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A Lua e a Realidade
A Lua e a Realidade

Oprimia-me o escuro doentio daquela noite. Andava a passos lentos e largos, em direo a um lugar do qual no queria nunca chegar. A nvoa leve e macilenta que esfumaava a luz dos postes me fazia tremer. Glida que era, fazia-me jurar, em minha cabea paranoica, que almas me rondavam. Quo tolo que era... Trazia nos confins de minha mente algumas ralas oraes que aprendera quando criana. Orava-as por pura conveno interior, com palavras decoradas, ditas ao lu, sem f. Se que tinha f. Odeio admitir, mas nunca fui dos melhores sujeitos. Medroso que era, gostava de recolher-me insignificncia de meu lar. Hoje rio de ach-lo to seguro. J quase cambaleante, ousei parar minha romaria solitria, meu suplcio, minha negao, pois insistia em no chegar realidade.-O que era essa realidade, afinal?- perguntaria o meu perspicaz leitor, sedento pelos mistrios de minha epopeia. Hmpf... Epopeia... at parece que o andar trpego e torpe de um medroso ridculo, temeroso do mundo em si(!) caracteriza uma epopeia. Seria ferir o corao intrpido e desbravador de Ulisses, que se no pode defender, exilado em sua santa tumba. Mas, enfim, sabero mais tarde o que a realidade. Pelo menos a minha realidade.

Canso-me de narrar os brutos passos meus. Brutos e trmulos... Beira o paradoxal. Minto. Beira o ridculo. Vamos do passo caminhada. Enfadonho, no? No. Esperem pelo que vir acontecer. No queiram o agitado, a poeira suspensa. Prefiram a penumbra, pois lembrem-se, nela que reina majestosa a rainha Lua.

Dali a um pouco de tempo, passei a caminhar maquinalmente. Parei ao deparar-me com a luz do poste baixo ofuscando-me os olhos. Desviei-mo e desatei a andar. Parei com uma luz novamente. No era o poste. Vinha de cima. Revirei a cabea vagarosamente para cima, encontrando-me com a lua. Foi quase romntico. Vi Sua Majestade fitando-me com seus olhos brilhante e invisveis, daqueles que lanam os olhares mais penetrantes, mais reflexivos, mais transparentes. Ela via-mo por completo. Via-mo na alma. Censurou-me. Tentei redarguir, mas sua fora me hipnotizava. Na minha mente, escutava... Escutava sua doce voz, mesmo com a aspereza de seu palrar. Disse que seguiria-mo, e f-lo. Di-la-ia que incomodava-mo, mas logo vi que era insensatez. Andei tentando fingir que no a via. Tentando.

Vi chegar a tal esquina. Hesitei. Retomei o passo, mais trpego que antes, ainda que o no quisesse, inebriado por algum ar mstico. Fora a maldita. "Calai-vos, Astro importuno, sa afora, ide s belas-terras. Caminhai, viajai, pelos infernos! Deixai-te levar ao sabor das ondas, que seja! Mas, imploro-te, deixai-mo aqui a errar, a enveredar pelos caminhos do medo, nem que seja para agonizar eternamente no trtaro! Deixa-mo,... por favor... No mo faas chorar... Deixa-mo ir embora..."

No parou. F-mo sofrer na rua, a engatinhar, a galgar a pedra gelada da calada. Cheguei e a vi. No a Lua, mas a vi, a realidade. Deitada formosamente, jazia quieta, fresca como a noite, mais plcida do que nunca fora aos meus olhos. A realidade alvirrsea cortejava-mo. Na verdade, eu que a cortejava. E eu a alcei a um patamar alto, talvez a um patamar que ela realmente estivesse agora. Conseguia v-la, pueril como eu nos meus belos e verdes dias. Vi-a levantar. No, delirava. Ela continuava deitada, a encarar-mo com olhos srios. Olhos cerrados, mas srios. Srios, mas reconfortantes. Perdia aquela sua viso pueril. Perdia aquela sua viso. Perdia aquela sua... Perdia aquela... Perdia... Ela.

Lua Real (conto)

Por: Ariel Lima

Perfil do Autor

(Artigonal SC #3340815)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/ficcao-artigos/lua-real-conto-3340815.html




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