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subject: PÓS-MODERNIDADE E RELIGIÃO [print this page]


ESPIRITUALISMO E PS-MODERNIDADE
ESPIRITUALISMO E PS-MODERNIDADE

Domingos Vieira.

Alguns autores fazem anlises acuradas da sociedade atual, reconhecendo, no entanto, que no visualizam as solues. Em linhas gerais, esses autores reproduzem o modelo psicolgico fomentado pelo iluminismo. O iluminismo decorreu da ascenso, durante centenas de anos, da classe dos comerciantes e afins, at a tomada do poder poltico. A sociedade atual est estruturada, em grande parte, pelos ideais e perspectivas de comerciantes, industriais, banqueiros e especuladores.

Para que esses ideais, pelo menos aparente e transitoriamente, prevalecessem, tornou-se necessrio procurar banir do horizonte emocional e intelectual a transcendncia. O bem estar e a felicidade devem ser buscados nas posses, no entretenimento, no acmulo de conhecimentos e desenvolvimento de tcnicas que favoream o consumo. Se os entes humanos buscarem a felicidade, em primeiro lugar, na dimenso profunda, transcendental, o modelo dos detentores do capital entra em colapso.

H quatro nveis em que se busca o bem-estar e a felicidade: o campo fsico, o campo dos sentimentos, sensaes e emoes, o campo intelectual e o campo espiritual. Os trs primeiros so limitados, e a busca apenas nesses campos resulta em continuao do sentimento de incompletude, o que leva a mais busca nesses mesmos campos. S h busca, obviamente, porque h carncia, necessidade, sentimento de incompletude. O que diz a religio? Busque, em primeiro lugar, e sem negar os demais campos, o que mais profundo em voc mesmo, o esprito. E diz que o esprito pleno.

Para o iluminismo, portanto, a religio significa trevas. Para demonstrar isso, aponta-se uma das formas do cristianismo, a oficializada a partir de Teodsio, e a igreja catlica, com todas as suas distores, como se retratassem a totalidade do que a religio. s trevas religiosas opem-se as luzes da nova viso, que garantem a perseguio do bem estar unicamente no campo dos fenmenos.

Desbancada a religio, reduzida a uma insignificncia, a interesse de pessoas ingnuas, primrias, o campo est aberto para as vendas, para os lucros, para o acmulo de riquezas, para a especulao, para a busca da felicidade e da plenitude por meio do consumo. Posteriormente, percebe-se que a religio no precisa ser totalmente negada ela passa a ser mais um entre os itens de vendas, de faturamento, e pode ser reestruturada para favorecer o consumo por parte das pessoas de mentalidade primria e para as manipular.

O que toma o lugar da religio como estruturadora do viver dirio e dos valores que o conduzem? A razo e a cincia. Qual a promessa para que haja essa substituio? A construo de uma boa sociedade, justa, sem as distores que resultam da ignorncia, das crendices e supersties religiosas. Estamos na modernidade, e erigiremos uma nova ordem, uma nova ordem secular, do sculo, do tempo, ou seja, do mundo. A nova ordem mundial. O ser humano, desinteressado de sua dimenso mais profunda e, portanto, mutilado, passa a ser o centro da nova forma de viver. A partir dessa mutilao, que recebe o pomposo nome de "emancipao", ele constri a "nova ordem".

Marxismo, darwinismo, psicanlise, domnio da tcnica e consumo desenfreado decorrem, todos, dessa nova ordem secular. O resultado, em todo o mundo, em graus variados, o que vemos hoje: banalidade, incerteza, liberdade para decorar de forma melhor as prises, enorme destruio, pobreza crescente, crescente violncia, assombrosa corrupo, relacionamentos e identidades superficiais e descartveis, e uma infinidade de outros males. As expectativas e as esperanas que restam aos entes humanos so as que esto relacionadas ao desenvolvimento e consumo de novos produtos da tcnica. Chegamos ao que chamado, entre outros termos e expresses, de "ps-modernidade". A promessa de uma boa sociedade, baseada na cincia e na razo, que tm o seu lugar prprio, mas so limitadas, resultou em desastre.

Vivemos os desastres pessoais, interpessoais, coletivos, econmicos, ecolgicos, morais e de falta de sentido, entre outros. A banalidade passa a se alimentar da prpria banalidade.

A ps-modernidade a modernidade reconciliada com sua prpria inviabilidade, como diz Bauman em um dos seus livros. A razo limitada, a cincia limitada; no fornecero as respostas, no iro apresentar a soluo. Para os que vem a vida do ponto de vista limitado, s resta buscar as "celas especiais", cada vez mais ameaadas, contudo, pelos ocupantes das "celas comuns".

H transcendncia que no seja apenas uma idia? A transcendncia bvia, mas no para os que vivem na banalidade, para os que foram atrados para a banalidade. O fato simples, mas exige grande reflexo, grande investigao.

Quem sou eu? Uma vez que o intelecto que tem seu lugar prprio limitado e no pode dar a resposta; uma vez que a cincia, que funciona com base em modelos, que so sempre precrios, transitrios, no pode fornecer a resposta quem sou eu?

Ao fazer essa pergunta estou diante de algo, eu mesmo, que no pode ser contido pelo intelecto. Eu contenho o intelecto. Eu sou esse incognoscvel. A totalidade da vida esse incognoscvel.

A religio toma vrios aspectos, a depender dos diversos graus de percepo, de compreenso, de maturidade. Em sua manifestao original e mais elevada, est voltada para a verdadeira natureza de todos os seres e de todas as coisas. As separaes vistas no campo dos fenmenos existem apenas no nvel das avaliaes, dos modelos mentais, das representaes. A caracterstica fundamental de todas as coisas que elas so vazias de substncia prpria, como disse Budha.

H separao na coisa em si? Tomemos uma rocha: o que ela em si mesma? O intelecto, a cincia e a razo no podem responder. Podem-se criar diferentes modelos para explic-la, mas a idia no a coisa, os modelos no so a coisa em si, as representaes no so a coisa representada. Fragmente-se a rocha. H uma coisa em si diferente para cada uma das partes, e, portanto, diferentes coisas em si? H uma coisa em si para o observador e outra para a coisa observada? Ou o que h uma unidade?

Para investigar isso, a mente tem de estar livre da tirania dos modelos e das promessas inerentes a eles, o que significa que deve haver um grande descontentamento somado compreenso da limitao de todos os modelos.

No se pode esperar que todos se interessem por esse tipo de investigao, mas alguns indivduos, mesmo que estejam fortemente condicionados pelos ideais seculares, podem, vendo o desmoronamento geral que ocorre na ps-modernidade, compreender a limitao do intelecto, da razo, da cincia e, portanto, dos modelos mentais, dos conceitos, das representaes, das idias, e ficar diante do incognoscvel eles mesmos e a totalidade da vida. Incognoscvel apenas para um instrumento de que dispomos, o intelecto. Coisa alguma incognoscvel para si prpria.

Esse chamado "incognoscvel" tem limites, incompleto? Ou infinito e inclui todos os aspectos da vida, que so aparncias suas, quer dizer, so formas transitrias em que o infinito aparece para si mesmo, manifestaes da conscincia?

Algum disse a Ramana Maharshi que, com base nas descobertas da fsica, o ocidente passou a considerar que matria e energia so a mesma coisa, tm a mesma natureza. Ramana Maharshi sorriu e disse: "Agora falta apenas eles descobrirem que a energia conscincia".

PS-MODERNIDADE E RELIGIO

Por: Domingos Vieira

Perfil do Autor

(Artigonal SC #3202368)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/religiao-artigos/pos-modernidade-e-religiao-3202368.html




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