Titular ser, de certa forma, bem distinto dos que geralmente as universidades costumam fazer, porque pede a maturidade de uma trajetria para onde leva uma vida acadmica em todas as suas expanses, e o memorial comprovado o instrumento mais eficaz enquanto o homem no consiga inventar a mquina do tempo como nos contos de Jlio Verne.

Segundo Sander apud Barros (1982, p.8-27), o requisito da formao coincide com a prpria criao da universidade em 1200, quando, segundo as Universidades de Salerno, Bologna, Paris, Oxford e Cambridge oferecem o Studium Generale com a funo de cederem aos estudantes "atestados de competncia", produto de uma escolarizao intelectual superior quando aqui se comea com o vestibular. O critrio do ensino foi oriundo de Paris, na mesma poca, quando se criou a universitas magistrorum a partir de uma corporao de mestres, e foi dessa categoria de instituio acadmica que pesou essa contabilidade experiencial de docncia para os julgamentos de concurso de professor. O critrio da pesquisa foi inspirao do sculo XIX quando Wilhelm Humboldt idealizou e fundou a Universidade de Berlim, em 1811, defendendo a instituio universitria como permanente busca do conhecimento. O legado da extenso universitria basicamente um produto da primeira metade do sculo XX para promover a eliminao do abismo existente de teoria versus prtica, tendo como grandes modernizadores Alfred Whitehead, Abraham Flexner e Clark Kerr. Eles inspiraram as reformas das universidades inglesas e norte-americanas, que substituram a universidade de espao de reclusa e isolamento, para funo de mola propulsora do progresso de uma nao na difuso e aplicao do conhecimento.E, finalmente, o critrio da experincia na administrao acadmica advindo da tradio de Bologna, de 1200, quando aparece a universitas scholarium criando a primeira estrutura administrativa em que uma corporao de estudantes indicava o seu prprio reitor, empregava e pagava aos mestres e decidia sobre os currculos.

So essas, portanto, as verdadeiras bases dos pilares que a instituio acadmica consolidou ao longo de mais de 800 anos de trajetria que pautam as exigncias de um concurso que agora realiza, quando, evidentemente, uma banca examinadora de alto nvel, cujos integrantes so Titulares de suas respectivas instituies e, portanto, de maturidade e qualidade comprovada, esperam dos participantes concorrentes, em seus correspondentes currculum, informaes eficientes, qualitativas e quantitativas, a respeito desses parmetros que os legitima como uma verdadeira liderana acadmica. Creio tambm que deve ser um dever de todo candidato, logo aps o encerramento de um concurso dessa natureza, fazer publicar o seu respectivo memorial para que o seu contedo no fique unicamente limitado leitura pela banca examinadora. Eu pelo menos assim farei, em nome da tica e da transparncia, porque " quem no deve no teme".

Muitas vezes, porm, uma narrativa autobiogrfica pode insinuar ao leitor ou ao ouvinte algumas nuances de locues panegricas da parte do autor. Se por acaso, na minha exposio, em alguma parte, assim transparecer, me perdoem, pois no era a inteno, at porque, quem me conhece, sabe que sou uma pessoa humilde, esquivando-me, como modus vivendi, sempre que posso, dessa fragilidade da natureza humana. O que me faz lembrar das afirmaes do filsofo brasileiro Mathias Aires, autor desoitocentista do Discurso sobre a vaidade dos homens, o qual, no prefcio, alude ao El Rey de Portugal, D. Jos I, afirmando parecer-lhe uma contradio necessitar de enaltecer a sua obra pela formal obrigao de justificativa perante censura Pombalina sobre o seu texto que fazia uma veemente crtica sobre a vaidade, pois "eu disse mal das vaidades, vim cair na de ser autor: verdade que a maior parte destas reflexes escrevi sem ter o pensamento naquela vaidade"( AIRES apud JAIME,1997,p 65 ). Aqui, saio em minha defesa porque estou realizando um concurso que me exige apresentar feitos e no posso me arvorar tolher apenas de uma subjetividade ao extremo, a exemplo do poeta maior Fernando Pessoa (1979), no pseudnimo de Alberto Caeiro que, encantadamente lia e relia repetidas vezes na minha adolescncia e juventude, ao afirmar em seus versos que "se,[...]quiser escrever a minha biografia/ no h nada mais simples./Tem s duas datas a da minha nascena e a da minha morte./Entre uma e outra coisa, todos os dias so meus" (PESSOA,1979, p.86). Mas posso piamente seguir a inspirao deixada pelo poeta da Ilha Negra, Pablo Neruda (1979), ao afirmar que a sua vida fora feita de muitas vidas. Porque toda nossa existncia se compe de etapas e aventuras humanas com os outros, impossvel de desvel-la isoladamente, quando a memria no permite o passado morrer.

Apresento portanto o meu memorial acadmico como uma espcie de viagem filosfica. Sou o viandante principal dessa aventura humana e das pessoas e das instncias conhecidas durante a trajetria, fao projet-las como as grandes paragens do conhecimento as quais onde nos levaram a Filosofia. E, claro, quanto mais instncias se percorrem, mais o seu recordar vivificante se amplia.

1 A formao filosfica completa e alm de outros saberes.

A primeira vez que botei os ps em um cho universitrio foi justamente visando o sentido de formao, pois, em 1973, prestei concurso vestibular para o curso de Engenharia Civil na UFPE sendo aprovado, porm no podendo me matricular tendo em vista estar ainda na metade do segundo ano do curso de segundo grau2. Duas razes levaram-me a tal intento: a primeira, a medio de conhecimentos no exame - que foi positiva - ; e a segunda, objetivando provar ao meu pai que seria capaz de realizar, em razo de ser um dos cursos em que ele sempre insistia que seus cinco filhos devessem se diplomar juntamente com Medicina ou Direito. Confesso que j aos dezessete anos, mesmo em uma dcada de flagrante tecnicismo j acentuado no Brasil, tais reas nunca seduziram minha alma, j possuindo desde garoto do bairro de Casa Amarela, simpatia por reas menos concretas, quando nas sombras das rvores do Stio da Trindade, mergulhava no banho potico da literatura brasileira.

Mesmo sabendo que todo pai, em geral, pretende empreender o melhor para os filhos, notei que essa minha atitude foi o reconhecimento de meu esprito crtico em vistas de no aceitar imposies de cima para baixo, o que se assemelhou bastante s reaes de Kafka (1995, p.134) to reluzentes em sua obra Carta a meu pai. Se assim no tivesse agido, era bem possvel que o meu querido pai, em qualquer ocasio de confronto, dissesse que no queria me vestibular Engenharia porque previamente estaria presumindo que jamais seria aprovado. Todos os meus irmos obedeceram a risca s determinaes de meu pai, menos eu. Com aquela reao, conquistei o respeito de todos os familiares para fazer o que anteriormente estava motivado que era realizar vestibular, um ano depois, para Matemtica, j que sempre fui um aluno de destaque nessa rea e tambm na fsica no tempo ginasiano e do segundo grau demonstrando, desde cedo, vocao para o ensino.

Na verdade, acho que esse estado comportamental de indivduos que se apresentam como um pouco diferente s regras, tem muito a ver com a filosofia, que considero em sua essncia crtica, duvidar da absoluta necessidade do texto estabelecido no mundo, desacreditar das apologias do existente e levar as contradies da chamada "sabedoria" at o ponto mais alto. Fazemos isso no somente a partir de um terreno especfico da filosofia, mas de toda filosofia e at onde ela se permite penetrar, porque prprio dela mesma, desde a sua origem, interrogar e fazer interrogar. A fora da Apologia de Scrates, um dos textos fundadores, insinua isso, na medida em que qualquer rea de conhecimento possui a sua extenso filosfica, porque preciso, por um lado, perguntar sobre seus fundamentos e, por outro, provocar e fazer sentir as formas manifestadoras de sua construo.

No vestibular de matemtica, obtivemos a terceira colocao no mbito das cincias exatas e da natureza: a exigente rea II ( volume I, formao complementar). E j no segundo perodo, concorri a uma bolsa para realizao de Curso de Vero na Universidade de So Paulo, sendo aprovado para participao na IV Escola de lgebra, fato que era raro algum, que apenas concluiu o primeiro ano universitrio, j lograsse tal intento, sobretudo porque fui o nico do norte-nordeste contemplado com bolsa de estudos pela Sociedade Brasileira de Matemtica (volume II, congressos).

Ao regressar ao Recife me engajei no grupo de estudos de lgica simblica e modal do Departamento de Matemtica, Informtica e Estatstica, por sinal aqui nesse mesmo andar onde hoje o Departamento de Filosofia; grupo liderado pelos professores Antnio Mario Sette, Sergio Sette e Sonia Sette,o famoso "Grupo 363" porque correspondia "sete elevado ao cubo"3.

No ano seguinte,1977, realizava mais um curso de vero quando fomos selecionados, tambm com bolsa, para realizao de cursos de Introduo Lgica e Lgica Modal na Universidade Estadual de Campinas, com os professores Aida Gonalves e Newton Carneiro da Costa, no mbito de seus estudos de lgica indutiva, probabilidade e teoria das estruturas( idem). Ali tambm assisti as intervenes do doutor Lenidas Hegemberg, notvel professor de Lgica do Instituto Tecnolgico da Aeronutica.

Nesta fase da minha vida, j tinha sido admitido como assistente da Datamec Engenharia de Sistemas e Processamento de Dados (volume I, vnculos). Essa atividade tanto sustentaria os meus estudos como tambm me levaria a compreender a aplicabilidade da lgica matemtica nas questes cotidianas da sociedade, fato que positivamente me influenciou na viso que tenho hoje sobre a filosofia prtica, e que ademais muito contribuiu para o meu desempenho em algumas atividades acadmicas que explicarei mais adiante. Na Datamec, esboava, na assistncia aos clientes, prottipos de fluxogramas para a necessidade de seus servios, exercitando a minha percepo dedutiva e indutiva ao longo de um ano e oito meses, at quando voluntariamente pedi demisso para me dedicar inteiramente graduao; principalmente quando em 1978, iniciei os estudos das disciplinas pedaggicas. A partir das aulas de Introduo educao do saudoso Professor Joo Francisco de Souza, tive o primeiro acesso s obras de Rousseau, passando, desde ento, a ler o seu pensamento filosfico com profunda euforia, principalmente pela conjugao de sua linguagem rica e presa ao binmio teoria versus prtica. Havia encontrado o meu caminho acadmico a partir das objees de Rousseau feitas sociedade do seu tempo. Ali descobri que o meu lado no era to somente o dos Enciclopedistas. Descobri que o combate era prprio da Filosofia e no da Cincia. Num olhar mais para trs, vi que era fcil de considerar que isso foi uma constante no decurso de toda Histria da Filosofia e que sua origem se encontra possivelmente no incio da conscincia quando o homem expulso do paraso e adquire a sua verdadeira condio, a de exilado. deste modo que vejo a Filosofia: com o papel de exercer o seu labor ao longo da histria na perspectiva de negar o vigente.

Relembrando o meu passado quando dessas recordaes, mais uma vez voltei a compreender que a pouca valorao da filosofia nas ltimas dcadas, teve sua origem no caminho equivocado que tem seguido a razo at agora, ou seja, que vem fazendo a Filosofia se suicidar pelo seu estimado carinho pela cincia, como afirma a filsofa madrilena , Nogueroles Jov (2007); carinho frustrado, porque essa afeio, para a autora espanhola no correspondida, muito pelo contrrio, so os cientistas e os polticos quem mais odeiam a Filosofia. Esses, que so mais fceis de se perceber hoje em dia, vm insistindo que a filosofia acadmica mergulhe de cabea no oceano da cincia positiva. Enquanto um mergulho raso tudo bem, como venho fazendo h muito tempo, dando suporte crtico quando os cientistas me pedem, porque somos ns filsofos que temos que fundamentar as cincias; mas desde que no nos deixemos cair em uma profundeza que no lhe d mais empuxo para emergir, porque, como afirma Plato, a partir da experincia de Tales de Mileto, se cair no poo est sujeito a muitos embaraos (Teeteto, 174).

Filosofia e cincia esto irremediavelmente opostas por diferentes pontos de vista ante a realidade. O cientista unicamente admite como verdadeiro o cientfico e tem pretenses de que seu saber seja um saber absoluto como teodicia e apologia. No deixa lugar para a postura crtica que caracterstica do verdadeiro filsofo. E a moral, cmplice do racionalismo, denunciada por Rousseau em seu primeiro Discurso, no admite a fundamentao filosfica, cria o homem moral como aquele que se submete ordem estabelecida no tolerando o mito e nem nada que o ameace. Pelo contrrio, a Filosofia pe em dvida a ordem e no possui pretenso alguma de ser um saber total. A Cincia parte da objetividade e a Filosofia da subjetividade. Portanto, o papel da filosofia conseguir um juzo fora da Razo estabelecida; , como afirmou Savater (1972, p.44) "conservar uma ordem no pensamento, mas sem aceitar o pensamento da ordem".

As minhas leituras filosfico-pedaggicas foram to ricas que me candidatei monitoria da cadeira de Filosofia da Educao , permanecendo por quatro semestres, entre 1977 e 1979, trabalhando com os professores do Departamento Scio-filosficos da Educao e, nesse Departamento de Filosofia, com a professora Titular e Doutora heideggeriana Maria do Carmo Tavares de Miranda, fundadora do primeiro mestrado de Filosofia na UFPE ( volume I, prmios). No decurso dessa experincia, prestei vestibular para Filosofia na Universidade Catlica de Pernambuco, sabedor que apenas uma formao em outra rea no era o suficiente para uma pretensa carreira de professor de Filosofia. Na UNICAP tive uma boa preparao filosfica e sempre agradeo aos bons professores que tive. Ainda me recordo das aulas dos professores Mrio Caridade, Alfredo Antunes, Paulo Meneses, Benno Lermen e Jean Boulange, entre outros. O meu curso foi financiado pelo ento Programa de Crdito Educativo porque no possua mais o emprego de processamento de dados. Poucos no sabiam compreender porque algum deixaria um emprego, para a poca promissor, trocando-o por uma parca bolsa de monitoria de mais ou menos 1/7 do valor! Talvez tivesse indiretamente me empolgado com a parte que li das Confisses de Rousseau quando ao recusar a penso que o Rei lhe oferecera e que deixou seus amigos Diderot e Condillac revoltados, escreveu:

Averdade que de certa maneira eu perdi a penso que me era oferecida: porm, isentava-me tambm do jugo que ela me teria imposto. Adeus verdade, liberdade, coragem. Como, dali por diante falar de independncia e desinteresse? Teria que lisonjear ou calar-me ao receber aquela penso. (ROUSSEAU, 1948, p.345)

Preferiu, assim, o genebrino sobreviver como copista de partituras musicais. Pensei a mesma coisa, complementando o meu oramento a partir de aulas particulares de matemtica, fsica e qumica, pois no havia sentido permanecer naquele emprego para quem recusou voluntariamente, desde o incio, uma carreira de engenheiro.

Na atividade de monitoria, naquela poca, alm de dar certo quantitativo de aulas em lugar do professor, acumulvamos a Iniciao Cientfica de hoje em dia, cuja atividade de investigao consistia para o grupo de monitores de Filosofia, na leitura e no debate, trs vezes por semana, na presena dos professores, de pgina por pgina, da obra Paidia de Weaner Jaeguer. Foram quatro semestres com esse livro debaixo do brao. Esforo que valeu a pena.

Passadas as formaes de graduaes, em 1983/84 realizamos seleo para o mestrado de Filosofia na UFPE, obtendo a 1 colocao ( idem ). No aceitei a bolsa porque naquele mesmo ano fui aprovado no primeiro concurso pblico que fiz na UFPE, mas como Tcnico em Administrao (volume I, vnculos), cujos proventos eram maiores do que o oferecido e que, de uma forma ou de outra no atrapalharia a minha formao, haja vista que passava manh, tarde e um pedao da noite nesse Campus.Tive agora de pensar nas finanas porque quando se solteiro tudo cai bem, mas, recm casado a coisa muda de figura. Deciso empregatcia que julgo haver acertado quando hoje j se vive h 31 anos com a mesma mulher que o destino me fez descobrir no cotidiano das aulas de filosofia na UNICAP.

Em 1986, fui tambm aprovado em mais um concurso pblico, tambm na UFPE, agora de nvel superior em Assuntos Educacionais (idem). Concurso de que muito me orgulho dada a sua importncia pelo Projeto do Governo Tancredo Neves que consistia em preparar uma equipe fora tarefa de educadores para redemocratizar e ressignificar a estrutura universitria brasileira deixada por trs dcadas de uma forma a mais piramidal possvel, e que o presidente Sarney, aps assumir o governo brasileiro pela a sbita morte do primeiro presidente civil ps-ditadura, cumpriu fielmente.

Do mestrado, guardo as recordaes das magnficas aulas do darwinista Aluzio Bezerra Coutinho. Ele, como o iraniano Avicena ( Abdal Ibn Sina 980/1037),era um mdico de muitos saberes e ns estudantes revezvamos entre si para busc-lo em sua casa e traz-lo para dar as suas aulas no Departamento, haja vista a sua dificuldade para enxergar e se locomover. Fazamos com todo prazer porque ramos conscientes de que aquele "show" deveria continuar. A saudade tambm no pequena quando me recordo das aulas do Doutor Roberto Amorim de Almeida sobre Gyrgy Lukcs. Sem dvida, o professor Jarbas Maciel, com a sua formao plural de msico, matemtico e filsofo, tambm muito influenciou no meu estilo de dar aulas e de compreender o significado do que realmente o valor da filosofia prtica para a sociedade. Eram professores atuantes e produtivos, mas no da forma que se nota hoje em dia: escrever porque a Capes manda! Naquele tempo, tudo se fazia por prazer, sem opresso, e quando um texto era produzido somente quando o autor tinha algo de original a apresentar e, quando o texto saa do prelo a sua importncia logo era notada pelos comentadores da crtica especializada. Eram filsofos e no especuladores do saber presos aos grficos de produo. Eram professores que liam sobre tudo e no como percebemos hoje, de alguns intelectuais que se dizem pesquisadores e que passam toda a sua trajetria acadmica como leitor de "uma obra somente", ou que passam a vida se apoiando em apenas um texto de prefcio que escreveram na traduo de um autor clssico. A esses intelectuais que hoje, chegam a serem carimbados por instituies de fomento, a partir de critrios avaliativos abstratos, como membros da cpula do strictu sensu da academia filosfica brasileira, comumente se retraem quando tm que comentar um tema ou ensinar uma disciplina fora do pequeno assunto que conhecem; o que tem levado aos departamentos de Filosofia, profissionais docentes sem a intimidade com toda histria da filosofia. Ao contrrio, como apresentarei mais adiante, no me reduzi a apenas um assunto: escrevi sobre vrias reas; embora saiba que, infelizmente, no seja a tendncia que a academia brasileira vem seguindo para a escolha de professores titulares. Pela peculiaridade da rea, coerente um cientista se prender a uma nica especialidade; mas um filsofo no, porque filosofia totalidade do saber e a sua tarefa de strictu sensu, a meu modo de compreender, no a da fragmentao do conhecimento.

E quanto aos alunos do mestrado do meu tempo, ramos uma turma bem aplicada, interessada e muito amistosa com os docentes, porm com um dilogo franco e crtico com eles, sem qualquer presena de submisso, que tristemente noto na relao pedaggica de hoje, quando aparenta-se um medo no jovem estudante em no contrariar o seu professor ou orientador; chegando a perder tempo em estudar sobre o que no faz parte da sua investigao, temendo ser desconsiderado. Mas, dos meus companheiros de classe, lembro-me de trs que tambm se tornaram professores universitrios: o Doutor Adelson Santos , e os Mestres Heraldo Pereira e Ronaldo Maia.

Paralelamente ao mestrado obtivemos o Certificado de Especializao em Filosofia na UFPE, e o de "Filosofia e Sociedade" na Universidade Catlica de Pernambuco, em convnio com a Fundao Getlio Vargas. Passados mais anos, conclumos o mestrado com a tese "Dewey e Rousseau: princpio de identidade numa filosofia democrtica de educao" (volume I, Formao). Dewey, para muitos, o ltimo grande pedagogo do sculo XX, criticou com pertinncia a forma de vida americana e o isolamento de seu sistema democrtico, em virtude de seus caracteres reduzidos e residuais; herana de um liberalismo econmico direcionado a um individualismo competitivo. O diagnstico que aparece no exame deweyano da democracia, particularmente da democracia dos EUA, indica que esta se manifesta comum moral segmentada e reticente nascida de dualismos entrincheirados no hbito da vida cotidiana. Como Durkheim, Dewey segue uma mesma inteno: insistir nos horizontes de realizao tica e procedimental da democracia. Naquela poca, depois de Loureno Filho e Ansio Teixeira, poucos no Brasil se interessavam em estud-lo, preferindo a Academia insistir em estudos sobre o marxismo, mesmo em decadncia. Depois da Queda do Muro de Berlim, o autor de Como Pensamos e Experincia e Educao voltou a ser revisitado e quem se tornou especialista nesse pensador muito se destacou nas ltimas dcadas no mbito da filosofia e da educao como foi o caso do Doutor e ex-Reitor da UFPE, George Browne Rego.

Devido, porm s obrigaes das minhas funes docentes e administrativas, das quais falarei mais adiante, somente em 1998/99, que me prontifiquei a realizar doutorado. Inclusive rejeitando o convite para continuar mais quatro anos na Administrao Central da UFPE, em razo da reconduo por eleio direta do ento reitor Mozart Neves Ramos. No havia naquele momento ningum que me convencesse. Nem mesmo os meus filhos, poca, em comeo da adolescncia e que no queriam se afastar dos seus colegas. Nem familiares e nem amigos. Mas eu sentia que aquele era o melhor momento e esqueci de qualquer vaidade ou benefcio de poder para humildemente voltar aos bancos escolares. O resultado que fui aceito em cinco Programas de Doutorado ( volume I, prmios), a saber: o de Filosofia na Universidade do Porto; os de tica e Poltica nas Universidades de Barcelona e Autnoma de Barcelona; o de Histria da Filosofia, Esttica e Filosofia da Cultura tambm na Universidade de Barcelona; e, finalmente, o de Sociologia e Economia Poltica dessa mesma universidade; optando pelo de tica e Poltica na Universidade de Barcelona considerando que, naquele momento, aquela Faculdade de Filosofia, possua dentre um corpo docente de aproximadamente cem professores de Filosofia, pelo menos cinco especialistas em Rousseau como pretensos orientadores. Deciso que muitos colegas da minha turma de doutorado censuraram, tachando-me de um "perfeito brasileiro masoquista" por procurar um lugar que tivesse tantos estudiosos em Rousseau, o que significava, seguindo a expresso popular, "procurar mais sarna para me coar!" Mas, felizmente, igual ao Bacharelado em Filosofia, o doutorado foi concludo tambm em trs anos e meio obtendo a Summa cum laude, atravs da tese doutoral El indivduo segn Jean Jacques Rousseau: Los tres ordenes individuales de tensin entre el ser y el deber-ser, catalogada pelaFaculdade de Filosofia da Universidade de Barcelona( volume I, formao), orientada pelo catedrticoNorbert Bilbeny Garcia, autor de uns 30 livros e tantos artigos, e um dos mais respeitveis correspondentes de Michel Walzer.

Na minha tese - que foi dedicada ao meu pai -deduzi a presena do homo mutatio naturalis do naturalismo rousseauniano. O prmio daSumma Cum Laude me permitiu que fosse por trs anos consecutivos, indicado para a premiao nos VI, VII e VIIIClaustes de Doutores daquela Universidade ( volume I, prmios), de 2003 2005, quando se escolhe a melhor tese doutoral entre as cem melhores, no chegando a disputar a premiao final, tendo em vista que para tal, o referido Conselho sentenciador exige a presena fsica do concorrente, e em nenhum daqueles trs anos consegui poupar recursos suficientes para as passagens e estadias porque pesavam mais, no oramento, as obrigaes familiares de esposo e pai; o que no nenhuma novidade para quem professor no Brasil. Deixei para l. Esse meu bom aproveitamento na minha formao no exterior pode ser explicado em funo de que o meu retiro na Europa como bolsista da Capes, me fazia estudar uma mdia de dezesseis horas por dia e s vezes at mais, quase rotineiramente, de domingo a domingo!

Dois anos depois de viver em Barcelona, a minha famlia teve que regressar ao Recife. O meu filho, por ocasio do vestibular que se aproximava, a minha esposa para acompanh-lo nos sentidos emocionais e cotidianos. Minha filha, que no conseguia viver sem os dois; embora mesmo sofrendo, se predisps a continuar comigo. Partiu de mim dizer no, pois sabia que, para uma adolescente, a distncia da me e do irmo seria muito difcil. Enfim, aps um por um adentrarem no espao e recinto limite do aeroporto, reservado aos voadores continentais, me conscientizei de que a partir daquele momento estava s, "somente eu" seguindo as palavras de Rousseau contidas na epgrafe com que abri esse memorial. A partir daquele momento tambm me conscientizei que no poderia fraquejar quanto ao meu propsito de me doutorar, nem tampouco sequer dar-me ao luxo de ficar doente, pois no teria, a princpio, ningum para cuidar de mim e at me socorrer. Descobri que naquela massa populacional barcelonesa, estava absurdamente isolado. Passei a morar na Penso Norma, situada na "Avengut Gran de Grcia , perto da estao de Metr Fontana. Era razoavelmente em conta para o custo de vida europeu pois ficava no terceiro e quarto pisos de um prdio antigo e, portanto, no possua elevador. Acordei com o proprietrio, Sr. Eugnio, uma mensalidade de quinhentos euros. Como recebia uma bolsa de 1100 dlares, sobrava-me tambm em torno de 500 euros, que eram todos os meus recursos; j que o meu salrio que mantive na UFPE ficava para as despesas da famlia no Brasil. O que me valia, era que a Capes pagava a bolsa trimestralmente e, a, ficava melhor para me programar.

Em geral, as minhas refeies eram feitas no prprio quarto porque dispunha de uma pia onde podia lavar meu prato, copo e talheres. O quarto 205, era um espao de aproximadamente 12 metros quadrados: uma cama solteira, uma mesa de cabeceira que fazia de mesa, e um guarda roupa, ao qual dei multifunes como servir para o que era prprio de ser feito e ser tambm armrio de cozinha e geladeira. Comprava comida enlatada que a comi ao longo de dois anos sempre fria, ficando com inveja dos bia fria dos canaviais nordestinos, ao menos nesse instante, quando lembrava-me que as suas marmitas, naturalmente, tinham a ajuda do calor do sol para o devido aquecimento. E eu, nem isso! Mas, inversamente comida, a ingesto dos liquefeitos j se fazia de um melhor gosto porque a natureza do frio j trazia o suco ou o refrigerante do supermercado bem geladinho.Tambm no quarto, havia uma janela cuja paisagem era apenas a parede do prdio vizinho, que imaginariamente desenhei na minha mente paisagens de saudades em momentos de confisses. Enfim, consegui poupar um dinheiro suficiente para comprar um aparelho de TV de 5 polegadas em preto e branco. J no estaria to sozinho, ouviria vozes e imagens, mesmo que fossem banais, mas deduzi que, naquele instante, dos males o menor.

Assim, eu vivi naquela penso dois duros, solitrios e revolucionrios anos da minha vida e, por muitos dias, era comum eu apenas abrir a boca para falar, unicamente com quem estivesse na portaria: "buenos dias, buenas tardes ou buenas noches". A minha conversa com o porteiro noturno, por exemplo, somente mudou duas vezes: uma mais ou menos s 22: 30 h do dia 22 de janeiro de 2003 quando recebi o telefonema da minha esposa anunciando que o meu pai havia falecido h mais ou menos trs horas antes. Aps a drstica notcia, sa do quarto e comuniquei o triste evento ao porteiro como a querer o consolo de algum familiar. A outra, foi no advento da Campanha do "No Guerra!", instituda como um movimento transnacional em favor da paz e contra George W. Bush na sua saga pela invaso no Afeganisto. A populao europia, na sua maioria, parava todos os dias s dez horas da noite para "panelar", buzinar ou fazer algum barulho por dez minutos como sinal de protesto pela referida interveno. Na penso, por essa hora, s havia eu e o porteiro, e amos para a pequena varanda do prdio "pensioneiro" e, com algum metal, batamos na sua encosta de ferro. Foi uma das grandes experincias de civilizao quando um chamamento cvico supera qualquer justificativa individual.

Vrias vantagens somam-se para quem pretende se doutorar na Europa. Uma delas, sem dvida, a oportunidade que se tem, com o auxlio do frio, para o sossego de uma clausura, longe tambm de certas tarefas e obrigaes que comumente esto a sua volta na terra de origem, como, por exemplo, atender constantemente ao telefone, visitar parentes, atender a convites sociais de amigos ou ouvir o "carro de som" que aparece na sua rua em horas indesejadas. Outra, a que considero essencial, a atualidade das bibliotecas. As universidades l de fora comeam pelo livro e revistas, e o resto vem por conseqncia. Em geral, na instituio acadmica brasileira, a compra da literatura cientfica somente pensada quando, do exerccio findo do ano, No havendo mais tempo para se gastar com algum utenslio, mesmo desnecessrio, ento se joga o resduo para as bibliotecas comprarem o que estiver mais em conta. Existe, porm, ainda outra vantagem muito prpria para quem quer se especializar em um pensador europeu: a de se estudar em um continente onde cada canto um laboratrio filosfico e histrico vivo e ao ar livre sua disposio.

Lembro-me que, ao estar concluindo a "tesina"4 para a obteno do meu Diploma de Estudos Avanados, de Ttulo "Razn Histrica, Razn Poltica e Razn Prudencial", o meu orientador Doutor Josep Maria Alcina Rocca, uma vez que um dos captulos se referia s Civilizaes Antigas, sobretudo em cima da volumosa obra Estdios de la Histria, de Arnold Toymbee, o professor me sugeriu uma viagem de estudos ao Egito, e principalmente Alexandria. Na poca j tambm investigava a Filosofia da Tecnologia. Ali pude comprovar a olho nu porque aquela cidade foi o maior centro do conhecimento por um longo perodo. Estudei Possidnio: o maior sbio da Grcia depois de Aristteles. Lia Spengler, Toymbee, Raimond Aron, Mircea Eliade, comprovando seus textos na observao participante.

Recordo-me ainda, quando em uma parte da minha tese de Doutorado, o meu orientador me sugeriu outra viagem de estudos Universidade de Genebra para, se possvel apresentar o meu texto ao Doutor Jean Starobinski. Fiquei atnito porque achava isso impossvel, considerando que era um nome que constantemente se fazia presente nas leituras especficas que fiz no Brasil sobre Rousseau. Um nome obrigatrio em qualquer referncia bibliogrfica em dissertaes e teses sobre o autor do Contrato. Imediatamente indaguei que isso no tinha muito sentido, pois no passava na minha cabea que algum da mdia intelectual rousseauniana, se prestaria a receber um doutorando. Ele apenas disse que na Universidade de Genebra eu saberia como encontr-lo. Como os bons costumes me ensinaram a somente ir casa dos outros apenas quando chamado, fui logo direo do Museu Jean Jacques Rousseau na Universidade de Genebra, que se comunicou com o Doutor Starobinski e foi marcada por ele uma sesso na sua prpria residncia, desde que o meu texto chegasse dez dias antes s suas mos; o que a instituio se prontificou a fazer, no mesmo dia. Enquanto aguardava o esgotamento dos quinze dias, conheci toda a Genve de Rousseau e outras de suas paragens, onde morou, onde caminhava. Passados os quinze dias procurei o Doutor Starobinski em sua casa conforme me pediu - na hora combinada e passamos uma tarde inteira conversando sobre a minha tese e sobre as Lettres crites de la montagne ( 1764), me ofertando dedicatoriamente uma de suas ltimas publicaes.

Por essa experincia vivida, aprendi que, mesmo em um continente com reis e rainhas, existe uma cultura na academia europia onde a eficincia se sobrepe imponncia, sem "castelos" de intelectuais, mas de estudiosos que, mesmo famosos, interagem com os alunos.

Naquele tempo da Universidade de Barcelona, fundada no comeo de 1500, era comum, de repente cruzar-se nos corredores com Umberto Eco ou Jacques Derrida, porque integravam Colquios Cientficos quase que rotineiros naquela instituio secular.

Foi esse laboratrio continental que me deu a condio tambm de conhecer, no o caminho turstico de Santiago de Compostela, mas o trajeto do autor da Nouvelle Elose no apenas pelas suas obras e pelos seus comentadores, mas pelo Rousseau de Anency, Grenoble, Neuchtel, Lion, Paris vendo a sua histria pelos meus prprios olhos.

Durante o perodo que estudei na Universidade de Barcelona, realizei Estudos Especializados em tica e Poltica e obtive, como j dito, o Diploma de Estudos Avanados pela mesma instituio. Realizei tambm na Escola de Altos Estudos da Les Heures Catalanas, um Master em Tecnologia da Cincia Filosficacom o objetivo maior de trazer para o Brasil e, principalmente para a UFPE, conhecimentos sobre a pragmtica filosfica, pois ainda, naquela poca, essa abordagem era incipiente na academia filosfica brasileira. Adquiri mais um capital intelectual para minha vida acadmico-profissional e para uma ampliao do meu campo de investigao e orientao de dissertaes que tratarei de comentar no item adequado. Na Universidade Autnoma de Barcelona, cumpri 300 horas de Estudos Especializados em: tica e Poltica, Crise da Soberania e Razo de Estado, Filosofia da Arte Contempornea, Historiografia das Cincias, e Filosofia da Tecnologia. Cursos com aproveitamento avaliativo que me prontifiquei a faz-los para a obteno de mais um grau, requerido em 2003/2004, o que tambm poderia me dar hoje a condio de concluir mais um doutorado em Filosofia, naquela universidade, por j possuir a qualificao de suficincia Investigadora, com prvia orientao dos Doutores Angel Puyol e Begonya Saez, professores do Departamento de Filosofia da UAB. (Volume I, formao). No prossigo devido a minha falta de tempo devido as minhas atividades na UFPE, mas sobretudo por conta das burocracias que tenho de me envolver para o afastamento com esse fim.

Para justificar a minha rejeio em enfrentar mais uma vez a burocracia, basta ser lembrado que honrei o dinheiro que o contribuinte brasileiro investiu nos meus estudos no estrangeiro, mas a minha dedicao em ter logrado um doutorado em menos de quatro anos foi sinnimo de condenao pela parte da Capes. Lembro-me que logo aps ter sido encerrada a sesso de defesa, o meu primeiro telefonema para o Brasil, no foi para a minha famlia e sim para a Secretaria da Capes, que de imediato informei funcionria responsvel pelos bolsistas no exterior que havia defendido e que todos da banca me deram a nota mxima! A minha decepo foi imediata ao receber no os parabns, mas a advertncia de que teria de devolver os seis meses de bolsa que j estaria a caminho, porque teria terminado os estudos antes do prazo estabelecido que era de quatro anos e com direito a renovao por mais um ano no caso de no cumprir o prazo regular! Se isso foi zelo pelo errio pblico muito bem: concordo. Mas haveria outra ocasio mais propensa que no estragasse a minha alegria daquele momento. Assim, fui rapidamente obrigado a redigir uma correspondncia informando que aqueles seis meses de bolsa teriam sido gastos com as passagens de retorno da minha famlia e dos pagamentos de requisio do meus diplomas, certificados etc, e que, por direito, a Capes se obrigava a ressarcir. Comprovei tudo e finalmente deram o assunto como concludo. Mas a minha alegria transformou-se em desnimo porque fui questionado por excesso de zelo, estudo e dedicao. Desde aquele instante, conclu que ser bem sucedido nos estudos no exterior no vale de nada para o Governo Brasileiro e teria sido melhor se levasse o doutorado menos a srio porque poderia passar mais tempo por l. Lembrei-me tambm dos chamados "heris" brasileiros atletas de Copas do Mundo que vencendo ou perdendo so bem recepcionados pelo Governo, a ponto do jogador ter o direito, sob o olhar do Chefe Maior do Estado, de

Quando a Memria no deixa o meu Passado Morrer: Registros Filosficos

Por: WASHINGTON MARTINS

Perfil do Autor

Possui formao completa em Filosofia e para mais alm de outras reas. Doutor "Suma Cum Laude" em Filosofia pela Universidade de Barcelona possuindo, pela mesma universidade, os diplomas de Estudos Superiores Especializados, Estudos Avanados e Suficincia Investigadora. Pela Universidade Autnoma de Barcelona, tambm possui o Diploma de Estudos Especializados com nfase em tica e Poltica, Filosofia da Arte Contempornea, Soberania e Razo de Estado, Historiografia das Cincias, e Filosofia da Tecnologia, perfazendo um total de 300 horas. diplomado pela Les Heures da Universidade de Barcelona em Pragmtica e Tecnologia da Cincia Filosfica. Tem 26 anos de magistrio superior, sendo atualmente professor Adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco;instituio onde realizou estudos de Matemtica, concluiu Especializao e Mestrado em Filosofia, e assumiu diversos cargos diretivos de natureza acadmica, na gesto de todos os Reitores da UFPE entre 1980 2007; alguns com reconhecimento nacional, sobretudo como Diretor de rgo Suplementar e Pr-Reitor. Possui ainda certificao de Gerncia Pblica com Qualidade pelo Servio Pblico Federal atravs da Escola Nacional de Administrao Pblica em Braslia. Na Universidade Catlica de Pernambuco, Bacharelou-se, Especializou-se e foi Professor de Filosofia. Como pesquisador, integra cinco grupos de investigao na UFPE e em outras instituies, alm de ser professor colaborador convidado de dois programas de Mestrado na Unio Europia, mantendo um atualizado intercmbio com pesquisadores renomados de Filosofia, terica e prtica, em Portugal, Espanha e Suia.Orientou/co-orientou em torno de quarenta dissertaes de mestrado no Brasil e no exterior em filosofia terica e prtica, sendo autor de dezenas de publicaes,entre livros bilinges, captulos de livros, artigos de revistas acadmicas, magazines e jornais, prefcios e psfcios. Foi um dos fundadores e editor da Revista Perspectiva Filosfica em circulao nacional desde 1992.Tambm organizou de quarenta e sete obras de rea filosfica e/ou afins, alm de editor de 195 ttulos;muitos de reconhecimento nacional e internacional. Suas reas de atuao no ensino, na pesquisa interdisciplinar e em conferncias distribuem-se na tica e Filosofia Poltica Medieval, Moderna e Contempornea, Cultura, Educao e Sociedade, e tecnocincias.O seu Curriculum Vitae e o seu Memorial Acadmico (dados at 13.05.2010) foram avaliados respectivamente com nota 8.00(oito) e 7.00(sete) por banca examinadora de alto nvel de Concuso para Professor Titular na UFPE, integrada pelos Professores Ttulares Roberto Cortez de Braga Mota(UFPE), Jos Nicolau Hecke(UFG), Marcelo Fernandes de Aquino(UNISINOS),Rodrigo Antonio de Paiva Duarte(UFMG) e Mrio Ariel Gonzales Porta(PUCSP) em sesses pblicas entre 29.06.2010 e 31.07.2010. (Artigonal SC #3388838)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/quando-a-memoria-nao-deixa-o-meu-passado-morrer-registros-filosoficos-3388838.html




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