subject: Quando Apolinário morreu [print this page] Quando Apolinrio morreuQuando Apolinrio morreu. Por Francisco Deliane e Silva (franciscodelianeadvocacia@hotmail.com) Apolinrio morreu num dia assim como qualquer outro. A vila mal percebeu, porm na esquina, algum fez o favor de lembrar do que Apolinrio sempre dizia. Dizia que voltaria, pois ningum tocaria na sua Joana, mesmo depois de morto. Foi assim que tudo comeou. L pelas sete horas da noite, o corpo j estava pronto para receber a visitao e ser velado. A sala era quente, e parecia que as moscas naquele anoitecer pretendiam dormir mais tarde. Aos poucos, os que voltavam do trabalho iam se achegando e falando baixinho alguma lembrana da vida do morto. L, de dentro da casa pequena, vinha um cheiro de caf, e na varanda o cheiro era de cachaa, pois, naquela ocasio, era necessria para entreter a dor e esticar a conversa. L pelas onze horas o povo que se espremia pelos cantos foi se despedindo. O certo que beirando a meia noite se encontravam na sala, apenas, concidentemente sete mulheres, todas chamadas "Maria". Eram, na verdade, nomes compostos, Maria alguma coisa, mas, eram "Marias"... e, juntas consolavam Joana. Apolinrio morrera sem deixar filhos. Achava que sem filhos economizava mais e se dedicaria melhor aquela por quem dizia viver e se morresse at voltaria para no se afastar dela. Acontece que do lado de fora da casa, Godofredo, que sempre ardera de desejo por Joana se deliciava com a "recente" liberdade da mesma, viva nova e viosa, a quem tudo faria para consolar, sem mesmo levar em conta a proximidade do corpo insepulto e sem lembrar a estranha promessa de Apolinrio, de que voltaria para impedir que algum tocasse no curvilneo corpo de Joana, que alm de ter ficado novinha haveria de herdar tudo quanto mesquinhez de Apolinrio tinha guardado, - um esplio que daria para viver durante uns bons anos de puro prazer ao lado da viva. De repente, um vento frio percorreu a varanda da casa.
Um cachorro que dormia pachorrentamente latiu, mas tudo parecia normal. At o cheiro forte da cachaa bebida naquele mesmo lugar esmaeceu. Ao longe, ouviu-se o som do trotar leve de um cavalo que parecia se aproximar da vila e quando tudo isto parecia distrair os pensamentos daqueles que rejeitando o sono, permaneciam apostos velando Apolinrio, que h muito fora residir na Vila, sabe-se l vindo de onde e colhera a flor em boto que era Joana, alis colhera no seu primeiro desabrochar, quase menina, quase mulher. Mas Apolinrio era assim. A energia eltrica era coisa recm-instalada na Vila. E todos a desfrutavam com grande prazer, mas, de repente, estranhamente naquele dia, e quando a meia noite se aproximava a luz apagou... Foi a que um dos homens que se encontrava bebericando na varanda. Ergueu-se e comentou: E se Apolinrio voltar? As mulheres l dentro persignaram-se quase ao mesmo tempo. E novamente aquele vento frio percorreu a casa inteira apagando inclusive as velas que guarneciam o caixo e que se sobressaram fulgurantes quando a energia faltou. Mas a Lua estava clara e o cu cheio de estrelas. O co que antes ladrara limitou-se a erguer as orelhas, balanar o rabo e com o focinho para o alto perscrutou o vento e depois aquietou-se... Tudo parecia normal. Sucede que a energia voltou, porm a lua foi engolfada por uma nuvem escura e as estrelas desapareceram no cu. A precisamente a meia noite Apolinrio voltou. Acordou, assim de repente, perguntando por Joana que do recanto da sala em que estava, foi a primeira a correr, seguida pelas Marias. As mulheres atropelando os homens gritavam em grande alarido.
Apolinrio voltou... E os homens... "pernas pra que te quero..." no velrio no ficou nenhum. O resto depois eu conto. Post Scriptum: Para quem no acredita na volta de Apolinrio, basta olhar na internete a tal da catalepsia. O que a catalepsia ? um distrbio que impede o doente de se movimentar, apesar de continuarem funcionando os sentidos e as funes vitais (s um pouco desaceleradas). A pessoa fica parecendo uma esttua de cera. Se ela estiver sentada e algum posicionar seu brao para cima, ela permanecer assim enquanto durar o surto, afirma o neurocientista Ivan Izquierdo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O ataque catalptico pode durar de minutos a alguns dias e o que mais aflige quem sofre da doena ver e ouvir tudo o que acontece em volta, sem poder reagir fisicamente. As causas, porm, ainda so um mistrio, apesar de no faltarem hipteses e especulaes. A origem do problema pode ser tanto externa como um traumatismo craniano, quanto congnita m formao em alguma regio cerebral, diz o neurologista Vanderlei Cerqueira Lima, do Hospital Albert Einstein, em So Paulo. J o psiquiatra Marcio Versiani, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que se trata de uma manifestao de esquizofrenia ou histeria, no segundo caso geralmente ligada a choques emocionais. Alm disso, ocorre em pacientes com distrbios do sono e pode, ainda, ser um tipo de manifestao de epilepsia, em que a pessoa fica imvel em vez de ter convulses. Todo mundo j ouviu lendas tenebrosas sobre pessoas que teriam sido dadas como mortas e enterradas vivas durante um surto de catalepsia. Hoje em dia existem exames e equipamentos que confirmam o bito sem margem de dvida, diz Vanderlei.