subject: O Brasil holandês de Evaldo Cabral de Mello [print this page]
O historiador Evaldo Cabral de Mello unamidade no estudo de um dos perodos mais ricos e controversos da histria brasileira: a poca em que parte do Nordeste foi governado pelos holandeses, em especial, o seu estado natal, Pernambuco. Perito em histria regional, publicou vrios livros sobre o assunto batavo em territrio tupiniquim, entre eles citamos Rubro veio: o imaginrio da restaurao pernambucana (1986) e O negcio do Brasil (1998), entre outros.
Recentemente, Cabral de Mello organizou e selecionou trechos dos mais importantes de livros, cronicas, documentos e cartas do domnio holands no Brasil (1630-54) no livro O Brasil holands, que abre a parceria que a Companhia das letras fez com a Penguim, no segmento no-fico. Como se estivesse fazendo um documentrio, o autor optou por uma narrativa clara, bem jornalstica, em um formato que conduz ao leitor pelos mais importantes escritos da poca com os quais goza de uma rara familiaridade tecendo comentrios preciosos sobre cada trecho selecionado.
Um livro de fcil leitura e de grande interesse geral, pela peculiaridade de abordar a conquista aventureira que os holandeses empreenderam. Em especial, aps a consolidao militar perante a Espanha, os Pases Baixos desdobraram sua ofensiva ultramarina visando destruio da riqueza colonial ibrica. O Brasil, pego na unio habsburga, envolvido profundamente pelo financiamento e a operao da agroindstria aucareira e conseqentemente a comercializao europia do produto, seria alvo estratgico da conquista da Companhia das ndias Ocidentais e do conselho mercantil dos 19. E de 1630 a 1654, os holandeses praticamente transformaram aquela parcela brasileira na mais desenvolvida do Brasil, principalmente, o Recife, como Gilberto Freyre analisa "(...) do simples povoado de pescadores em volta de uma igrejinha (...), se desenvolvera na melhor cidade da colnia e talvez do continente(...)".
Cabral de Mello usando a vasta documentao do perodo, divide a obra em trs partes: A guerra da resistncia, O interregno nassoviano e A guerra de restaurao, cronologicamente verossmeis com os fatos reais e com os trabalhos selecionados, valendo de depoimentos de quem participou e assistiu os fatos, e cuja vividez e precisa remete o leitor como tivesse lendo uma notcia de um jornal atual. Cabral de Mello consegue equilibrar documentos oficiais e relatos annimos para montar uma obra de referncia para estudantes, profissionais da rea e curiosos sobre o assunto.
So fontes holandesas, como a correspondncia oficial do governo batavo no Brasil com sua metrpole, compilados e traduzidos por Joaquim Caetano da Silva, em 1850 ou coleo Jos Higino de 1865-6, trabalho que rene cartas e atas gerais para a Companhia das ndias Ocidentais e do Conselho dos XIX para o governo do Recife, entre outros documentos, como informaes referentes histria poltica, social e econmica sobre o Nordeste.
Alm de dirios e narrativas mais extensas de soldados, viajantes e funcionrios holandeses que completam a historiografia holandesa, a documentao lusitana igualmente rica, embora do ponto de vista da oficial compreensivelmente menos, segundo o autor.
Os textos so todos contextualizados, e podemos encontrar a motivao dos protagonistas, suas estratgias e tticas; os relatos dos sucessos blicos (da conquista de Olinda e Recife s Guararapes, at a rendio), o cotidiano de ambas, as excurses devastadoras e a histria de Calabar.
Mais de quinhenta pginas de um trabalho nico e exclusivo, deste senhor que com seus 74 anos tem o folego de um jovem estudante em abordar particularidades to ntimas desse perodo. Como no caso de Calabar, um episdio pouco documentado, que levanta a curiosidade do leitor, mas que o autor aborda a partir de quem o conheceu, como Manuel Calado ou um mercenrio ingls das fileiras holandesas. Ou como os sete anos de governo de Maurcio de Nassau, um dos maiores governantes que esse pas j teve, pelo profissionalismo e competncia, que radicalmente modernizou o Recife, com nova arquitetura, novos costumes e nova diversidade populacional, que inclua calvinistas e judeus de origem portuguesa vindos dos Pases Baixos.
Um livro que celebra o novo selo e consagra o nosso mais conceituado historiadordaatualidade.