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subject: Cianobactérias: um panorama geral [print this page]


O que so cianobactrias?
O que so cianobactrias?

Segundo Azevedo (1998), as cianobactrias ou cianofceas (algas azuis) so microorganismos aerbicos fotoautotrficos. Seus processos vitais requerem somente gua, dixido de carbono, substncias inorgnicas e luz. A fotossntese seu principal modo de obteno de energia para o metabolismo. Entretanto, sua organizao celular demonstra que esses microorganismos so procariontes e, portanto, muito semelhantes bioquimicamente e estruturalmente s bactrias. A origem das cianobactrias foi estimada em cerca de 3,5 bilhes de anos pela descoberta de fsseis, em rochas sedimentares encontradas no noroeste da Austrlia, do que foram, certamente, esses microorganismos. As cianobactrias esto, portanto, entre os organismos pioneiros na Terra, sendo provavelmente os primeiros produtores primrios de matria orgnica a liberarem oxignio elementar na atmosfera primitiva.

Existem cianobactrias unicelulares, coloniais e filamentosas. Algumas espcies produzem clulas diferenciadas, tais como: heterocistos, especializados na fixao de nitrognio, e acinetos, especializados na acumulao de substncias de reserva (por exemplo, o amido cianobacteriano). So organismos amplamente difundidos, existem em ambiente de condies extremas como fontes termais, regies geladas ou at mesmo em regies desrticas, onde aparecem em relaes simbiticas com fungos. Normalmente, so organismos encontrados nos ambientes aquticos (fitoplncton) e que, geralmente, no causam problemas, devido dinmica dos ecossistemas que regula a permanncia dos organismos, por meio de fatores como a reproduo e a predao. Entretanto, sob condies ideais, tais organismos podem apresentar um crescimento massivo exagerado conhecido como florao ou "bloom".

Azevedo afirma que a capacidade de crescimento nos mais diferentes meios uma das caractersticas marcantes das cianobactrias. Vrias espcies vivem em solos e rochas onde desempenham um importante papel nos processos funcionais do ecossistema e na ciclagem de nutrientes. Entretanto, ambientes de gua doce so os mais importantes para o crescimento de cianobactrias, visto que a maioria das espcies apresenta um melhor crescimento em guas neutro alcalinas (pH 6-9), temperatura entre 15 a 30C e alta concentrao de nutrientes, principalmente nitrognio e fsforo.

As cianobactrias foram os principais produtores primrios da biosfera durante mais ou menos 1.500 milhes de anos, e continuam sendo nos oceanos. O mais importante que atravs da fotossntese elas encheram a atmosfera de O2, e ainda continuam sendo as principais provedoras de N para as cadeias trficas dos mares. As cianobactrias so consideradas, ainda, uma rica fonte de metablitos secundrios, biologicamente ativos, isto , de compostos no utilizados por esses organismos em seu metabolismo primrio, muitos dos quais com possvel potencial farmacolgico (Carmichael, 1992).

Dados sobre contedos proticos e de carboidratos de algumas cianobactrias sugerem que elas podem representar fonte de alimento de considervel valor nutritivo para o zooplncton. Segundo Faintuch (1989 in Calijuri, 2006), a utilizao de cianobactrias como fonte de vitaminas e protenas muito antiga. Algumas espcies (Spirulina maxima) so altamente aproveitadas como complemento na alimentao humana e animal, por apresentar alto teor de aminocidos essenciais.

Entretanto, pouco se tem ouvido falar sobre seus benefcios, uma vez que as cianobactrias so potencialmente txicas. Algumas cianobactrias, que formam floraes, produzem toxinas chamadas cianotoxinas, entre as quais anatoxina-a, anatoxina-as, aplisiatoxina, cilindrospermopsina, cido domico, microcistina LR, nodularina R e saxitoxina.

Segundo Calijuri (2006), as causas para essa produo ainda no esto muito bem esclarecidas, mas alguns pesquisadores acreditam que as cianotoxinas desempenham funes protetoras contra espcies zooplanctnicas, seus predadores primrios. Outros pesquisadores sugerem que a produo de toxinas est relacionada s condies de crescimento ou competio por recursos.

Floraes de cianobactrias so o resultado da superdiviso das clulas a quantidades acima de 1x 103 clulas por mL -1 causando mudana na colorao da gua e muitas vezes tambm em seu gosto e odor. Os motivos principais para o aumento da incidncia de floraes de cianobactrias em mananciais so:

"1) O aumento da carga de nutrientes nitrogenados e fosfatados nas guas. As cianobactrias tm no N-Nitrato , N-amonium e P-ortofosfatos - os trs elementos limitantes ao seu crescimento. Coincidentemente, estas so as formas principais destes elementos utilizados na agricultura em solos adjacentes aos mananciais. Com o aumento das prticas agrcolas prximas aos mananciais estas contribuies tornam-se decisivas permanncia de floraes naqueles corpos d'gua inseridos, adjacentes ou prximos a reas de intensa agricultura.

2) O aumento da carga de matria orgnica lanada direta ou indiretamente nos mananciais, produz um aumento da quantidade de microorganismos decompositores e outros nos sedimentos que acabam por consumir o oxignio disponvel nas guas. Em meio anaerbico as formas inorgnicas de N e P predominam e facilitam a assimilao pelas cianobactrias, provocando as suas floraes.

3) A maioria dos mananciais so originados a partir da obstruo de rios, arroios e riachos por barragens. A passagem do meio hdrico de ltico para lntico causa mudanas drsticas na induo de floraes de cianobactrias. Um dos efeitos mais ntidos a tendncia de estratificao trmica das guas que facilita a deposio ou a migrao dos cistos de cianobactrias. Alm disso, garante que toda a carga (biomassa) de clulas de uma florao permanecer no sedimento do fundo do manancial mesmo nos perodos onde as condies no so propcias ao crescimento na superfcie.

4) Alm das barragens que surgem da obstruo de rios para abastecimento e irrigao, existem aquelas tambm construdas para hidroeltricas. Particularmente os estados que possuem serras e montanhas tem-se utilizado em muito a obstruo de rios para a converso de energia cintica das guas em eltrica. Muitas destas barragens so compartilhadas atravs de convnios entre as geradoras eltricas e as empresas de abastecimento de guas.

5) O uso indiscriminado da gua potvel (tratada) para outras atividades alm dos poucos litros necessrios ao homem ingerir diariamente outra razo. Este aumento no uso da gua tratada para outras funes no to nobres, como limpeza, diluio dos esgotos, gerao de vapor, irrigao de jardins e outras, tem levado as empresas de abastecimento ao irreversvel recurso do armazenamento de grandes volumes de gua na forma de reservatrios de barragens. Da, provocando todos aqueles fatores que induzem ao surgimento das floraes de cianobactrias descritos acima.

6) A maioria das floraes de cianobactrias que surgem nos mananciais so compostas de poucos gneros e geralmente de produtores de toxinas. O fato pelo qual as cianobactrias parecem predominar sobre os outros microorganismos, produtores (algas) e consumidores (crustceos, peixes, moluscos) que equilibram o meio aqutico em condies normais, est muito ligado as caractersticas fisiolgicas pelas quais as cianobactrias assimilam os nutrientes (N e P) desde o meio aqutico. Aparentemente, as cianobactrias "nocivas" perderiam na competio pela assimilao destes nutrientes para algas e outros microorganismos mais eficientes, que em condies normais crescem mais e melhor. No entanto, ao produzir uma descarga destes nutrientes nos reservatrios (direta ou indiretamente), o homem est "facilitando a vida" das cianobactrias nocivas, que por si produzem toxinas para evitarem serem predadas pelos microcrustceos, larvas de peixes, moluscos, etc. Estes consumidores primrios, vo preferir consumir as algas mais eficientes (no-txicas) que crescem, e aparecem mais, at dizim-las por um todo. Restaro no meio s as cianobactrias txicas que ao serem consumidas pelos microcrustceos, larvas de peixes, moluscos acabaro por mat-los, passando assim a dominar o meio aqutico. Estas condies so maximizadas quando algumas cianobactrias exgenas so introduzidas nos ecossistemas. Este meio aqutico, com cianobactrias solitrias em grande abundncia ser finalmente a gua a qual o homem dever tratar para consumir diariamente" (Yunes, 2002).

Malefcios das cianobactrias para o homem e o ambiente

Os malefcios das cianobactrias advm da crescente eutrofizao dos ambientes aquticos. A eutrofizao um fenmeno causado pelo excesso de nutrientes (compostos qumicos ricos em fsforo ou nitrognio), que leva a um enriquecimento artificial dos ecossistemas. Quando isso ocorre num corpo de gua relativamente fechado, h uma proliferao excessiva de algas que, ao entrarem em decomposio, levam ao aumento do nmero de microorganismos e conseqente deteriorao da qualidade da gua, quer seja em rios, lagos, baas, esturios, etc.

De acordo com Tundisi & Matsumura-Tundisi (1992), o crescimento da agroindstria em algumas regies do Brasil, tem sido bastante alto nos ltimos 20 anos. A grande biomassa de cultivos monoespecficos e a necessidade de intensificar o crescimento vegetal, pelo uso extenso de fertilizantes, tm causado uma rpida eutrofizao de rios e reservatrios que tem resultado num crescimento elevado de macrfitas aquticas e altas concentraes de fsforo no sedimento. A taxa de urbanizao cresceu tambm rapidamente, com o conseqente aumento de descarga de esgotos sem nenhum tratamento prvio. Esses dois processos em larga escala so hoje as principais causas da eutrofizao de rios, lagos e reservatrios, em muitas regies brasileiras.

Essa eutrofizao artificial produz mudanas nas qualidades da gua, que incluem: a reduo de oxignio dissolvido, a perda das qualidades cnicas, o aumento do custo de tratamento, a morte extensiva de peixes e o aumento da incidncia de floraes de microalgas e cianobactrias. O fato que chama a ateno que as floraes de cianobactrias tm geralmente conseqncias visveis, porm danosas, para os organismos e o meio ambiente. Elas alteram o equilbrio dos ecossistemas aquticos, criam um biofilme superficial de cor verde, alterando a transparncia da gua e conduzindo a desoxigenao de lagos e rios. Alm disso, liberam substncias que produzem gosto e odor desagradveis, afetam a potabilidade dos reservatrios de uso humano e, at mesmo em reas recreacionais e de banho, a qualidade da gua fica comprometida. Como resultado da exposio s cianotoxinas, diversos mamferos, aves e peixes tm sido envenenados mundialmente por ocasio de floraes de Anabaena, Aphanizomenon, Microcystis, Nodularia e Oscillatoria (Ressom et al. 1999), que so tambm consideradas prejudiciais sade humana (Elder et al. 1993).

A produo e liberao de toxinas de alto potencial txico a caracterstica mais marcante das floraes. O grande problema, que gera preocupao s autoridades e gerentes das estaes de tratamento de gua, o fato de que algumas das toxinas produzidas por cianobactrias no so facilmente removidas por processos convencionais de tratamento de gua.

As cianotoxinas

De acordo com Sant'Anna e Azevedo (2000) j foi registrada a ocorrncia de pelo menos 20 espcies de cianobactrias potencialmente txicas, includas em 14 gneros, em diferentes ambientes aquticos brasileiros. De acordo com esses autores, a espcie Microcystis aeruginosa apresenta a distribuio mais ampla no Brasil e Anabaena o gnero com o maior nmero de espcies potencialmente txicas (A. circinalis, A. flos-aquae, A. planctonica, A. solitaria e A. spiroides).

Segundo Calijuri (op. cit.), as toxinas podem ser agrupadas em duas categorias, segundo sua origem e forma de disperso no ambiente as endotoxinas e as exotoxinas. As primeiras so constituintes da parede celular de grande variedade de cianobactrias e so liberadas para a gua quando as clulas morrem e entram em senescncia. Elas so compostas por polissacardeos e lipdeo A. O lipdeo A tem propriedades txicas; as toxinas so fracas, mas podem ser fatais em doses elevadas. As exotoxinas so polipeptdeos, altamente especficas, com ao txica poderosa, secretadas em baixa concentrao. So as toxinas conhecidas mais poderosas.

possvel tambm uma classificao mais especfica das cianotoxinas, em funo de sua ao farmacolgica. Elas podem ser agrupadas em trs grupos: as neurotoxinas, as hepatotoxinas e as dermatotoxinas. Outras atuam menos rapidamente e so identificadas como peptdeos ou alcalides hepatotxicos.

As hepatotoxinas incluem peptdeos cclicos que compreendem as microcistinas e nodularinas, e um alcalide, a cilindrospermopsina. (Kuiper-Goodman et al., 1999 in Carvalho, 2006). As neurotoxinas so alcalides do tipo carbamato, produzidas por espcies de Alphazinomenon, Oscillatoria, Anabaena, Lyngbya, Cylindrospermopsis e Trichodesmium (Hawser et al., 1991; Kaebernick & Neilan, 2001 in id. ibid.). As dermatotoxinas, tais como os lipopolissacardeos (LPS), so produzidos por algas, incluindo as cianobactrias.

Tipos de cianotoxinas

Dentre os problemas causados pelas cianobactrias esto: a hepatite txica e outras hepatotoxicoses, a intoxicao pelas endotoxinas, irritaes de pele, diarria e, at mesmo, cncer. Dentre as espcies de cianobactrias produtoras de toxinas que formam floraes esto: Anabaena flos-aquae, Microcystis aeruginosa, Aphanizomenonflos-aquae, Oscillatoria agardhii e Nodularia spumigena (Carmichael, 1989).

Neurotoxinas

As neurotoxinas so toxinas que atuam, especificamente, no sistema nervoso, mesmo em baixa concentrao. Algumas dessas toxinas, que so caracterizadas por sua ao rpida, causando a morte por parada respiratria aps poucos minutos de exposio, tm sido identificadas como alcalides ou organofosforados neurotxicos.

Whitton & Potts (2000 in Calijuri, 2006) reportaram que a homoanatoxina-a produzida pela espcie Oscillatoria formosa, caracteriza-se como amina secundria. um alcalide similar antoxina-a, que age como potente bloqueador neuromuscular; em doses letais conduz paralisia corporais, convulses e morte por parada respiratria.

Hepatotoxinas

As hepatotoxinas atuam menos rapidamente do que as neurotoxinas e so identificadas como peptdios ou alcalides hepatotxicos. O tipo mais comum de intoxicao envolvendo cianobactrias causado por hepatotoxinas, que apresentam uma ao mais lenta, causando a morte entre poucas horas e poucos dias, em decorrncia de hemorragia intra-heptica e choque hipovolmico. Os sinais observados aps ingesto dessas hepatotoxinas so prostrao, anorexia, vmitos, dor abdominal e diarria (Beasley et al., 1989).

As espcies j identificadas como produtoras dessas hepatotoxinas esto includas nos gneros Microcystis, Anabaena, Nodularia, Oscillatoria, Nostoc e Cylindrospermopsis (Carmichael, 1992). As principais hepatotoxinas at agora caracterizadas so hepatapeptdeos cclicos conhecidos como microcistinas e os pentapeptdeos designados como nodularinas (Azevedo, 1998).

Estudos recentes demonstraram que as microcistinas so potentes inibidores das fosfatases proticas do fgado. A inibio das fosfatases afeta o equilbrio de fosforilao-desfoforilao, o que induz proliferao celular. Em caso de exposio a doses no letais, o risco decorrente da possibilidade de desenvolvimento, em longo prazo, de tumores cancergenos (Fujiki, 1992). Assim, a exposio prolongada as microcistinas - que so o tipo mais comum de toxinas de cianobactrias - so potentes promotoras de tumores. Desse modo, o consumo continuado de pequenas doses de hepatotoxinas pode levar a uma maior incidncia de cncer heptico na populao exposta.

Dermatotoxinas

As molculas das LPS so formadas por carboidratos (normalmente hexoses) e lipdeos (cidos graxos de cadeias C14 e C18). So agentes pirognicos, capazes de induzir irritao na pele e alergias. Se ingeridas, essas toxinas induzem uma srie de efeitos que incluem neutropenia, trombocitopenia, nveis anormais de glicose e mudanas metablicas, tais como acidose e alcalose. Os LPS desempenham importante papel em manifestaes clnicas, tais como: inflamao, febre, coagulao intravascular e choque.

O contato direto com a dermatotoxina produzida por cianobactrias podem causar: vermelhido e leses na pele, irritao nos olhos, conjuntivite, urticria, obstruo nasal e asma (Calijuri, op. cit.).

Os efeitos das cianotoxinas no homem e no ambiente

Como se pode ver, a toxidade das cianobactrias varia de espcie para espcie. As cianobactrias produtoras de toxinas so constante fonte de preocupao para os operadores de estaes de tratamento de gua, mas ainda no se sabe claramente os motivos que levam ao aparecimento e predomnio de cepas txicas. Segundo Calijuri (op. cit), duas hipteses foram propostas e estudadas: o predomnio de cepas txicas e no txicas est relacionado dinmica populacional e s inter-relaes competitivas entre as populaes; e a toxidade est relacionada presena de algum estressor ambiental.

A ocorrncia de espcies potencialmente produtoras dessas substncias precisa ser melhor investigada e monitorada, uma vez que se percebe que vrias espcies de cianobactrias, que comumente apresentam um grande crescimento em ambientes aquticos, podem produzir toxinas capazes de causar a morte de animais domsticos e selvagens e problemas sade humana. Aproximadamente 75% das cepas isoladas se mostram txicas quando testadas em bioensaios de toxicidade, sendo que apenas uma delas produtora de neurotoxinas enquanto que as demais so hepatotxicas (Costa & Azevedo, 1994).

O crescimento intenso desses microorganismos na superfcie da gua geralmente se d com predomnio de poucas ou mesmo de apenas uma espcie de cianobactria produtora de toxinas, ou de outros metablitos, que inibem a sua predao por microcrustceos, larvas de peixes, moluscos, etc. Esses consumidores primrios vo preferir consumir as microalgas no txicas e com maior valor nutricional, contribuindo, com isso, para a reduo das populaes dessas microalgas, o que, por sua vez, resultar numa diminuio drstica da comunidade dos consumidores primrios, com conseqncias em toda a cadeia alimentar do ambiente aqutico. Portanto, como resultado desses processos, muitas vezes restar no meio aqutico apenas as cianobactrias txicas como organismos fitoplanctnicos dominantes (Brasil, 2003).

As primeiras intoxicaes registradas em populaes humanas, causadas pelo consumo de gua contaminada por cepas txicas de cianobactrias, foram descritas na Austrlia, Inglaterra, China e frica do Sul (Rose et al., 2001 in id. ibid). No Brasil, e principalmente, no Rio Grande do Sul, h registro de floraes de cianobactrias txicas h pelo menos 15 anos. Relatos cientficos descrevem a entrada de diferentes tipos de cianobactrias pela regio norte da Lagoa dos Patos (RS), que ao alcanarem a regio sul da Lagoa (esturio) encontram guas ricas em nutrientes, derivados dos esgotos domsticos e industriais, produzindo floraes extensas, geralmente no vero.

O episdio mais grave de intoxicao por cianobactrias ocorreu em 1996, em Caruaru/ PE, quando 123 pacientes de uma clnica de hemodilise tiveram quadro clnico de intoxicao heptica; desses, 60 pacientes morreram. A investigao revelou que a intoxicao foi causada pela gua da hemodilise contaminada por cianotoxinas (Azevedo, 1998). Tal episdio ocasionou a incluso da exigncia de monitoramento para cianobactrias e cianotoxinas na Legislao Brasileira.

O Ministrio da Sade publicou em 29 de dezembro de 2000 a Portaria 1469, que estabelece procedimentos e responsabilidades relacionadas ao controle e vigilncia da qualidade da gua para consumo humano, incluindo valores limites para cianobactrias e cianotoxinas na gua bruta, baseados nas recomendaes da Organizao Mundial de Sade (OMS) (Chorus & Bartram, 1999 in Brasil, 2003). A Portaria foi modificada em 25 de maro de 2004 para Portaria 518, mas os limites para cianobactrias e cianotoxinas foram mantidos. O artigo 19,por exemplo, determina a responsabilidade e a forma de monitoramento dos mananciais de gua, determinando o limite de 10.000 clulas/ml-1 para a reduo da freqncia mensal para semanal de amostragem:

"Artigo 19 Os responsveis pelo controle de qualidade da guapara consumo humano de sistemas e de solues alternativas de abastecimento supridos por manancial superficial devem coletar amostras semestrais da gua bruta, junto do ponto de captao, para anlise de acordo com os parmetros exigidos na legislao vigente de classificao e enquadramento de guas superficiais.

1o. O monitoramento de cianobactrias na gua do manancial, no ponto de captao, deve obedecer a freqncia mensal quando o nmero de cianobactrias no exceder 10.000 clulas /mL (ou 1mm3/L de biovolume) e, semanal, quando o nmero de cianobactrias exceder este valor.

Segundo Azevedo (1998), no Brasil, os estudos que vem sendo realizados no Laboratrio de Fisiologia e Cultivo de Microalgas do Ncleo de Produtos Naturais (NPPN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem confirmado a ocorrncia de cepas txicas de cianobactrias em corpos d'gua (reservatrios de abastecimento pblico, lagos artificiais, lagoas salobras e rios) dos Estados de So Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paran, Bahia, Pernambuco e do Distrito Federal. Para ela, os relatos clnicos de danos para a populao humana, pelo consumo oral de toxinas de cianobactrias em guas de abastecimento, aparecem como conseqncia de acidentes, ignorncia ou m administrao.

As floraes de cianobactrias tm trazido srios problemas aos sistemas de abastecimento de gua das cidades no s pela possvel presena de cianotoxinas na massa algcea que chega s captaes, mas pela existncia de compostos das cianobactrias que causam gosto e odor nas guas e pela carga de matria orgnica que acompanha as floraes.

Assim, para prevenir que as pessoas faam o consumo oral de guas contaminadas por floraes de cianobactrias em reservatrios de gua, preciso que os mesmos sejam fiscalizados constantemente, para que se mantenha um sistema de tratamento de gua adequado e para que se controle o desenvolvimento das floraes. Segundo Calijuri (op. cit.), o monitoramento das cianotoxinas, seja por meio de bioensaios, seja por meio de anlises qumicas, envolve pessoal especializado, laboratrios bem equipados e altos custos condies essas no encontradas na maioria das concessionrias de abastecimento de gua.

Em muitos casos, pode ocorrer de as cianobactrias causadoras dos danos desaparecem do reservatrio antes que as autoridades de sade pblica considerem uma florao como o possvel risco, pois so geralmente desconhecedoras dos danos que podem advir dessas floraes. Assim, assumem que os padres de purificao de gua utilizados nas estaes de tratamento de gua so capazes de remover qualquer problema potencial. Mas, vrias toxinas de cianobactrias, quando em soluo, no podem ser retiradas atravs de um processo normal de tratamento, sendo inclusive resistentes fervura (Azevedo, 1998).

Os reservatrios de gua utilizados para o abastecimento da populao que so sujeitos ao aparecimento de floraes de cianobactrias precisam ser cuidadosamente monitorados para evitar todos os riscos potenciais adversos sade humana. Sabendo-se que as cianotoxinas so endotoxinas, isto , que s so liberadas para a gua quando ocorre a lise ou morte celular, a relao entre a idade e a condio da florao deve ser avaliada para evitar as conseqncias para a sade pblica.

Usualmente, as autoridades de meio ambiente tentam controlar as floraes com o tratamento convencional com sulfato de cobre. Este mtodo provoca a lise desses organismos, liberando as toxinas freqentemente presentes nas clulas para a gua. Tais aes podem causar exposies agudas s toxinas. Alm disso, h evidncias que populaes abastecidas por reservatrios que apresentam extensas floraes podem estar expostas a baixos nveis de toxinas por longo perodo (Lambert et al., 1994).

Vrios fatores promovem a liberao das cianotoxinas pelas cianobactrias: algicidas como sulfato de cobre e sulfato de cloro, o estresse celular decorrente de condies ambientais desfavorveis e a senescncia. A liberao de toxinas geralmente ocorre aps a lise celular (Yoo et al., 1995; Pdua, 2002 in Calijuri, 2006), mas algumas evidncias atuais apontam que em situaes de estresse pode ocorrer a liberao da toxina sem a lise celular.

Um exemplo desse monitoramento foi citado por Fraietta:

Cumprindo o que estabelece a Portaria 518 do Ministrio da Sade, a COPASA monitora periodicamente suas captaes de gua situadas em mananciais superficiais. Uma destas captaes, localizada no Crrego Santa Brbara, responsvel pelo abastecimento da cidade de Guaransia, a partir de janeiro de 2004 comeou a apresentar nmeros elevados de cianofceas da espcie Cylindrospermopsis raciborskii. Alm de implantar o monitoramento exigido por lei, ou seja, anlises semanais de cianobactrias e pesquisa de cianotoxinas, imediatamente comeou-se um processo de investigao e de vistorias no entorno do manancial com o objetivo de localizar a origem do problema, no s das fontes de nutrientes, mas tambm do local onde estavam ocorrendo as floraes, j que as anlises fitoplanctnicas realizadas a montante da captao, em pontos considerados de risco, ao longo do leito do manancial mostravam que as floraes no estavam ocorrendo no prprio manancial, nem na barragem onde feita a captao, mas sim, em algum afluente, provavelmente em alguma lagoa, que so vrias na regio... efluentes diretamente nos corpos d'gua sem nenhum tratamento, lavouras que chegam at as margens dos mananciais e at uma usina de reciclagem de lixo que tambm no tratava seus efluentes. O local onde estavam ocorrendo as floraes foi encontrado depois de alguns meses e est situado a aproximadamente 1.500 metros em uma lagoa que desgua em outro pequeno crrego afluente do Santa Brbara. Desde o incio, a pr clorao foi interrompida e adotou-se a dosagem de carvo ativado, o que vem garantindo a produo de gua livre de toxinas. Para resolver definitivamente o problema, j est sendo feito o esvaziamento da lagoa e a COPASA comeou a implantar em maro de 2005 o projeto SIPAM1 Sistema Integrado de Proteo de Mananciais, na regio.

As medidas corretivas de controle de algas, cianobactrias e toxis na gua de abastecimento envolvem dois tipos de interveno, a primeira, no ponto de captao (manejo da captao de gua bruta), e a segunda, a remoo desses organismos e compostos no sistema de tratamento de gua. De acordo com Yoo et al. (1995) e Chorus e Bartram (1999) os mtodos de preveno de floraes de cianobactrias incluem tcnicas como: 1) manejo da bacia hidrogrfica, para minimizar a entrada de nutrientes, especialmente nitrognio e fsforo; 2) tratamento da gua represada com tcnicas de aerao e/ou inativao dos nutrientes dissolvidos, para criar condies de menor disponibilidade desses nutrientes para a populao de cianobactrias; 3) controle biolgico como a biomanipulao, que modifica a estrutura da comunidade aqutica de alguma maneira.

Referncias bibliogrficas

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AZEVEDO, S. M. F. O., 1998. Toxinas de Cianobactrias: Causas e

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Cianobactrias: um panorama geral

Por: Fernanda de Matos Campos

Perfil do Autor

Biomdica formada pela UNIFENAS-MG. (Artigonal SC #3372966)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/medicina-alternativa-artigos/cianobacterias-um-panorama-geral-3372966.html




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