subject: A insónia de Margarida [print this page] No silncio da noite, emerge do escuro os pensamentos da morte anunciada, embora sem data marcada, tende a permanecer de forma bem vincada.
A tranquilidade do corpo e a alma atormentada, fabrica a insnia no desejada, porque algo queremos esquecer, que por lembrar nos agita, e no nos deixa adormecer.
Doutor, eu sofro de insnias, diz a Margarida.
Receite um sedativo qualquer para que possa descansar em paz.
Na realidade ela no sofre de insnias, apenas a consequncia de um mal estar interior proveniente de pensamentos mais ou menos obsessivos, que no a deixa adormecer, e para eles a receita mdica no existe.
O sedativo que deseja a morte artificial que deseja como forma de a impedir de pensar.
A Margarida entrou numa espcie de labirinto em que anda sempre s voltas, com o remdio, a insnia e os pensamentos que no deseja, e no encontra qualquer sada.
Mas a coisa est equilibrada, tomo o remdio quando sinto que no consigo adormecer, e de seguida nem os pensamentos ficam para causar a tormenta.
Mais tarde confessa, que toma o remdio antes que os pensamentos tomem conta de si, deslocando a obsesso, que antes estava vinculada a determinados pensamentos, e a preocupao voltou-se para o remdio, que a salva da tempestade psquica.
Mas que feito dos pensamentos da Margarida ?
Desapareceram como por encanto ?
Ou simplesmente permanecem iguais, intocveis, embora ocultos ?
Eles esto aquietados, mas continuam espreita atrs de uma porta qualquer, espera que ela se abra para fazer sentir Margarida a sua presena.
O pensamento reclama, e em voz baixa deixa escapar um lamento :
- Como a Margarida pode ser to ingrata ao desejar abandonar-me, quando fao parte do seu corpo ?
Triste, e pensando estar abandonado, deixa-se ficar a um canto recolhido na esperana que a Margarida note a sua presena, e o chame de volta ao seu convvio.
Est aquietado mas no conseguiu sair do corpo, porque est alojado na alma.
Mas como mandar embora o malvado, que tantas noites de tormenta tem causado ?
A Margarida parece no saber por isso interroga-se.
Deixa passar a ideia de uma impossibilidade em relao ao seu prprio pensamento, em que sente que dominada por ele, e no consegue uma autonomia que lhe permita mandar pela porta fora aquilo que a atormenta.
Eu no consigo deixar de pensar, afirma ela.
O que ela no consegue pensar de forma diferente, porque deixar de pensar s mesmo um ataque de amnsia, ou o remdio.
Mas como pensar diferente daquilo que penso ?
Pensando.
Mas se eu no consigo pensar de modo diferente, e por isso tomo o remdio, como um dia o poderei conseguir ?
Pensando.
Mas o qu ?
Acerca de coisa diferentes.
Mas isso o que no consigo fazer, afirma ela.
A Margarida tem razo, e nem vale a pena insistir que ela tem que pensar em coisas diferentes, porque demonstra uma incapacidade prpria em o fazer, e est aprisionada a uma forma de pensar, que bloqueia a sua prpria liberdade em pensar outra coisa qualquer.
Curioso, o remdio prende o pensamento, e o coloca na cadeia, e quando liberto, a instabilidade emocional toma conta da Margarida.
Existe, muito embora inconsciente uma forma proibitiva e punitiva, que emerge da forma de pensar da Margarida, em que tenta eliminar a insnia com recurso a um remdio, que o instrumento agressor e punitivo, que vai reprimir os pensamentos demonacos contidos em si.
O doutor parece ser visto como o pai salvador, que a livra de tais pensamentos.
Obrigado senhor doutor por livrar-me do mal, Amn, bem haja.
O passado da sua infncia por vezes o deixa escapar numa mera conversa entre amigos, em que perante a queixa de um deles, por sinal muito mais novo que ela, por estar incomodado com as sucessivas proibies dos pais, que nada parece estar bem para eles, que s sabem gritar, chegando tantas vezes agresso fsica, a Margarida tenta aconchegar o amigo e desabafa :
Deixa que tudo passa, tem pacincia, os meus tambm eram assim.
Ela sem o saber tinha levantado a ponta do vu.
A luz do dia invade o quarto de Margarida, o despertador agita-se e emite um som esganiado, como que aflito, na tentativa desesperada de a acordar, porque essa a sua funo, a despertar para a vida.
Margarida fica imvel, e nem sequer parece ouvir quem a chama, e o despertador cala-se cansado de tanto gritar por ela, mas aps uma pausa em que tentou ganhar flego, l volta a tocar a corneta como se estivesse num dormitrio militar, que todos devem levantar porque a ordem reunir as tropas na parada.
Com algum esforo abre um olho, e deixa-se penetrar pela luz que a estava a iluminar vai para duas horas, muito embora permanecesse no escuro.
De seguida abre o outro, movimenta o brao, faz um click, e o despertador no mais vai dar acordo de si, pelo menos durante aquela manh, at que seja programado de novo.
O remdio para aquele som estridente, irritante, que se fazia ouvir por toda a casa, foi o click, que o retirou da sua funo prpria, despertar.
Se a Margarida o quiser de novo ouvir, ter que o programar novamente.
Mais minuto menos minuto ele estar novamente a emitir os mesmos sons, que se pode repetir todas as manhs se a Margarida assim o desejar, at que um dia perca as suas funes e seja colocado no lixo, ou nas mos de um homem sabedor do ofcio que consiga novamente o despertar para sua funo, que despertar os outros.
O mundo gira, as pessoas movimentam-se, o barulho comea a invadir a casa de Margarida, as portas que batem, de gente que entra e sai de um qualquer apartamento, o elevador que sobe e desce, ouvem-se os gritos dos carros porque algo os parece atrapalhar na sua roda viva de ida e volta para um local conhecido ou incerto, e Margarida parece ganhar a tranquilidade que ao cair da noite lhe fugira.
A diferena a noite e o dia, a luz e as trevas, a tranquilidade e a agitao, o branco e o preto, o movimento e o imobilismo.
Margarida interroga-se e com seus botes, tenta perceber, se ela a noite ou dia, se a luz ou as trevas, se o movimento ou o imobilismo, ou se ambas as coisas.
Um encontro ao sair do prdio a desvia daquele pensamento, e as cores, o movimento, e a ateno necessria que deve ter para andar na rua, a fazem esquecer do que tinha perguntado a si mesmo.
Mais uma vez a reflexo ficou adiada, porque algo sempre se intromete entre o que deseja pensar e saber, que o prprio movimento do corpo a faz esquecer.
E a histria tende a repetir-se a cada dia que passa, embora no da mesma forma, mas semelhante.
De volta a casa, ao fim da tarde, comea a ter uma sensao estranha como se fosse o regresso casa dos horrores, das bruxas, dos demnios, e passa-lhe pela cabea entrar num bar e beber, na tentativa de aliviar essa satisfao de mal estar interior.
Resiste e toma o caminho de casa.
Durante a curta caminhada vem novamente o pensamento que lhe pergunta:
Margarida porque a esta hora do dia, do regresso a casa ao fim da tarde to dolorosa para ti ?
Mais uma vez a pergunta fica por responder, por no saber porque tal acontece.
Mas algo ela sente, medo.
Um medo que vem no sabe de onde, mas que persiste e tende a permanecer, muito embora todo o esforo para o deixar de sentir, cuja nica salvao o milagroso sedativo, que a coloca no sono da morte, e nada pode ser lembrado.
Bendito seja o Senhor , doutor que aliviou meu sofrimento.
A receita mdica sempre recomendvel para aliviar o sofrimento, mas existe algum motivo em particular para no procurar um psicanalista ?