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VIAGEM CASA DA NILA
VIAGEM CASA DA NILA

Estamos em 1976. Tenho apenas 23 anos e estou comeando o meu trabalho como professor numa das maiores escolas de Cuiab: A escola Polivalente. Divido o meu tempo com o curso de Letras que estou fazendo e as aulas da escola. Gosto muito deste colgio e tambm do meu curso o qual fao com muita dificuldade, pois ganho muito pouco e tenho que pagar nibus, os estudos, a repblica, o hotel. No sobra dinheiro pra nada. Passo o dia inteiro com um lanche, pois como a escola fica longe de minha casa, no tenho dinheiro suficiente para ir e voltar.

O meu almoo quase sempre um guaran com um sanduche. Muitos professores ficam com d de mim e j fui comer na casa de alguns deles, mas fico muito perturbado em dar trabalho e despesas a pessoas que no tm nada com a minha dor.

J me disseram que posso pegar uma doena muito grave no estmago, mas estou disposto a enfrentar os desafios da vida.

E foi num dia deste que fui transportado a um pas completamente diferente do nosso: a Itlia. Esta, alm de ser uma viagem a uma antiga povoao onde eu morava, a lembrana dos fatos ocorridos naquele lugarejo. Trata-se de uma volta ao lugar e a um passado de minha vida, uma lembrana viva nos momentos em que eu percorria em esprito os mesmos lugares onde eu vivi por algum tempo, l no passado. Quanta saudade daqueles dias felizes de minha vida em outra existncia.

Eu me entristecia porque onde morvamos estava agora em completo matagal. No mora ningum por perto, visto ser um lugar de difcil acesso e as terras so bastante pobres. Impossvel uma agricultura no local porque trata-se de um lugar muito ngrime.

Eu e minha famlia morvamos s margens da nascente de um rio de guas barrentas. A casa ficava junto a um bloco de rvores. Havia outra casa um pouco afastada, cercada por um canavial. A terra na descida da estrada era uma mistura de areia branca com um vermelho escuro, muito mida.

A nossa casa ficava em cima de um morro e o cho ali era pedregoso. O rio no era to largo ali, mas corria muito rpido, devido a correnteza e as quedas d'gua, impossvel atravess-lo naquele local.

Havia uma estrada cheia de curvas que descia at a cidade. Na margem esquerda da estrada, tinha um cemitrio e margem direita um leve pedregulho. A estrada passava num lugar onde havia duas casas (Uma bem na subida e a outra l embaixo). As casas ficavam bem perto da estrada e havia uma fruteira grande em uma delas. No consigo lembrar do nome da fruteira. Eram frutos saborosos, todos amarelados, algo parecido com pssegos, mas confesso sinceramente, que jamais vi um p de pssego nesta existncia, nem sei se pode dar rvores altas.

A famlia em casa era grande. Lembro-me do meu pai ,de minha me, de duas irms. Eu e uma das irms ramos muito ligados. Tnhamos 7 e 8 anos.

Neste retorno no cheguei at a cidade que ficava a sete quilmetros dali. Fiquei impressionado vendo a casa da Nila e mais impressionado com a fruteira que tinham cortado.

A Nila no mais estava ali, somente a irm dela. Eu me lembro que gritava pela Nila, falava o nome dela, queria saber para onde ela tinha ido. Ningum queria me falar nada sobre ela. Eu no tinha muita inteligncia, era muito pequeno, no entendia de nada ainda, nada sabia sobre morte, mas algo me dizia que eles estavam escondendo alguma coisa e esta coisa eu sabia que era a morte. Eu no disse a ningum, mas eu sabia que a Nila tinha morrido e eles me escondiam a verdade. No me falaram nada, absolutamente nada sobre a Nila.

Lamentei por no encontrar a Nila e fiquei ao mesmo tempo muito triste. Eu a conhecia h muito tempo. Nila era muito boazinha, era minha madrinha. Era baixa e tinha cabelos negros, longos e escorridos. Gostava de usar roupas brancas. Tinha um rosto alegre e olhos bem negros. Era uma pessoa que gostava muito de mim. Fazia tudo por mim.

Tudo isto fica na Itlia, no sei dizer exatamente onde, pois no me foi permitido aprofundar mais. O clima era frgido, corria um ar muito frio e a vegetao ali naquele lugar era muito verde. Diferenciava muito da vegetao brasileira.

Consegui relembrar a caminhada que enfrentava para a escola com minha irm todos os dias. amos a p do stio at a cidade. No reclamvamos e at gostvamos disto. Parvamos sempre na casa da Nila, onde eu me preparava para pedir e comer bastante daqueles frutos amarelos. O que esqueci completamente foi o nome da irm da Nila. Era- me era indiferente, parece que no gostava de mim. Eu no tinha muita amizade com ela. A Nila apresentava-se como a pessoa favorita do meu corao. Tambm no me lembro do nome das outras pessoas que moravam com a Nila.

No momento portava uma camisa branca e estava bem calado. Usava calas curtas e levava uma pasta em minha mo. Vi at a cor da pasta, da roupa. Incrvel, eu era a criana e o adulto que sou.

Chegando casa da Nila, certa vez, uma idia veio-me na cabea: cortaram o p de fruta. E eu que gostava de saborear daquela fruta, uma fruta amarelada e carnuda.

A minha irm tinha quase o meu tamanho, era meiga, bonita, tmida e de nvel cultural bem mais baixo que o meu. Ela Obedecia o que pedia para fazer. Ns vivamos felizes naquele pequeno lugarejo. Sentia-me tranqilo naquele pequeno mundinho.

Agora retornando em todos aqueles lugares, fico com muita saudade. A Nila deixou-me uma impresso to forte que pensei estar novamente vivendo naquele lugar. E como eu gostaria. At me esqueci do corpo que tenho. Tudo pareceu-me to real que faria tudo para permanecer ali, mas convivendo com as pessoas daquele tempo. Sinto uma saudade to grande dentro de mim que s vezes me entristeo de no poder voltar quele tempo e lugar. Isto agora impossvel. O fato aconteceu h mais de 200 anos e eu ali mesmo desencarnei aos 9 anos de idade. No entanto aquele pequeno fluxo de felicidade ficou gravado em mim, as imagens daquele tempo no me saem mais da mente. O grande morro, o rio barrento com grandes corredeiras, as rvores, a estrada cheia de pedregulho, a casa da Nila,, a Nila, a irm dela, o pai dela que tambm estava l, as minhas duas irms, o meu pai, minha me, o nosso uniforme xadrez da escola. Tudo ficou eternamente na lembrana.

VIAGEM A CASA DA NILA

Por: Henrique Pompilio de Arajo

Perfil do Autor

(Artigonal SC #3212367)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/meditacao-artigos/viagem-a-casa-da-nila-3212367.html




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