subject: Radicais Livres da Inovação [print this page] "No d para resolver um problema com o mesmo raciocnio que o causou."
(Albert Einstein)
A economia globalizada comprimiu distncias geogrficas, cindiu barreiras culturais e proporcionou um admirvel mundo novo de oportunidades. Mas tambm comoditizou tudo: produtos, servios e at pessoas.
Por isso, a competitividade est lastreada num processo de diferenciao. Praticar o que chamamos de concorrncia monopolstica, ou seja, atuar num ambiente altamente concorrencial, porm com caractersticas to peculiares que geram encantamento e fidelizao.
O caminho para a diferenciao dado pela criatividade, o ato de dar existncia a algo novo, nico e original. Tambm podemos definir criatividade como uma tcnica de resolver problemas.
A criatividade se manifesta de duas formas bsicas. Como bem pontuaram Duailibi e Simonsen, em Criatividade & Marketing, a primeira a descoberta, a qual ocorre quando se percebe algo j existente e se verbaliza esta constatao, seja atravs de uma definio, uma equao ou uma frmula matemtica.
A segunda a inovao. Atravs da associao de dois ou mais fatores aparentemente dspares, chega-se a um terceiro fator que tem parte dos anteriores, mas que, em relao a eles, novo.
sobre inovao que vamos tratar neste ensaio baseado no filme "Os Radicais Livres da Inovao", produzido pelo Centro de Inovao de Oregon e distribudo com exclusividade no Brasil pela Siamar.
A metfora dos radicais livres advm da biologia. Assim como nosso organismo registra a existncia de muitos radicais livres essenciais ao metabolismo, mas que tambm provocam cncer e outras doenas, nosso futuro depende da inovao, que frequentemente negligenciada devido aos seus riscos inerentes que asfixiam a criatividade.
Faremos a seguir um passeio por um conjunto de conceitos com um objetivo bem definido: sensibilizar voc e sua empresa sobre a importncia da inovao, apresentando instrumental suficiente para entend-la, cultiv-la e promov-la em sua organizao e em sua vida.
1. Inovar ou morrer
"No a mais forte das espcies a que sobrevive, nem a mais inteligente, mas aquela que melhor responde s mudanas."
(Charles Darwin)
A inovao se posiciona ao lado do empreendedorismo como o grande motor para o desenvolvimento econmico sustentvel de empresas e naes.
A mxima darwinista serve-nos para rememorar o pensamento de Herclito de feso que dizia: "A nica coisa permanente a mudana".
O cemitrio do mundo corporativo est repleto de companhias que, encasteladas em seus dogmas, acomodadas pelos ganhos de participao no mercado e aumento dos lucros, no perceberam que se tornavam obsoletas.
Assim foi com fabricantes de chicotes para charretes, que poderiam ter se convertido em empresas de controle veicular, e fabricantes de mquinas de escrever, que poderiam ter desenvolvido os primeiros processadores de texto.
No foi assim com a Sony, que aps lanar seu rdio transistorizado de bolso em 1957, definiu-se como uma empresa capaz de desenvolver equipamentos portteis individuais de msica, atingindo seu auge com o walkman que a permitiu reinar soberana por quatro dcadas. Mas no meio do caminho tinha uma Apple, e esta tinha um novo dispositivo: o iPod.
2. Reinventar o Marketing tradicional
"Inventar um avio no nada. Construir um alguma coisa. Voar tudo."
(Otto Lilienthal)
O famoso composto mercadolgico formado por 4Ps tambm evoluiu dos convencionais produto, preo, praa e promoo. A partir da Madia Marketing Matrix, desenvolvido pela Madia Marketing School, trabalho com um conjunto de 15 Ps. Neste ensaio, com foco em inovao, abordaremos os seguintes:
Produto
Sim, comeamos por ele, at por conta do paradigma de que a inovao est relacionada tecnologia. O objetivo aqui criar produtos mais funcionais e surpreendentes. Foi assim que os televisores abandonaram o tubo, migrando para a tecnologia plasma, LCD e LED. Os tnis ganharam amortecedores de impacto. As geladeiras passaram a fornecer cubos de gelo na porta sem a necessidade de abri-la. E os celulares tornaram-se aparelhos multimdia.
Curiosamente, e at por conta da velocidade das inovaes, a expresso "bens durveis" est com os dias contados. Os equipamentos de hoje no so definitivamente construdos para durar. Nossos avs entendem bem o que isso significa.
Preo
Produtos reinventados para atender consumidores solteiros, com embalagens menores e preos mais acessveis. Condies de pagamento elsticas, ofertadas em parceria com instituies financeiras, aproximando desejo e realizao aos olhos e bolso do consumidor, como fazem as Casas Bahia. Ganhar pouco sobre grandes volumes, como um Walmart, ou muito sobre quantidades reduzidas, tal qual Louis Vuitton e todo o ascendente mercado do luxo.
Promoo
Adeus aos testemunhais e s aes de merchandising. A inovao da promoo se traduz por aes com impacto cultural, permeando o estilo de vida das pessoas. Estar onde o pblico quer e na hora em que ele precisa. E utilizar uma comunicao clara, facilitando a compreenso; convincente, digna de credibilidade; e sedutora, alinhada s experincias de vida dos clientes potenciais.
Praa
No mais sobre onde est armazenado o produto e onde ser entregue. Trata-se dos canais para encontr-lo, como personaliz-lo e, eventualmente, consert-lo. Trata-se de comodidade e velocidade. Acessar o Submarino no final da noite e receber um livro ou CD no dia seguinte com toda a logstica existente por trs disso.
Pessoas
Estamos falando dos consumidores, certo? Em parte. Estes so os chamados clientes externos, os quais precisamos estudar, conhecer e questionar. Mas h tambm os clientes internos, no apenas enquanto funcionrios, mas como porta-vozes de toda a corporao. Ou sua equipe acredita e confia na organizao em que trabalha, nas pessoas e nos seus produtos e servios, ou o abismo est prximo.
Ps-Venda
O difcil no a primeira venda, mas a segunda. Fazer o cliente voltar e no para apresentar reclamaes. Estabelecer um vnculo emocional capaz de torn-lo seu embaixador itinerante, propagandista dos benefcios de sua empresa. Alcanar fidelizao, lealdade e perenidade.
Processo
A eficincia da produo seriada cedeu espao para a eficcia da produo personalizada engendrada pela Dell. J a Federal Express transmutou-se de uma empresa de encomendas para uma companhia de logstica. E a Starbucks foi alm de bons gros e variedades de cafs, bem preparados por exmios baristas. Converteu seu espao num ambiente de convvio social, praticando o inovador marketing de experincia.
3. Superar o medo e administrar o risco
"Houve momentos em que pensei que poderamos falhar. Houve momentos em que at pensei que deveramos falhar. Mas, por alguma razo, nunca pensei que falharamos."
(Phil Knight, Nike)
O maior medo a confrontar os inovadores no o medo de errar, mas o de no tentar ou, ainda, ser suplantado por outrem.
O mundo est repleto de ideias. E a grande maioria das pessoas vai lev-las consigo aps o suspiro final devido incapacidade de torn-las tangveis, colocando-as em prtica.
Temos o hbito de ficar esperando pelo mundo perfeito. Queremos controlar o ambiente e as circunstncias, adotamos a hesitao como parceira e vemos o tempo escorrer pelas mos e a frustrao nos visitar.
O timo inimigo do bom. Por isso, aja! Esteja preparado para errar e acostume-se com o erro. Corra riscos. Se voc no o fizer, algum o far em seu lugar. Se voc tiver medo de falhar, voc vai falhar. como um velho lema dos lutadores de artes marciais: se voc teme perder, j est vencido.
Encare o risco, o perigo e o fracasso como adrenalina que acelera o pulso, dilata as pupilas, impulsiona as sinapses proporcionando-lhe uma exploso de prazer por fazer diferente no intuito de fazer a diferena. Como dizem na Intel Capital: "Ser o primeiro entre os piores melhor do que ser o segundo entre os melhores". Arrisque. E acredite.
4. Preparar a mente
"A oportunidade favorece a mente preparada."
(Louis Pasteur)
Os inovadores so pessoas que fazem sua prpria sorte. No acreditam no acaso, mas no trabalho rduo para estarem no lugar certo e na hora certa quando uma oportunidade surgir.
A "roda do aprendizado", formulada por Peter Senge, exemplar na ilustrao deste conceito. A primeira fase reside no plano da conscincia, o que envolve percepo e observao. Consiste em ter a mente aberta, estar atento ao mundo, ao ambiente que nos cerca, captando inclusive intuitivamente informaes que ganharo significao, recebendo status de conhecimento.
A segunda fase representada pelo plano da competncia. Aps o reconhecimento, sucede a ao, enrgica e flexvel, levando experimentao, habilitao e, por fim, incorporao in corpore, ou seja, tornar parte de si.
Na verdade, a clebre frase de Pasteur foi assertivamente reescrita por Michael Schrage: "A mente preparada favorece a oportunidade".
5. O funil da inovao
"O melhor modo de ter uma boa ideia ter muitas."
(Linus Pauling)
Divergncia e convergncia. Estas so as palavras-chaves no processo criativo.
Comecemos pela divergncia. fcil compreend-la a partir da aplicao da conhecida tcnica de brainstorming. Neste estgio, buscamos a quantidade. Uma profuso de ideias, muitas delas desconexas. O julgamento deve ser suspenso, tudo deve ser permitido. Regra bsica: proibido proibir. A participao de todos deve ser estimulada e o humor deve permear as relaes.
A cada uma das sugestes lanadas, podemos aplicar outra ferramenta, o SCAMPER, um acrnimo para ilustrar um conjunto de aes para ampliar ou gerar novas ideias:
- Rearranjar: novas distribuies, componentes, cronogramas, procedimentos.
Depois passamos avaliao, etapa na qual as ideias so classificadas e organizadas. Sistemas de banco de dados so particularmente teis neste momento.
A partir desta fase, tem incio o processo de convergncia. Pesquisas so realizadas para avaliar a viabilidade das principais propostas selecionadas. Prottipos so construdos e testados. At chegarmos, finalmente, ao lanamento, a realidade da inovao.
Da criao ao lanamento, o processo da inovao assemelha-se a um grande funil. Partimos de um grande nmero de sugestes, que demandam poucos recursos, para chegarmos a uma nica ideia exequvel, a qual demanda grande volume de recursos de toda ordem.
6. Inventar o futuro
"Voc precisa ser a mudana que deseja ver."
(Mahatma Gandhi)
O desafio agora explorar o futuro. Pensar, repensar, reinventar. No apenas objetos e processos, mas a si mesmo. Dar asas imaginao. Fechar os olhos e vislumbrar cenrios e tendncias.
Leia livros e revistas que normalmente no circulariam em suas mos. Assista a programas diversos, sejam desenhos animados ou documentrios. Leia o jornal de trs para diante, passeie seus olhos pelos classificados, detenha-se nas notcias de menor destaque tudo o que se encontra nas manchetes e nas primeiras pginas fazem parte do universo do conhecimento comum.
Veja filmes de fico e faa perguntas. Muitas perguntas. Visualize o mundo em cinco, dez, 20 anos. Busque o inusitado. Assuma desafios no razoveis, que paream mesmo impossveis. E descubra com rapidez que eram perfeitamente plausveis.
7. Criar uma cultura de inovao
"Se quiser colaborao, remova as paredes."
(Sohrab Vossoughi)
A cultura da inovao deve permear todos os matizes de sua companhia. Para tanto, crie um ambiente propcio para encorajar novas ideias. Facilite e propicie a comunicao em sua equipe. Promova eventos, organize almoos, leve-os para fora da empresa, saindo do lugar convencional de trabalho. Reduza as hierarquias, no apenas por decreto, mas de fato.
Alm disso, estimule o humor e as brincadeiras. Assim estar contribuindo para o aprendizado e a qualidade de sua reteno. Divertir-se um timo recurso para manter a autoestima e a motivao elevadas.
Lembre-se de agir em consonncia com suas palavras, alinhando comportamento e discurso. A isso chamamos coerncia.
8. O poder da diversidade
"Nem todas as conversas iro mudar sua vida, mas qualquer uma delas poder faz-lo."
(Liz Dolan)
Colaborao e diversidade so essenciais para a inovao.
A colaborao traz consigo o respeito, a assertividade, a certeza de que nenhum de ns to bom quanto todos ns. Da colaborao surge o conceito de comunidade, o lugar onde as ideias recebem apoio e incentivo porque so comuns aos propsitos de todos.
A diversidade transcende imagem de multiplicidade racial, religiosa ou social. Reduz-se simplesmente diversidade e pensamento. Pontos de vista diferentes que conduzem a novas propostas, ou as propostas existentes a novos caminhos.
O florescer desta diversidade demanda dilogo. Mais do que ouvir, escutar. Colocar o ego do lado de fora da arena. Nada de posies, cargos, ttulos. A conversao entre iguais, marcada pela honestidade, confiana, independncia, intuio e emoo.
Aproveite pequenos encontros sociais para debater ideias. Converse mais com as pessoas, inclusive estranhos. uma grande oportunidade para conhecer outras perspectivas.
9. Qual o seu problema?
"Eu quero tornar a eletricidade to barata que somente os ricos possam dar-se ao luxo de queimar velas."
(Thomas Edison)
Buscamos a inovao no de forma despretensiosa, mas para atingir determinados objetivos. Pode ser reduzir custos, aumentar a durabilidade, ganhar mais intensidade, proporcionar mais beleza, conquistar maior funcionalidade. Enfim, mudar positivamente o resultado atual a partir dos recursos existentes.
Por isso, aps a pergunta fundamental "Qual o seu problema?" sucede uma ainda mais relevante: "O que voc vai fazer a respeito?".
Tom Coelho educador, conferencista e escritor com artigos publicados por mais de 700 veculos da mdia em 15 pases. autor de "Sete Vidas Lies para construir seu equilbrio pessoal e profissional", pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros. Contatos atravs do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br. (Artigonal SC #3311868)