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O sentido do equilíbrio e a visão

O SENTIDO DO EQUILIBRIO E A VISO

O SENTIDO DO EQUILIBRIO E A VISO

Prof.Leandro Rhein Coordenador do Curso de ptica e Optometria da UBC jlrhein77@uol.com.br

Estando o nosso corpo todo, ou parte dele, parado ou em movimento, os proprioceptores garantem que tenhamos a percepo cinestsica. O sentido vestibular ou do equilbrio tambm est intimamente associado a esta sensibilidade, pois seus receptores detectam os movimentos originados exclusivamente na cabea. A sensao de equilbrio/desequilbrio do corpo e os movimentos de rotao da cabea so detectados pelo sistema vestibular que considerada uma forma de propriocepo especial, e est intimamente ligada a viso. O sistema vestibular situa-se dentro do osso temporal, adjacente a cclea e faz parte da orelha interna, e possui conexes com uma via do corpo geniculado lateral (Via Visual Terciria). formado por um labirinto sseo dentro do qual membranas formam trs canais semicirculares(horizontal, superior e posterior), e dois rgos otolticos (sculo e o utrculo). O interior dos canais e dos rgos otolticos preenchido pela endolinfa como na escala coclear mdia enquanto a perilinfa banha o espao entre o labirinto sseo e o membranoso. Os respectivos neuroepitlios que contem os rgos sensoriais so protegidos de distores mecnicas irrelevantes como aquelas causadas pela contrao muscular ou a pulsao dos vasos.

Canais Semicirculares

Os trs canais semicirculares de cada lado esto orientados perpendicularmente entre si, sendo co-planares em relao aos do lado oposto o que garante uma abstrao tri-dimensional do espao. Esse design garante que qualquer movimento espacial de rotao da cabea possa ser detectado. Cada canal possui uma dilatao em sua extremidade denominado ampola. Dentro de cada ampola est o neuroepitlio (cristas ampulares) que contm as clulas sensoriais ciliadas. Os clios dessas clulas esto mergulhados numa cpula gelatinosa que quase obstrui a luz do canal. Todas as vezes que a cabea rotacionada (para cima, para baixo ou para os lados) a endolinfa no interior dos canais se move em sentido contrrio devido inrcia e causa uma deformao mecnica na cpula. Em resposta deformao mecnica, os clios so tracionados e respondem com alteraes na condutncia inica de membrana, ou seja, com despolarizao ou hiperpolarizao, conforme o sentido de movimento do lquido. As clulas sensoriais ciliadas fazem sinapses excitatrias com as fibras aferentes vestibulares do VIII par craniano. A freqncia de despolarizao das fibras aferentes primrias vai, assim, depender da quantidade de neurotransmissores liberados como acontece com as clulas sensoriais ciliadas acsticas. Acompanhando as respostas dos canais horizontais, verificamos que as clulas sensoriais do lado esquerdo so excitadas devido ao movimento dos clios em direo ao utrculo. Como conseqncia, as fibras aferentes correspondentes, respondem com um aumento de descarga na freqncia dos Potenciais de Ao (PA). No lado oposto, o liquido se movimenta no mesmo sentido, mas em oposio orientao dos cineclios, causando hiperpolarizao das clulas receptoras deste lado e reduzindo a descarga de PA nas fibras aferentes deste lado. O SNC compara a freqncia de disparos dos PA das fibras aferentes, detectando em que sentido se deu o movimento da cabea. Assim, os diferentes padres de movimentos de rotao da cabea so reconhecidos no SNC atravs da integrao da sensibilidade originada nos trs pares de canais semicirculares. difcil experimentar e descrever com clareza esta sensibilidade, pois praticamente inconsciente, mas a sua importncia se faz presente quando ocorre o seu dficit ou funcionamento anormal, por exemplo, durante a vertigem.

Movimentos oculares reflexos causados por estmulos vestibulares (Estabilizao do Olhar)

Essencialmente reflexo, cuja funo a de manter a imagem visual focalizada sobre a retina, seja porque os objetos esto se movendo dentro do campo visual ou porque ns que estamos nos movendo. Em ambos os casos h o risco de a imagem ficar fora de foco. Se a cabea est se mexendo, ento o sistema vestibular deve acionar os neurnios motores oculares e realizar os ajustes necessrios. Imagine-se correndo: a cada trepidao da cabea, os olhos devem se mover em sentido contrrio para manter o olhar fixo em um determinado ponto frente. Se no ocorressem esses movimentos oculares compensatrios, o objeto estaria sempre saindo fora de foco. Estes movimentos oculares causados por estmulos vestibulares so denominados nistagmo vestibular. Mas se "o mundo que se move", as informaes visuais acionam os msculos oculares via ncleos do colculo superior (rea pr-tectal) situados no mesencfalo. Os neurnios coliculares so especialmente sensveis a estmulos visuais contendo movimento e recrutam os neurnios motores do globo ocular causando os movimentos compensatrios todas as vezes que os objetos dentro do campo visual estiverem se mexendo (nistagmo optocintico).

Visualize um Nistagmo Induzido

Pea a um colega sentar-se sobre uma cadeira giratria. Gire a cadeira vrias vezes e pare-a subitamente. Repare que os olhos do colega realizam movimentos oscilatrios de vai-e-vem: eles se desviam lentamente para um lado, e se voltam rapidamente posio anterior para depois repetir este ciclo novamente. Esses movimentos oculares horizontais de vaivm so denominados nistagmo rotacional (Movimentos Sacdicos) e so evocados pela estimulao dos canais semicirculares. Mesmo depois da cabea ter parado de rodar, o liquido endolinftico continua a estimular artificialmente as cristas ampulares em funo da enorme inrcia. As aferncias vestibulares chegam nos ncleos culo-motores "tentando" compensar a suposta rotao da cabea e causa o movimento lento. Mas o reflexo optocintico (voluntrio) tenta compensar o suposto movimento do mundo e causa o movimento rpido.

Baseado no principio de que o aumento de temperatura causa movimentos de conveco da endolinfa, os clnicos testam integridade do reflexo da seguinte maneira: pingam gua fria (30oC) ou quente (44oC) dentro da orelha externa e observa a resposta ocular. Em um paciente em coma, o componente lento estar totalmente ausente j que esse reflexo mediado ao nvel do tronco enceflico.

Sculo e Utrculo

O neuroepitlio do utrculo est orientado horizontalmente e o sculo verticalmente. A membrana otoltica denominada mcula, possui receptores sensoriais ciliadas (Tipo1 e Tipo2) cujos clios tambm se encontram livres e mergulhados em estruturas cupulares, porm mais rgida devido a uma matriz gelatinosa. Dentro desta matriz, encontramos depsitos de carbonato de clcio, ou otlitos, menos densos e que ficam suspensos. Esta massa gelatinosa e os otlitos so denominados membrana otoltica. As clulas ciliadas fazem sinapses excitatrias com as terminaes nervosas do nervo VIII, cujos corpos neuronais esto nos gnglios vestibulares ou de Scarpa e quando os clios so deslocados, respondem como as demais clulas ciladas, com despolarizao ou hiperpolarizao, determinando a quantidade de NT liberados. A membrana otoltica mais densa do que a linfa cerca de duas vezes. Assim, diferente do que ocorre nos canais semicirculares, a membrana otoltica sofre efeitos de acelerao devido fora de gravidade. Essa sensao vestibular pode ser experimentada conscientemente quando estamos parados em um elevador em movimento. Como o corpo est sendo movimentado, mesmo sem mover a cabea, experimentamos o que chamamos de acelerao linear. o que tambm experimentamos dentro de um carro em acelerao. Assim durante o movimento da cabea, enquanto os canais semicirculares detectam a acelerao angular, os rgos otolticos detectam a acelerao linear. As mculas utriculares e saculares possuem ambas, uma superfcie curva e as clulas esto dispostas em um mosaico que seguem um padro em vrias direes. Na figura ao lado podemos observar o plano de disposio das duas mculas uma em relao outra. As setinhas indicam a orientao ou polarizao dos cineclios, ou seja, a inclinao que causam despolarizaes nas clulas sensoriais. Quando ns aceleramos estaticamente para frente/para trs, a membrana otoltica, que mais densa, desloca-se no mesmo sentido do movimento, causando movimentos dos clios. Como a orientao dos clios varia por toda a superfcie da mcula, qualquer inclinao da cabea excita uma populao de clulas ciliadas e, ao mesmo tempo, inibe outra, gerando um padro especfico de atividade aferente quanto inclinao que a cabea sofre. Se formos acelerados (dentro do carro, elevador, etc.) a membrana otoltico deslocam em sentido contrrio.

Vias vestibulares

Os receptores vestibulares so considerados tambm proprioceptivos, pois assim como os rgos tendinosos de Golgi, fusos musculares e receptores articulares, evocam sensaes somticas originadas da postura e o movimento da cabea. As fibras sensitivas do sistema vestibular convergem para o gnglio vestibular ou de Scarpa (neurnios de 1a. ordem) e os axnios mielinizados formam a poro vestibular do nervo vestbulo-coclear (VIII par craniano) e projetam-se nos ncleos vestibulares. Os axnios dos ncleos vestibulares (2a. ordem) se projetam para vrios locais, conforme a via consciente ou inconsciente.

Via inconsciente: para o cerebelo (lbulo flculo-nodular) atravs do fascculo vestbulo-cerebelar;

Via consciente: cujo trajeto ainda obscuro, porm h projees no crtex, no lobo parietal, prximo inervao somestesica da face.

As informaes dos ncleos vestibulares destinam-se tambm para:

1) Ncleos oculomotores (III par): controla o movimento dos olhos (reflexo vestbulo-ocular)

2) Neurnios motores medulares dos membros e pescoo contribuindo com reflexos vestbulo-espinhal (reflexos de endireitamento).

3) Formao reticular

4) Complexo vestibular contralateral.

Referncias Bibliogrficas

BEAR, Mark F.; CONNORS, Barry W.; PARADISO, Michael A. Neurocincias: desvendando o sistema nervoso. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

COVIAN, Miguel R. Regulao da Postura. In: HOUSSAY, Bernardo A. Fisiologia humana. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1984.

ENOKA, R. M. Bases neuromecnicas da cinesiologia. 2. ed., So Paulo: Manole, 2000.

MACHADO, ngelo. Neuroanatomia funcional. 2. ed. So Paulo: Atheneu, 2003.

MOORE, Keith L.; DALLEY, Arthur F. Anatomia orientada para clnica. 4. ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.

SPENCE, Alexander P. Anatomia humana bsica. 2. ed. So Paulo: Manole, 1991.

TAVARES, Paulo; FURTADO, Mozart; SANTOS, Fernando. Fisiologia humana. Rio de Janeiro: Atheneu, 1984.

O sentido do equilbrio e a viso


Por: Leandro Rhein

Perfil do Autor

Leandro Rhein atualmente est participando do Programa de Ps-Doutorado da USP de Sistemas Neurais, e fazendo Graduao em Cincias Sociais. Possui graduao em Tec. Oftlmica pela UNIFESP, Complementao do Curso em Ortptica pela Universidade de Londres e Mestrado em Neurobiologia pela UFPR; Doutorado em Neurologia Experimental pela USP e Universit Degli Studi di Roma "La Sapienza" e outras especializaes, tais como Contatologia, Imunologia Ocular, Baixa Viso e Admnistrao Hospitalar. Atualmente Professor e Coordenador da Universidade Braz Cubas . Tem experincia na rea de Neurorreabilitao Visual e Neuroviso, atuando principalmente nos seguintes temas: Neuro-Ortptica, Neuroviso e Desenvolvimento Normal e Anmalo da Viso. (Artigonal SC #3385918)

Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/medicina-artigos/o-sentido-do-equilibrio-e-a-visao-3385918.html
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