subject: LONGE DA SINGELA VIRTUDE [print this page] Estava eu posto em sossego quando um amigo telefona comentando sobre a confuso posta nestas eleies. Sem dvida, uma crise na democracia brasileira.
Compartilho com o leitor minha opinio: acho toda crise uma beno, porque nos indica que temos que abandonar o cadver de nossas desiluses e troc-lo pela inquietante lufada de ar do impondervel.
Preocupa-me bastante a crise generalizada da ausncia de idias e de projetos polticos.
Ensina o Arcebispo honorrio de Natal, Dom Nivaldo Monte, que a verdadeira fome no de alimentos fsicos, mas grave mesmo a fome espiritual.
Ou seja, a pior misria no a material, mas a de conhecimento, de esprito.
Outro sbio, o qual vive afirmando no entender de poltica, meu companheiro de partido, o filsofo e jornalista Agnelo Alves, tem-nos alertado para o fato de que, no Rio Grande do Norte, como de resto em todo o pas, existem muitos candidatos; mas impera a escassez de projetos de desenvolvimento para a nossa sociedade. Como se fossem candidatos de si mesmos.
Nessa pobreza espiritual generalizada, ao eleitorado resta a alternativa de escolher entre nomes de pessoas, sem saber ao certo o que cada candidatura significa em termos de propostas. Por isso mesmo, ningum deve estranhar o desencanto da nossa juventude pela dimenso poltica da vida. H realmente pouco sinal de vida inteligente no planeta da poltica brasileira.
Quem so os candidatos, em termos de idias ou projetos? Defendem quais bandeiras de luta? O que pensam sobre a Agenda 21? Quais deveriam ser as prioridades do PPA? Quais os melhores programas de desenvolvimento do BNDES? O que acham do conceito de construo sustentvel? O que pensam sobre a Lei de Inovao Tecnolgica? E quanto Lei do Bem? Que solues propem? Conseguem identificar, pelo menos, acerca do qu estou falando?
Uma eleio para Presidente da Repblica, Governadores, Senadores e Deputados deveria representar um momento-chave para a manuteno do equilbrio scio-econmico e para que, a contento e com clareza, pudssemos participar do processo de escolha.
A maioria dos partidos sequer formula programas de governo e, se for publicado algum documento semelhante, a maioria do eleitorado no tomar conhecimento; at porque no foi dessa forma que as alianas foram seladas. Foram outros os instrumentos para costur-las.
Tudo depende da capacidade do candidato, na arte de se manter dentro do jogo.
Quem sabe compreender o que no dito pelo que dito, quem consegue questionar o "no poder" como sendo "no querer" e que dispe de condies para (re) contextualizar situaes acaba por romper inmeras das "cascas" com as quais a realidade se reveste; tambm consegue desmontar a dissimulao e distinguir os amigos dos inimigos. Ou no, pois a traio tambm uma possibilidade.
Pensando na Copa do Mundo, relembro tambm do escritor peruano Mario Vargas Llosa, o qual nos ensina que: "O futebol o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras, claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro do campo, com a garantia do espao para a competncia individual".
Ao contrrio, constata-se que nossa sociedade est longe de exibir a singela virtude futebolstica referida por Llosa. Aqui no patropi, o fim da escravido e do Imprio, e o surgimento da igualdade jurdica republicana e das relaes do trabalho livre assalariado ainda no superaram alguns vcios aristocrticos dos tempos coloniais. Ser que somos uma repblica sem povo?
Que bom se os instrumentos de informao e propaganda tivessem utilizados, com criatividade, para prestar contas, difundir as idias e propostas de quantos candidatos tentassem viabilizar sua postulao. E que vencesse o melhor e o mais competente!
Rinaldo Barros professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Foi presidente da Fundao Cultural Capitania das Artes (2001 a 2004), onde articulou a implementao de uma poltica cultural comprometida com a construo da cidadania. At recentemente ocupou a Diretoria Cientfica da FAPERN Fundao de Apoio Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde busca contribuir para que a disseminao do conhecimento cientfico e a prtica da pesquisa se tornem mecanismos de desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Atualmente, consultor e diretor do Instituto Teotnio Vilela, em Natal. (Artigonal SC #3364617)